Pacientes com sintomas leves da Covid podem transmitir o vĂ­rus por mais de 30 dias

Por G1 23/03/2021 Ă s 10:04

Estudos conduzidos no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de SĂŁo Paulo (IMT-USP) tĂȘm mostrado que, em alguns pacientes com sintomas leves, o coronavĂ­rus pode permanecer ativo no organismo por mais de 30 dias, perĂ­odo superior ao de isolamento recomendado atĂ© entĂŁo, que Ă© de 14 dias.

Este mĂȘs, os pesquisadores publicaram um artigo na plataforma cientĂ­fica medRxiv relatando casos em que o coronavĂ­rus permaneceu ativo no organismo de duas pacientes por mais de 30 dias.

Além de terem os sintomas por todo este período, elas também permaneceram transmitindo o vírus.

No primeiro caso, uma paciente foi atendida pela primeira vez em abril de 2020 e relatou que vinha hå 20 dias com sintomas como tosse seca, dor de cabeça, fraqueza, dor no corpo e nas articulaçÔes.

Um exame de RT-PCR feito 22 dias após o início do quadro confirmou a presença do vírus no organismo e, nos dias seguintes, a paciente apresentou nåusea, vÎmito, perda de olfato e paladar.

Um segundo teste molecular feito 37 dias após o início dos sintomas também teve resultado positivo. Em meados de maio, a maioria das queixas havia desaparecido, exceto dor de cabeça e fraqueza.

O segundo caso observado ocorreu em maio, quando uma paciente, diagnosticada com o vĂ­rus, permaneceu sintomĂĄtica durante 35 dias.

Segundo o estudo, ela apresentou febre, dor de cabeça, tosse, fraqueza, coriza, nåusea, dor no corpo e nas articulaçÔes, e fez o primeiro teste de RT-PCR cinco dias após o início dos sintomas.

Como o problema persistiu, ela fez um segundo teste no 24Âș dia e, novamente, a presença do coronavĂ­rus foi confirmada.

“O material [amostras de secreção nasofarĂ­ngea das pacientes] foi inoculado em uma cultura de cĂ©lulas epiteliais e, apĂłs diversos testes, confirmamos que o vĂ­rus ali presente ainda estava viĂĄvel, ou seja, era capaz de se replicar e de infectar outras pessoas”, explicou a professora do IMT-USP Maria Cassia Mendes-Correa Ă  AgĂȘncia FAPESP.

A conclusão do artigo, que ainda precisa ser revisado pelos pares, é que os dez dias de isolamento recomendados atualmente pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos para casos leves da Covid-19 podem não ser suficientes para evitar novas contaminaçÔes.

Além dos dois casos relatados na publicação, o Instituto da USP vem observando outros casos em que o paciente permaneceu com o vírus ativo, inclusive em fase de transmissão, por até 50 dias.

“As anĂĄlises indicam que o RNA viral permanece detectĂĄvel por mais tempo na saliva e na secreção nasofarĂ­ngea. Em 18% dos voluntĂĄrios, o teste de RT-PCR nesse tipo de amostra permaneceu positivo por atĂ© 50 dias. Entre estes, 6% mantiveram-se transmissores [com o vĂ­rus ainda se multiplicando] durante 14 dias”, conta Mendes-Correa.

Imunossuprimidos podem transmitir por meses
A coordenadora dos estudos também ressalta casos ainda mais preocupantes: o de pacientes imunossuprimidos infectados com coronavírus.

Até o momento, dez voluntårios foram incluídos no projeto do IMT-USP e um deles permanece com a infecção ativa no organismo por mais de seis meses.

“Trata-se de um paciente submetido a um transplante de medula Ăłssea antes de ocorrer a infecção. As anĂĄlises indicam que a carga viral em seu organismo Ă© elevada e que o vĂ­rus Ă© altamente infectante. Por esse motivo ele continua em isolamento, mesmo passado um longo perĂ­odo apĂłs o inĂ­cio dos sintomas”, conta Mendes-Correa.

A pesquisadora ressalta a necessidade de monitorar com atenção casos como esse, que oferecem condiçÔes ideais para o surgimento de variantes virais potencialmente mais agressivas.

(Foto: Wagner MagalhĂŁes/G1)

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