IncĂȘndio no prĂ©dio da Assembleia Legislativa do Acre completa 29 anos nesta sexta

Por TIÃO MAIA, PARA CONTILNET 30/04/2021 às 09:18 Atualizado: hå 5 anos

Eram 15h10min do dia 30 de abril de 1992, uma quinta-feira, quando uma sirene de alarme tocou no quartel do Corpo de Bombeiros, localizado no bairro Invernada, em Rio Branco: o prédio sede da Assembleia Legislativa, no Centro da Capital, estava em chamas. Não era trote. Era o início do maior sinistro jå registrado na história do Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC), que destruiu, além do prédio, todo o acervo histórico e documentos do Poder Legislativo, de 1962 até aquele dia que estå marcado até hoje na vida de muitas pessoas que assistiram ao sinistro ou que estavam no prédio e foram socorridas graças à ação dos heroicos militares do Corpo de Bombeiros.

Dos que viram a tragĂ©dia de perto, estĂĄ o entĂŁo soldado que arriscou sua vida para ir ao topo do prĂ©dio para socorrer pessoas que, caso nĂŁo fossem imediatamente atendidas, ameaçavam se jogar no chĂŁo. Era o caso do casal Franciberto Castro e sua esposa NazarĂ© Jorge de Castro, entĂŁo assessores na Casa, e a jovem Maria JosĂ© Solon da Paz, entĂŁo com 19 anos, que foram obrigados a se protegerem no terraço do edifĂ­cio porque quando perceberam o incĂȘndio, as escadas jĂĄ estavam tomadas pelo fogo e fumaça.

IncĂȘndio no prĂ©dio da Assembleia Legislativa do Acre completa 29 anos nesta sexta

IncĂȘndio na Aleac completa 29 anos/Foto: reprodução

Para uns, mais um dos crimes misteriosos que aconteciam envolvendo a polĂ­tica no Acre naqueles tempos, quando levou inclusive ao assassinato do governador Edmundo Pinto num quarto de hotel, em SĂŁo Paulo, no dia 17 de maio daquele ano de 1992. Para outros, um acidente qualquer mas que nĂŁo deixou de ser o maior incĂȘndio da histĂłria do Acre e que destruiu o prĂ©dio-sede da Assembleia Legislativa na tarde de 30 de abril, hĂĄ 29 anos.

O que reforça a tese de que o Acre daqueles tempos foi levado ao olho da conspiração polĂ­tica foi o assassinato de Edmundo, a tiros, duas semanas apĂłs o incĂȘndio da sede do Poder Legislativo, prĂ©dio que leva o nome do senador JosĂ© Guiomard Santos, o autor da lei que permitiu a elevação do entĂŁo territĂłrio do Acre Ă  condição de Estado membro da Federação brasileira, em 1962. Faltando menos de trĂȘs meses para os 30 anos da vitĂłria polĂ­tica de Guiomard com a assinatura da Lei 4.060, pelo entĂŁo presidente JoĂŁo Goulart e o primeiro-ministro Tancredo Neves, a 15 de junho de 1962, a sede do prĂ©dio cujo nome foi dado em memĂłria do senador, sediara, atĂ© momento antes de ser tomado pelas chamadas, mais uma sessĂŁo da CPI (ComissĂŁo Parlamentar de InquĂ©rito) que investigava denĂșncias de irregularidades na contratação de obras pĂșblicas executadas ou que deveriam ser pelo governo de Edmundo Pinto.

Uma das obras em questĂŁo era o jĂĄ famoso “Canal da Maternidade”, em Rio Branco, que seria construĂ­do pela construtora baiana Norberto Odebrecht, que ficaria ainda mais famosa com as investigaçÔes da Operação Lava-Jato, em Curitiba, pela nada desprezĂ­vel quantia de 110 milhĂ”es de dĂłlares. De dĂłlares, registre-se.

A CPI investigava as suspeitas e a movimentação de LuĂ­s Carlos Piestchan, um ex-empresĂĄrio do ramo grĂĄfico que havia chegado ao Acre pelas mĂŁos do sempre polĂȘmico empresĂĄrio Zamir Teixeira, fazia menos de cinco anos. Em 1992, ainda imberbe, com 27 anos de idade, dono de incrĂ­veis olhos verdes que o levaram, em algum momento e com certo exagero, ser confundido com o ator norte-americano Brad Pitt, ainda tambĂ©m muito jovem a Ă©poca, LuĂ­s Carlos Piestchman havia inclusive aportuguesado o sobrenome alemĂŁo para Pitiman, a fim de tornar-se mais palatĂĄvel aos eleitores jĂĄ que, se aquelas ocorrĂȘncias trĂĄgicas nĂŁo tivessem sido registradas, ele seria, naquele ano, candidato a prefeito da Capital do governador Edmundo Pinto.

Na CPI da Assembleia, os deputados queriam saber como aquele rapaz de incríveis olhos verdes havia se tornado tão poderoso, inclusive em Brasília, capaz de arrancar, do governo federal, quantias tão vultosas como aquela que deveria ser investida no Canal da Maternidade. Uma quantia que, em valores de hoje, superaria a casa de meio bilhão de reais. Ao responder a uma pergunta do relator João Correia, num interrogatório praticamente no mesmo estilo de uma entrevista à TV-5, ao repórter Demóstenes Nascimento, que ficaria famoso porque entrevistado e entrevistador saíram literalmente na porrada em frente às cùmeras e ao vivo, Pitman deu um show à parte. Quando Correia o indagou sobre que milagre operava em Brasília em relação à quantia tão significativa de recursos que obtinha, Piestchman ou simplesmente Pitiman, disse, na cara dura e sem revirar os jå famosos olhos verdes:
– Eu sei o caminho das pedras em BrasĂ­lia, deputado.

Deveria saber mesmo. Dias antes deste interrogatĂłrio, o entĂŁo ministro do Trabalho, AntĂŽnio RogĂ©rio Magri, cujo MinistĂ©rio era tambĂ©m curador dos recursos do FGTS (Fundo de Garantia Por tempo de Serviços), de onde sairiam a dinheirama para financiar o Canal da Maternidade, havia sido flagrado numa gravação por um assessor confessando candidamente ter recebido propinas, na ordem de 40 mil dĂłlares, para liberar o projeto de construção de uma “vala no Acre”. A tal vala era o canal da Maternidade. Eram tempos do governo Fernando Collor.

Aqueles fatos iniciados em BrasĂ­lia tiveram seu ĂĄpice naquele 30 de abril, faltando poucos minutos para o meio dia. Ainda havia expediente no prĂ©dio quando deram os primeiros alarmes sobre o incĂȘndio. FuncionĂĄrios dos andares superiores, que nĂŁo conseguiram descer para o hall de acesso Ă  saĂ­da do prĂ©dio, subiram para o terraço, onde as chamas jĂĄ ameaçavam a chegar e alguns, dos que ali estavam, ameaçavam se jogar para uma morte menos cruel que morrer incendiado, como correra, nos ano de 1974, no EdifĂ­cio Joelma, em SĂŁo Paulo.

Mas, em meio a tantas tragĂ©dias, eis que surge, na Ă©poca, um herĂłi em carne e osso. Ele atendida pelo nome de Carlos Batista da Costa, um solado entĂŁo com 20 anos de idade e hoje o coronel Batista, atualmente comandante CBMAC. Ele recusa o tĂ­tulo de Ășnico herĂłi do sinistro, embora tenha sido ele o que mais se arriscou. “NĂŁo fui herĂłi sozinho. Por exemplo, para chegarmos ao topo da Assembleia, em meio ao fogo e fumaça, para salvar aqueles trĂȘs pessoas, o casal de assessores e a senhoras Maria JosĂ©, com equipamentos improvisados, eu tive a ajuda do entĂŁo cabo Almeida, hoje jĂĄ na reserva”, contou, com exclusividade ao ContilNet, o hoje comandante da corporação. Atuaram na operação pelo menos 50 bombeiros, inclusive os que nĂŁo estavam em serviço. “Nossa maior dificuldade Ă© porque, na Ă©poca, nĂŁo tĂ­nhamos o equipamento que temos hoje. Nem roupas apropriadas, como chamamos as roupas de aproximação. Enfrentamos a fumaça e o fogo apenas com os uniformes que vestĂ­amos”, disse o coronel. “Escalamos o prĂ©dio por trĂĄs e chegamos bem prĂłximo ĂĄs vĂ­timas mas nĂŁo tĂ­nhamos mais acesso por causa da falta de visibilidade por causa da fumaça. E ali constatamos que nĂŁo tĂ­nhamos onde prender as cordas com as quais descerĂ­amos as pessoas”, revelou.

IncĂȘndio no prĂ©dio da Assembleia Legislativa do Acre completa 29 anos nesta sexta

Coronel Batista, na época soldado que participou da operação de salvamento/Foto: cedida

Às vĂ©speras de completar  trĂȘs dĂ©cadas, aqueles acontecimentos fazem parte de um momento triste da histĂłria do Acre que a geração atual nĂŁo quer que se repita. NinguĂ©m pode afirmar com segurança se o sinistro foi criminoso ou nĂŁo. O fato Ă© que as investigaçÔes da CPI, como gravaçÔes em fitas cassetes, gravadores e documentos – tudo foi levado pelo fogo. NinguĂ©m foi indiciado ou preso pelas suspeiçÔes apontadas no relatĂłrio produzido por JoĂŁo Coreia, o deputado-relator do processo. Se houve crime, como se suspeita, os criminosos foram ainda mais audaciosos porque, alĂ©m de tocarem fogo na sede um Poder do Estado, tambĂ©m mataram o chefe do Executivo, o entĂŁo governador Edmundo Pinto, exatos 18 dias apĂłs o incĂȘndio.

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