Asma leve, como a de Paulo Gustavo, não piora quadro de Covid-19, dizem médicos

Por CNN BRASIL 06/05/2021 Ă s 12:32

O ator e diretor Paulo Gustavo morreu nesta terça-feira (4) em decorrĂȘncia de complicaçÔes da Covid-19. O ator travou uma difĂ­cil batalha contra a doença, desde o dia 13 de março, quando foi internado em um hospital privado em Copacabana, no Rio de Janeiro. Pouco depois, em 21 de março, foi intubado devido Ă s dificuldades respiratĂłrias causadas pelo novo coronavĂ­rus, e necessitou de um tratamento conhecido como Oxigenação por Membrana ExtracorpĂłrea (ECMO, na sigla em inglĂȘs), que buscava auxiliar a função pulmonar.

Em uma entrevista para a atriz Ingrid Guimarães no ano passado, Paulo Gustavo chegou a dizer que tinha medo de morrer de Covid-19 porque “tinha problemas respiratórios”. A atriz Tatá Werneck, amiga íntima do diretor, afirmou em uma rede social que o ator não tinha crises de asma há pelo menos dez anos.

Crises esporĂĄdicas de asma, como as que o ator sofria, sĂŁo consideradas a forma leve da doença e nĂŁo caracterizam comorbidade. Segundo o documento “OrientaçÔes sobre Asma durante a pandemia de Covid-19” produzido pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) em conjunto com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), estudos sobre o tema demonstraram que o diagnĂłstico de asma em geral nĂŁo foi associado a piores desfechos de Covid-19, independentemente de idade, obesidade ou outras comorbidades de alto risco, a nĂŁo ser nos casos mais graves de asma.

“NĂŁo houve diferença significativa no tempo de internação hospitalar, na necessidade e no tempo de intubação, traqueostomia, readmissĂŁo hospitalar ou mortalidade entre pacientes com e sem asma. Portanto, no momento, nĂŁo existem evidĂȘncias de piores desfechos clĂ­nicos relacionados Ă  Covid-19 no asmĂĄtico leve a moderado com a doença controlada”, descreve o documento.

O pneumologista JosĂ© Cançado, membro do grupo de asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), e um dos organizadores do documento, diz que “hĂĄ estudos que mostram um risco atĂ© 25% maior de morte intra-hospitalar por Covid-19 entre pessoas com asma grave”.

No começo da pandemia, médicos acreditavam que os asmåticos eram os pacientes que corriam maior risco de gravidade e morte se contraíssem a Covid-19, sobretudo por jå terem pulmÔes mais sensíveis e sofrerem com crises de falta de ar. O receio era que a função pulmonar piorasse ainda mais com a doença, assim como as crises.

A doença, por ser considerada crÎnica, não tem cura, mas é facilmente controlada com medicaçÔes à base de corticoides e broncodilatadores que fazem a função de diminuir a inflamação pulmonar e abrir os brÎnquios que se contraem e causam a falta de ar.

No entanto, com o andar da pandemia, os mĂ©dicos observaram que geralmente pacientes com asma leve ou moderada controlada, ou seja, sem sintomas ou crises esporĂĄdicas, nĂŁo desenvolveram a forma grave da Covid-19. “NĂŁo sabemos o porquĂȘ, mas na prĂĄtica Ă© o que acontece”, afirma Thiago Fuscaldi, pneumologista intensivista do Hospital SĂ­rio-LibanĂȘs em BrasĂ­lia.

Segundo Cançado, a literatura médica indica que 90% dos asmåticos que tiveram Covid-19 evoluíram bem contra a doença, enquanto 10% tiveram manifestaçÔes mais graves e destes 5% chegaram à Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O que causa a asma?

A asma é considerada genética, por isso é comum que crianças com histórico na família também desenvolvam a doença. Também existe um fator alérgico que explica crises de asma ao contato com poeira, mofo, vírus, bactérias, fumaça, pólen, e mudança de temperatura.

Enquanto em pessoas não alérgicas o contato com estes agentes causa nenhuma ou poucas reaçÔes (como espirros), no asmåtico, dependendo do gatilho, hå uma reação exacerbada do organismo, que produz mais secreçÔes que migram para os pulmÔes inflamando-os. Com isso, os brÎnquios se contraem e dificultam a passagem de ar, causando a dificuldade de respirar.

Para conter os sintomas e o agravamento da asma, Ă© necessĂĄrio o uso de corticoide, que Ă© um anti-inflamatĂłrio, e de broncodilatadores injetados nas bombinhas de ar, para permitir ao asmĂĄtico respirar melhor, explica Fuscaldi.

IncidĂȘncia e gravidade

A asma Ă© uma das doenças crĂŽnicas mais comuns que afetam tanto crianças quanto adultos, sendo um problema mundial de saĂșde que acomete cerca de 300 milhĂ”es de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial de SaĂșde (OMS). Estima-se que no Brasil existam aproximadamente 20 milhĂ”es de asmĂĄticos, de acordo com a SBPT.

Segundo o Datasus, o banco de dados do Sistema Único de SaĂșde ligado ao MinistĂ©rio da SaĂșde, ocorrem no Brasil, em mĂ©dia, 350 mil internaçÔes anualmente por crises de asma. É a terceira ou quarta causa de hospitalizaçÔes pelo SUS (2,3% do total), conforme o grupo etĂĄrio considerado.

A asma pode ser descrita como leve, moderada ou grave, de acordo com a recorrĂȘncia de crises e com os sintomas. A asma leve Ă© quando o portador tem sintomas esporĂĄdicos e nĂŁo precisa usar medicação de rotina. É o contingente da grande maioria da população asmĂĄtica do paĂ­s.

Na asma leve persistente, os sintomas aparecem duas ou mais vezes por semana, e hĂĄ necessidade do uso de corticoide ou broncodilatador de forma inalatĂłria (a bombinha) de rotina.

Jå quem tem asma persistente moderada apresenta mais episódios de cansaço, chiado na respiração, algumas alteraçÔes nos exames de espirometria (exame que prova a capacidade pulmonar) e esporadicamente precisa tomar medicação intravenosa no hospital para aliviar sintomas mais intensos.

Nos casos graves, os sintomas são os mesmos que no moderado persistente, mas a asma não é controlada mesmo com corticoides e broncodilatadores. Por isso, é necessårio recorrer à medicação imunobiológica (omalizumabe, mepolizumabe, benralizumabe ou dupilumabe) para conter a inflamação nos pulmÔes.

HĂĄ como melhorar o ambiente para diminuir crises asmĂĄticas, como evitar exposição Ă  poeira, ao mofo, cortinas de pano, usar pano Ășmido para limpar o chĂŁo em vez de vassoura, ou qualquer outro fator que cause as crises alĂ©rgicas.

Tomar vacinas que evitam infecçÔes virais (como da Influenza) e infecçÔes bacterianas tambĂ©m podem evitar crises futuras de asma, explica o pneumologista do SĂ­rio-LibanĂȘs.

Quando a asma Ă© risco para Covid-19?

Nos casos graves de asma, a capacidade respiratĂłria Ă© diminuĂ­da, por isso hĂĄ necessidade do uso de corticoides orais de rotina ou injetĂĄveis, se a pessoa for hospitalizada. Pacientes com asma grave geralmente nĂŁo conseguem fazer exercĂ­cios, tĂȘm tosse e chiado no peito com frequĂȘncia e nĂŁo raro precisam ser internados para conter crises.

O uso contĂ­nuo de corticoide oral afeta a imunidade, o que pode aumentar a chance de a pessoa que toma esse tipo de medicamento evoluir mal se contrair a Covid-19. “A diminuição da atividade do sistema imunolĂłgico indica uma resposta menor do organismo contra infecçÔes virais, fĂșngicas e bacterianas. Quando o paciente tem um quadro muito grave de asma, precisa usar corticoide por anos”, diz Fuscaldi.

“O uso contĂ­nuo de corticoide inalatĂłrio pela bombinha, por sua vez, nĂŁo causa o mesmo efeito, porque a absorção do corticoide pelo organismo neste caso Ă© bem menor”, ressalta o pneumologista do SĂ­rio-LibanĂȘs.

O que acontece se tenho asma e contraio Covid-19?

De acordo com o pneumologista da SBPT, pesquisas vĂȘm mostrando que o uso de broncodilatadores e de corticoides por quem tem asma, na realidade, ajudam a proteger seus pulmĂ”es contra as reaçÔes mais agressivas do vĂ­rus da Covid-19. O que talvez explique porque nĂŁo hĂĄ tantos casos graves de Covid-19 entre pacientes com asma.

“HĂĄ duas teorias, uma delas indica que a inflamação alĂ©rgica da asma leva Ă  proteção porque o indivĂ­duo gera mais cĂ©lulas de defesa contra o vĂ­rus; a outra aponta que o corticoide que ele usa para tratar a asma diminui a expressĂŁo do receptor do vĂ­rus que entraria nas cĂ©lulas e causaria a doença”.

Como diferençar sintomas de asma e de Covid-19?

Os sintomas mais comuns da asma sĂŁo tosse seca, falta de ar, cansaço e chiado no peito – semelhantes aos da infecção pelo vĂ­rus Sars-coV-2, da Covid-19. Levando isso em consideração, nunca foi tĂŁo importante manter a asma sob controle como agora, explica Cançado. “Pessoas que nĂŁo tratam a asma podem ter sintomas como a falta de ar piorados se contraĂ­rem a Covid-19″, explica.

Quem tem asma pode tomar a vacina contra Covid-19?

Pessoas com asma grave sĂŁo consideradas do grupo prioritĂĄrio para vacinação contra a Covid-19 justamente por correrem maior risco de terem formas graves da doença e morte. JĂĄ os indivĂ­duos que tĂȘm asma leve ou moderada devem seguir a recomendaçÔes do Plano Nacional de ImunizaçÔes (PNI).

Considerando as vacinas aprovadas para uso emergencial no Brasil nesse momento, não hå contraindicação para asmåticos tomarem a Coronavac (Sinovac/Instituto Butantan), nem a vacina Oxford/AstraZeneca, segundo o documento da SBPT.

Quanto à vacina da Pfizer, Cançado indica que pessoas que jå tiveram choque anafilåtico após receberem alguma vacina devem avaliar com um pneumologista ou alergista se podem tomar a vacina da empresa americana.

Isso porque, segundo o documento da SBPT, “foi relatada anafilaxia em taxas aproximadas de 11,1 e 2,5 eventos por milhĂ”es de doses” nas vacinas da Pfizer e Moderna. “Fora isso, qualquer pessoa com asma, se nĂŁo tiver este histĂłrico, pode tomar estas vacinas sem qualquer preocupação”, afirma o pneumologista da SBPT.

“A maioria desses eventos ocorreu em indivĂ­duos com antecedente de reaçÔes alĂ©rgicas graves em atĂ© 30 minutos apĂłs a vacinação. Os autores nĂŁo reportaram dados sobre eventos adversos especificamente em asmĂĄticos”, descreveu o documento da SBPT e da Asbai.

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