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18 janeiro 2022 4:05 pm

“Há erros de ambos os lados”, diz Márcio Bittar sobre pendenga de Gladson com o MDB

Senador é primeiro representante do Acre na história a cumprir tarefas como a de relatar o Orçamento Geral da União (OGU)

POR TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

Última atualização em 09/05/2021 13:02

Um dos senadores mais influentes do país, ao ponto de ser o primeiro representante do Acre na história a cumprir tarefas como a de relatar o Orçamento Geral da União (OGU) para o ano de 2021, mesmo com eventuais críticas, Márcio Bittar é também uma das lideranças locais do MDB, um dos partidos mais tradicionais do Estado.

Na mesma proporção em que o próprio Márcio Bittar, seguido pelo deputado federal Faviano Melo, dirigente regional da sigla, dizem que o MDB está no governo, na Assembleia Legislativa seus três deputados (Meire Serafim, Antônia Sales e Roberto Duarte) vivem a dualidade de serem, a um só tempo, governo e oposição.

Os três são signatários, por exemplo, de um dos pedidos de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) proposto pelas oposições para investigar a Secretaria de Estado de Educação. Márcio Bittar, no entanto, não enxerga qualquer contradição nisso. Disse que há erros de ambos os lados -do MDB e do governo-, mas, no fundo, a maior parte da culpa, segundo ele, precisa ser creditada ao governador Gladson Cameli. “Ele precisa cumprir o que combinou comigo em nome do MDB”, disse.

Senador Marcio Bittar em entrevista exclusiva ao ContilNet/ Foto: ContilNet

A seguir os principais trechos de uma entrevista do senador sobre o assunto:

ContilNet: Senador, seu partido vive no momento uma aparente contradição. Enquanto uma parte, a direção, incluída, diz que é e está no Governo, outra parte, composta pelos deputados estaduais, assinam pedido de CPI contra o mesmo governo. Como equacionar isso?

Márcio Bittar: Essa pergunta me permite colocar os pingos nos ís, conforme minha natureza. A responsabilidade [por essa aparente contradição envolvendo o MDB] é do meu amigo governador Gladson Cameli. Não dá para tapar o sol com a peneira. Há uns dois ou três meses o governador me falou do desejo de ter o MDB a seu lado. O MDB sabe que eu passei os últimos dois anos defendendo que o natural [fosse a candidatura à reeleição do atual governador]. Primeiro, porque nós temos o dever de ajudar o Estado. Elegemos o Gladson e temos o dever de ajudá-lo, que é o nosso candidato natural à reeleição, eu sempre disse isso. E dizia mais: que também seria natural que o candidato ao Senado fosse o Rocha, o que levaria sobrar a vaga de vice na chapa e que o MDB deveria trabalhar para isso. Este era um desenho óbvio a partir do resultado da eleição de 2018. O portanto, o MDB me incumbiu de conversar com o Gladsoin para ver se haveria da parte do governador o interesse de reatar uma relação mais serena, mais equilibrada. E eu procurei o governador. O governador me respondeu que tinha, sim, interesse de reatar relações aos moldes daquilo que foi em 2018 e até antes disso.

ContilNet: Mas por que o rascunho desse desenho que o senhor falou, não passou à arte final?

Márcio Bittar: Porque esse papel cabe muito ao governador também. Não vamos tapar o sol com a peneira. É absolutamente normal que um partido que ajudou a ganhar a eleição queira fazer parte do poder. É claro que cabe ao governador ou ao prefeito fazer o filtro, aceitar ou não uma indicação ou demitir qualquer um dos indicados.

ContilNet: Vou insistir na pergunta: e por que essa boa relação não está acontecendo?

Márcio Bittar: Não está acontecendo porque foi o Gladson que ficou de falar com o Vagner [Sales, ex-prefeito de Cruzeiro do Sul] e parece que até esta data não conseguiu falar… A verdade é que o Gladson ficou de resolver algumas coisas e não resolveu. A cronologia é essa. Na verdade, e eu disse isso para o meu amigo governador, ele é que precisa tomar a iniciativa e começar a resolver coisas.

ContilNet: O senhor e a direção do MDB vão pedir que seus deputados retirem seus nomes do requerimento da CPI da Educação na Assembleia?

Márcio Bittar: Quando os deputados do MDB, principalmente os deputados Roberto Duarte e Antônia Sales, assinam o pedido de CPI, eles o fazem num momento em eu e o governo não havia falado nada com eles. E eu disse isso ao governador que se ele não me ajudar a resolver os problemas que nós combinamos, a situação fica muito difícil. Fica parecendo algo que não é verdade: o governo cumpriu com o MDB e o MDB está traindo. Não é verdade! A verdade é que se tem um partido que não tem nada no interior do Estado é o MDB.

ContilNet: Como não tem nada se acaba de ganhar a Secretaria de Produção e Agronegócio, cujo secretário, o pecuarista Neném Junqueira, foi inclusive indicado pelo senhor?

Márcio Bittar: Olha, de fato foi um nomeado um secretário que agora conseguiu trocar na Secretaria apenas duas pessoas. Dois técnicos que ele trouxe para a equipe dele. Se colocou lá o Neném Junqueira, que é do ramo e que eu tenho certeza de que vai dar conta do recado, mas ele só trocou duas pessoas. Na verdade, o MDB não teve atendida nenhuma de suas reivindicações, na Capital e no interior. E isso atinge em cheio alguém como eu que trabalha 24 horas por dia para ajudar ao governo Gladson. Essa é a cronologia: nós fizemos um entendimento e o Governo não fez a parte dele. É claro que não concordo, mas se os deputados do MDB assinaram o pedido de CPI, é bom lembrar: aquilo que foi combinado não aconteceu. Se há um partido político que não tem praticamente nada no interior do Estado inteiro é o MDB.

ContilNet: E agora, o que vai acontecer?

Márcio Bittar: Olha, eu continuo tentando ajeitar as coisas. Se eu não conseguir, vai chegar um tempo em que vou jogar a tolha. Esse tempo ainda não chegou e eu espero que não chegue. Se tem alguém que tem que tomar a iniciativa agora é o governador. Eu identifico – e falo por onde ando – erros de todo mundo, mas não vou deixar de dizer, e principalmente, que os erros [na relação política com o MDB] são do governador. Ele é o chefe! É ele que tem a caneta! Você não acha que o MDB do Acre inteiro não tem razão de se sentir ferido quando vê um monte de pessoas que não trabalharam para nós fazendo parte do Governo, no momento em que há um monte de gente nossa de fora, sem nada? Um exemplo: no interior, os núcleos de Educação estão entregues às mãos de pessoas que foram nossos algozes?

ContilNet: Mas o senhor há de concordar que todo governo busca adesão em relação a antigos adversários? Isso é da política. Maquiavel já dizia isso em “O Principe” não é?

Márcio Bittar: Sim. Você está diante de alguém que sabe disso, que todo governo faz – e isso é natural – uma autêntica busca por adesão ou mesmo cooptação. Eu tive a oportunidade de dizer ao deputado Flaviano Melo, que foi governador e fez isso, lá no passado. Não foi ele que nomeou o então desconhecido engenheiro florestal Jorge Viana para a Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, a Funtac? Não foi ele que levou o ex-deputado Wildy Viana, pai dos irmãos Vianas, para a Secretaria de Desenvolvimento Agrário de seu Governo? Pois é. Foram adesões ou cooptações legítimas. Mais tarde, não foi o então governador Jorge Viana que foi buscar o Angelim [Raimundo Angelim, economista, ex-prefeito de Rio Branco e ex-deputado federal pelo PT] para ser candidato a prefeito da Capital pelo PT, logo ele que foi do Governo Edmundo Pinto e era do PDS? Os petistas tradicionais, Nilson Mourão, Marina Silva tiveram que engolir isso. Então, eu disse, na primeira reunião, quando um parlamentar disse lá em Brasília, quando a gente ainda não tinha tomado posse, que o governador teria que nomear só gente dos partidos que haviam nos apoiado. Eu disse ao contrário. Fui aquele que disse que as coisas nunca foram assim e nunca serão assim e dei exemplos dizendo que o governador precisaria, inclusive, ampliar sua base na Assembleia Legislativa. Isso é normal. Só que a dose nisso, no atual governo, está desproporcional. O MDB tem seus erros mas o governador é o chefe. É ele que tem o poder de decisão. Não tem como eu buscar um acordo, buscar uma aliança e a paz e o Palácio Rio Branco não faz a sua parte e não realiza nada? E aí, como eu fico?

ContilNet: O senhor fala de uma certa fidelidade, portanto, do MDB ao governo. Mas, por isso mesmo, como explicar as atitudes beligerantes do prefeito de Sena Madureira, senhor Mazinho Serafim, que é do partido, com ataques frontais à figura do governador do Estado

Márcio Bittar: O que tenho dito sobre isso é que o governador precisa cumprir o que combinou comigo e com o MDB.

ContilNet: O senhor pode revelar o que foi tratado?

Márcio Bittar: Posso. Na Secretaria de Agricultura, por exemplo, não mudou nada. Mudou o secretário, que eu de fato indiquei, mas o resto está tudo como estava. Eu mesmo não tenho uma só indicação. Estou satisfeito por ter passado por mim a indicação do secretário, que é um amigo de longas datas, que é do ramo e que está dando conta do recado, como o Edvan [Maciel, secretário de Produção anterior à Nenem Junqueira. Mas eu disse ao Gladson: meu querido governador, faça sua parte. E aí você pode cobrar o que quiser do MDB. Com toda franqueza que eu sempre tive e já paguei um preço alto por isso, reafirmo: nesse momento é o governo que não fez o que prometeu. Se ele fizer, e cobrar, terá razão. Aí eu acho que o MDB tem que fazer com que seus parlamentares sigam a linha do governo.

ContilNet: Seguindo esta linha então, o Mazinho Serafim permanece ou terá que deixar o MDB?

Márcio Bittar: Eu dirigi o PPS e fizemos um encontro estadual e traçamos uma linha. Eu disse: nós somos isso e quem não quiser seguir esta linha está fora. Lembra do César Messias? Ele era prefeito de Cruzeiro do Sul e quis fazer uma aliança com o PT. Como nós havíamos feito uma convenção e decidido que a aliança com a esquerda era impossível, e ele quis fazer, por isso não pôde ser candidato à reeleição. Portanto, recapitulemos: o governo precisa cumprir o que combinou comigo e aí pode nos cobrar.

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