LGBTIQA+fobia: MPAC celebra conquistas mas Ă­ndice de violĂȘncia ainda preocupa

Por TON LINDOSO, DO CONTILNET 17/05/2021

Desde a criação do Centro de Atendimento à Vítima (CAV), em 2016, o Acre avança nas pautas LGBTIQA+. O primeiro casamento homoafetivo celebrado no ano seguinte, resolução que trouxe às pessoas trans a possibilidade de usar nome social e uma série de direitos foram celebrados, com o intuito de trazer igualdade a uma parcela da população que é invisibilizada.

Em contrapartida, pelo menos dois grandes desafios precisam ser vencidos. O primeiro Ă©, sem dĂșvidas, frear a violĂȘncia contra o pĂșblico LGBTIQA+ no Estado. Dados do ObservatĂłrio de Mortes Violentas dĂŁo conta que, em 2020, o Acre figurou no TOP 5 da RegiĂŁo Norte em se tratando de Mortes de LGBTI+. Com densidade de 1,36 por milhĂŁo de habitantes, o estado estĂĄ Ă  frente de RondĂŽnia e ParĂĄ.

O segundo Ă© a dificuldade que o CAV tem para aferir esses dados. Dentre os maiores maiores fatores, estĂĄ justamente a falta de visibilidade. “NĂłs nĂŁo temos uma grande estatĂ­stica nĂŁo porque a gerĂȘncia nĂŁo ocorra, mas porque Ă© subnotificada. É um pĂșblico que estĂĄ na invisibilidade. Existem recomendaçÔes, para as polĂ­cias e instituiçÔes no geral, quee visam acolher esse pĂșblico”, explica Fabio FabrĂ­cio, coordenador do CAV.

No Dia de Enfrentamento a LGBTIfobia, celebrado nesta segunda-feira (17), o ContilNet conversa com o coordenador para falar mais sobre a atuação do órgão no Acre, falar ainda mais sobre as conquistas alcançadas e os desafios.

“De 2016 a 2021, chegaram ao CAV 157 casos de pessoas desse segmento, relacionados Ă s demandas citadas. Foram 4 casos em 2016, 19 casos em 2017, 32 casos em 2018, 44 casos em 2019, 44 casos em 2020 e 13 casos atĂ© o momento em 2021”, revela Fabio.

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Casal homoafetivo do Acre: odontóloga Adriana Pacheco e a arte-educadora Oziélia Cordeiro. União foi registrada em cartório. Foto: O Estado do Acre

Confira a conversa completa:

ContilNet: Desde a criação do CAV, como se comportam os percentuais de denĂșncias de LGBTfobia? Poderia nos dar mais detalhes sobre esses nĂșmeros?

Fabio: Os nĂșmeros de denĂșncias de LGBTfobia que chegam ao CAV nĂŁo sĂŁo quantitativamente significativos, por alguns motivos. Primeiramente porque as pessoas do segmento LGBTIQA+ vivenciam o preconceito desde muito cedo nas suas vidas, iniciando-se no prĂłprio contexto familiar e extrapolando para o convĂ­vio social em geral. Nesse sentido, essas pessoas comumente nĂŁo costumam buscar os ĂłrgĂŁos oficiais para realizarem este tipo de denĂșncia. AlĂ©m disso, quando realizam, a denĂșncia Ă© feita na delegacia e nem sempre o CAV toma conhecimento desses casos. Por outro lado, desde junho de 2019, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que, atĂ© que o Congresso Nacional edite lei especĂ­fica, as condutas homofĂłbicas e transfĂłbicas, reais ou supostas, se enquadram, por analogia, nos crimes previstos na Lei 7.716/2018, as pessoas tĂȘm procurado o CAV com maior frequĂȘncia, para denunciar violĂȘncias sofridas equivalentes a LGBTfobia.

Quais medidas o CAV vem efetivado no combate a discriminação LGBTQIA+?

O CAV, inaugurado em junho de 2016, teve desde o inĂ­cio o segmento LGBTIQA+ como um dos seus pĂșblicos prioritĂĄrios. As demandas, desse segmento, que chegam ao atendimento estĂŁo relacionadas a questĂ”es quanto ao uso do nome social, a retificação do registro civil, a encaminhamento para atendimento psicolĂłgico, a situaçÔes de LGBTfobia e a outros crimes com essa motivação, incluindo homicĂ­dios. De 2016 a 2021 chegaram ao CAV 157 casos de pessoas desse segmento, relacionados Ă s demandas citadas. Foram 4 casos em 2016, 19 casos em 2017, 32 casos em 2018, 44 casos em 2019, 44 casos em 2020 e 13 casos atĂ© o momento em 2021.

Além de orientação, atendimento, acompanhamento e encaminhamento das demandas citadas, o CAV atua também na promoção da cidadania da população LGBTIQA+. Desde o ano de 2018, após decisão do Supremo Tribunal Federal, pessoas travestis e transexuais podem procurar os cartórios para solicitar alteração do nome e sexo no registro civil. Com isso houve uma grande procura por parte do segmento ao CAV em busca de informaçÔes.

SĂŁo realizadas, ainda, outras açÔes de combate Ă  discriminação LGBTIQA+ como palestras e oficinas, em instituiçÔes pĂșblicas e privadas, por meio do Projeto “Ser Diferente NĂŁo Ă© Crime”. Este Projeto tem como objetivo prestar atendimento Ă s vĂ­timas de crimes com motivação homofĂłbica, bem como promover açÔes de conscientização da sociedade quanto ao direito ao respeito da dignidade da pessoa humana, combate ao preconceito e promoção de polĂ­tica pĂșblica que beneficie essa população.

Com a pandemia, o CAV articulou outro Projeto, o “Coletivo de Psicólogas (os)”. Este Projeto reuniu psicólogos voluntários para prestar atendimento psicológico de forma gratuita ao segmento LGBTIQA+, acompanhado pelo CAV.

Falando em conquistas, o senhor poderia nos dar mais informaçÔes sobre as vitĂłrias celebradas pelo pĂșblico LGBTIQA+?

Nesses mais de quatro anos de atuação podemos citar algumas outras conquistas que foram alcançadas, e representam marcos históricos no combate ao preconceito no nosso estado como:

– Idealização, produção e lançamento da Cartilha “O que vocĂȘ precisa saber sobre os direitos LGBT”, distribuĂ­da na Abertura da XI Semana Acreana da Diversidade, realizada no auditĂłrio do MPAC;

– Procedimentos judiciais promovidos pelo MPAC para reconhecimento de crimes de violĂȘncia domĂ©stica e familiar contra transexuais: o caso Rubby. Tal iniciativa foi reconhecida como a primeira ação judicial dessa natureza no Acre e no Brasil, pelas caracterĂ­sticas e circunstĂąncia dos fatos e resultou na premiação do juiz de Direito da 1ÂȘ Vara Criminal, Dr. Daniel Gustavo Bonfim AraĂșjo da Silva, na categoria Direitos Humanos do 7Âș PrĂȘmio Nacional do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 2017;

– SugestĂŁo de alteração do Art. 2Âș da Lei Maria da Penha, Lei nÂș 11.340, de 07 de agosto de 2006, que incorpora a palavra gĂȘnero, visando beneficiar com as medidas protetivas mulheres travestis e transexual. A proposta de alteração legislativa foi proposta pelo Senador da RepĂșblica Jorge Viana – Projeto de Lei nÂș 191, de 2017;
– Recomendação Conjunta emitida pela 13ÂȘ Promotoria de Justiça Criminal Especializada no Combate a ViolĂȘncia DomĂ©stica e Familiar contra a Mulher e Centro de Atendimento Ă  VĂ­tima – CAV, nÂș 001de 29 de março de 2017, que dispĂ”e sobre o atendimento especializado na DEAM Ă s mulheres transexuais e travestis em situação de violĂȘncia domĂ©stica. Em face disso, a Secretaria de Estado de PolĂ­cia Civil instituiu a Portaria nÂș 272, de 31 de março de 2017, determinando a ampliação do atendimento da DEAM e das demais delegacias dos municĂ­pios do interior do Estado onde nĂŁo hĂĄ especializada da mulher, o atendimento para mulheres travestis e transexuais, reconhecendo, inclusive, o seu nome social e garantido a elas as medidas protetivas e os demais benefĂ­cios que a lei prevĂȘ;

– Elaboração da Resolução MPAC nÂș 08/2017, que trata da adoção do nome social no Ăąmbito do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre. ApĂłs a adoção do nome social pelo MPAC, os poderes executivos estaduais (Lei Estadual nÂș 3.355, de 18.12.2017) e municipais de Rio Branco (Decreto Municipal nÂș 1594, de 03.08.2017), bem como a Assembleia Legislativa passaram a adotar o nome social nos mesmos moldes do Parquet;

– Realização do primeiro casamento homoafetivo, em agosto de 2017, no “Projeto MP na Comunidade”, projeto que leva os serviços do MinistĂ©rio PĂșblico Ă s comunidades da periferia e interior, promovendo cidadania e dignidade a pessoas em situação de vulnerabilidade. Convergindo com a atuação do MinistĂ©rio PĂșblico, o Tribunal de Justiça do Estado do Acre, por meio da Recomendação 09/2017, de setembro de 2017, expedida por sua Corregedoria Geral, recomendou aos JuĂ­zes de Paz que nĂŁo se abstenham de celebrar casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, a fim de evitar discriminação por orientação sexual e, tambĂ©m, assegurar a observĂąncia dos princĂ­pios constitucionais da igualdade e da dignidade da pessoa humana.

Quais organizaçÔes e instituiçÔes de apoio estão à disposição de quem se encontre em situação de vulnerabilidade?

As instituiçÔes que costumam realizar atendimento ao segmento LGBTIQA+ sĂŁo o Centro de Atendimento Ă  VĂ­tima (CAV) do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre, o SubnĂșcleo de Direitos Humanos da Defensoria PĂșblica do Estado do Acre e o FĂłrum de Ongs LGBT do Acre.

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