Mulher confundida com mãe do Jacarezinho em vídeo sofre com ameaças de morte

Por EXTRA, GLOBO 12/05/2021 Ă s 08:23

“Nesses Ășltimos dias, as nossas vidas se tornaram um pesadelo. Estamos sendo ameaçadas de morte, as pessoas nos julgam, debocham e fomos condenadas por uma coisa que nĂŁo existe. EstĂĄ sendo horrĂ­vel tudo isso”.

O desabafo Ă© da empregada domĂ©stica desempregada Rosana Contas do Carmo, de 49 anos, e de sua mĂŁe, a costureira Vera LĂșcia Coutas, de 69.

Ambas tiveram um vĂ­deo divulgado, na Ășltima sexta-feira, horas apĂłs a operação da PolĂ­cia Civil, no Jacarezinho, em que 28 pessoas morreram, entre elas, um policial.

As duas, que ontem procuraram a polícia porque estão sendo ameaçadas, contam que as cenas foram gravadas na festa de aniversårio de um dos filhos e que as armas eram de brinquedo.

— Quando eu virei, eu vi que um dos meus netos estava gravando. NĂŁo era para ter gravado aquilo. Eu pedi para que ele apagasse — conta Rosana, dizendo que os netos, que sĂŁo youtubers e gravam uma sĂ©rie amadora com armas de paintball, nĂŁo a obedeceram. — Eu sinto muita vergonha. Sei que eu nĂŁo deveria ter brincado daquele jeito. Mas era um momento de famĂ­lia que ninguĂ©m tinha o direito de expor como fizeram.

O vĂ­deo, que viralizou nas redes sociais, foi usado contra outra mĂŁe, Adriana Santana de AraĂșjo, que perdeu o filho na operação policial do Jacarezinho, no Ășltimo dia 6.

Marlon, de 23 anos, é considerado suspeito de integrar o tråfico da favela. Ele tem uma anotação por posse de drogas para uso pessoal, de 2016, cujo processo foi arquivado.

Desde as primeiras horas após a ação na favela, Adriana acusa policiais de execução:

“eles entraram para matar”. À dor da perda, somou-se a do ataque à sua integridade, após muitos compartilharem o vídeo afirmando que era ela nas imagens.

“Sou mulher guerreira”

Em entrevista anteontem ao RJ1 da TV Globo, Adriana disse que sempre “batalhou” e que nunca tinha pegado em armas.

“Jamais eu iria segurar um fuzil, nunca nem peguei nisso. Quem me conhece sabe a mulher guerreira e batalhadora que eu sou”.

Ela disse que sofria ameaças por causa das postagens feitas por milhares de pessoas.

“VocĂȘ tambĂ©m tem que morrer, vocĂȘ tambĂ©m vai morrer, que pena que nĂŁo estava lĂĄ na hora”, relatou ela sobre algumas das reaçÔes Ă  fake news.

Mesmo depois de a PolĂ­cia Civil ter negado, no sĂĄbado, que a mulher do vĂ­deo fosse a mĂŁe de Marlon, os posts nĂŁo cessaram.

Rosana, que é parecida com Adriana, se solidariza com ela e diz que também foi prejudicada.

Junto coma mĂŁe, ela esteve na Delegacia de RepressĂŁo a Crimes de InformĂĄtica e promete processar os responsĂĄveis pela mentira.

Entre eles, o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos — alvo de investigação do Supremo Tribunal Federal (STF) por disseminar informaçÔes falsas com ataques a autoridades e Ă  democracia — e o deputado estadual Fillipe Poubel (PSL).

Por nota, Poubel disse que, apĂłs tomar conhecimento dos questionamentos, retirou o vĂ­deo do ar e estĂĄ disposto a prestar esclarecimentos, se for necessĂĄrio. Allan dos Santos, que deixou o paĂ­s, nĂŁo foi localizado.

Rosana conta que os simulacros de armas seriam usados numa série produzida pelos filhos.

A família mora em Vila Ideal, Caxias. Ela diz que, durante o aniversårio do filho, um dos netos lhe entregou uma peça de fuzil.

— Um dos meus netos pega uma airsoft (rĂ©plica usada em jogos de combate) e diz: “toma, vovĂł, toma, vovĂł, vem dançar” — recorda-se, dizendo que, por ironia do destino, a sĂ©rie dos filhos sobre trĂĄfico busca passar a mensagem de que o crime nĂŁo compensa.

Vizinho de Rosana e Vera LĂșcia, o advogado Wellington Assis da Silva disse que resolveu ajudĂĄ-las:

— Os filhos dela tĂȘm uma telenovela.

AntropĂłlogo e professor da Universidade de VirgĂ­nia, nos EUA, David Nemer diz nĂŁo ter sido surpreendido pela fake news:

— As pessoas circulam essas coisas como se nĂŁo tivessem consequĂȘncias nas vidas offline. É um padrĂŁo de comportamento que vejo desde a morte da Marielle, quando houve a notĂ­cia falsa de que ela era mulher de bandido.

 

Blindado da Polícia Civil durante a operação no Jacarezinho

Blindado da PolĂ­cia Civil durante a operação no Jacarezinho Foto: FABIANO ROCHA / AgĂȘncia O Globo

 

Colaborou Felipe Grinberg

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