28.3 C
Rio Branco
23 junho, 2021 3:05 pm

Avelino de Medeiros Chaves, o homem que era tratado como rei em Sena Madureira

Avelino Chaves chegara a região do Purus por volta dos 34 anos de idade, estimam historiadores, por volta de 1909

POR TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

Ter o seu nome emprestado à principal avenida de Sena Madureira, o terceiro município mais populoso e mais importante do Acre, seria uma grande homenagem para qualquer um. Mas, para Avelino de Medeiros Chaves, um sergipano que veio fazer fortuna na região do Purus, dar nome à Avenida principal da cidade está muito longe dos títulos de um homem que não por acaso, em sua época, era tratado como Rei da Borracha no Norte do Brasil.

E o seringalista, um bilionário para os padrões da época, início do século passado, se permitia mesmo a vida de rei e promovia lautas festas nos salões da Europa, incluindo Berlim, na Alemanha, e Paris, na França, segundo revela o jornal “O Brasil Acreano”, em sua edição de 7 de maio de 1910.

Uma dessas festas na Alemanha deu-se a 2 de setembro de 1910. O Rei da Borracha ofereceu um almoço, no salão do Kaiser, do Hotel Adlon, em Berlim, ao qual compareceram cinquenta oficiais prussianos e brasileiros, às ordens do marechal Hermes da Fonseca, então em visita àquele país. Da Alemanha, o seringalista esticou a viagem até Paris, onde comprou, associado a Fernandes Melo Filho, o jornal Le Courrier Du Brésil, destinado à propaganda do nosso País, no Velho Mundo.

Durante essa visita à Europa encomendou três modernas embarcações, para as suas firmas: a lancha Sena Madureira, a Alvarenga Catiana e o vapor Guanabara. A lancha Sena Madureira foi construída nos estaleiros franceses Chaparelle, tendo o casco de aço galvanizado,13 metros de comprimento, 2,80 metros de boca, 1,10 metros de pontal e 60 cavalos de força, sendo destinada à linha Iaco-Purus, até Boca do Acre. Traria a reboque a Alvarenga Catiana, fabricada pela empresa alemã H. Holtz, com 48 pés de comprimento e 80 centímetros de calado, dispondo de beliches e banheiros e cozinha.

O barco principal seria o Guanabara, cuja primeira subida, ao Iaco, estava prevista, para março 1911, mas fora retardada por uma greve, nos estaleiros ingleses, o que atrasara a sua entrega. O jornal “A Província do Pará” informava que o barco fora classificado sob o nº100 A 1 Lloyd Register, como navio de primeira classe para rios, sendo construído pela Dundee Shipbuilding Cy Ltd, de Dundee, na Escócia. Possuía quatorze camarotes de primeira classe, com divãs, beliches e guarda roupas, acomodações de terceira classe, camarotes, no bico da proa, destinados aos oficiais, alojamento de oito camas, para os tripulantes, duas câmaras espaçosas, no convés, reservadas ao comandante e ao proprietário, e instalações sanitárias Havia ainda um magnífico salão de refeição, a popa, tendo quatro mesas de mármore, ventiladores e um piano automático, com vasto repertório, e um salão para jogos e fumantes.

Os relatos dos jornais da época informam que o barco fora equipado com câmeras frigoríficas, destiladores de água potável, uma máquina com a capacidade de fabricar 150 quilos de gelo por dia, um grande conforto para as regiões de calor tropical, além de energia elétrica. O navio media 140 pés de comprimento, 29, de boca e 8,5, de pontal moldado e as máquinas de tríplice expansão tinham 350 cavalos de força, consumindo 6.5 toneladas de carvão por dia, e desenvolvendo 11 milhas por hora, em velocidade de cruzeiro, e 12, de máxima. Estava equipado com guindastes elétricos, lanchas e motores americanos.

A viagem inaugural começaria em Belém, a 22 de janeiro de 1912, tendo a embarcação chegando a Sena Madureira, a 14 de fevereiro. Conforme as descrições da época, o seu rancho primava pela qualidade, sendo composto de conservas e bebidas finíssimas compras na França, Alemanha e Inglaterra.

Ao regressar ao Acre, Avelino Chaves foi nomeado Comandante Superior da Guarda Nacional do Alto Purus, chegando a Sena Madureira, pelo navio Ajudante, sendo alvo de calorosa acolhida, dizem os jornais da época.

Avelino Chaves chegara a região do Purus por volta dos 34 anos de idade, estimam historiadores, por volta de 1909. Ele nascera a 4 de novembro de 1875, em Sítio do Meio, no Estado de Sergipe.

Aos dezessete anos tomara o rumo do Pará, como faziam todos os nordestinos desejosos de se libertarem das más condições de vida dos seus berços natais. Dali foi para o Rio de Janeiro tentar a vida militar, sentando praça, em 1893. Mais tarde, voltando à Belém, concluiu o curso de Agrimensura, pela Escola Politécnica do Pará e, com o seu diploma, embarcou para o Acre, em 1896, chegando a região que era considerada um paraíso para os demarcadores, como o era toda a Amazônia, ganhando os altos rios. Lá tomou parte de todos os movimentos contra os bolivianos e abriu uma estrada entre o alto Iaco e o Xapuri.

Em 1912, sendo titular da firma A. Chaves & Cia., da qual também era sócio João Câncio Fernandes, outro nome de logradouros públicos em Sena Madureira, como o único hospital da cidade, possuía os seringais Brasil, Guanabara, Arvoredo e Peri, no Iaco; Canadá, no rio Acre, e Panamá, Califórnia e Mato Grosso, no Xapuri. Em 1909, já estava rico, pois somente o seu seringal Guanabara produzia 190.000 quilos de borracha, já tendo descido 144.000, pelo vapor Índio do Brasil, o que lhe propiciaria uma viagem à Europa, aonde iria, a passeio e a negócio, visando a aquisição das embarcações necessárias ao seu comércio em expansão. A produção de 190 toneladas, somente em um dos seus seringais equivaleria, em setembro daquele ano, a umas 475.000 libras esterlinas ou 3600 quilos de ouro, uma gigantesca fortuna, para os padrões da época.

De passagem por Sena Madureira, anunciou, aos amigos, que ficaria hospedado, no Rio de Janeiro, no Hotel Avenida, e, em Paris, no Grand Hotel. “Apesar de não ser de fato um rei, o coronel Avelino Chaves gostava de beber e comer, como comem e bebem os verdadeiros reis”, registra o diário de bordo publicado em “O Alto Purus”, jornal da época. “Nisso ele é fidalgo e nobre. Procura passar tão bem a bordo do Guanabara, como se estivesse hospedado, no Hotel Esplanada, em Berlim”, completa o diário.

“Quando nos achávamos fronteiros ao seringal São Pedro do Arimã, estávamos à mesa. Nesse momento, um nosso companheiro, seringueiro do rio Pauini, pôs açúcar na tartaruga, que devorava! A nossa admiração não se fez esperar e para atenuá-la contou-nos que neste lugar, ao enterrar-se um defunto, matou-se um judeu ao pé de uma sepultura”, revela outro trecho do diário de bordo.

De acordo com as publicações da época, além de A. Chaves & Cia., numerosas firmas possuíam modernos barcos, como a empresa Rocha & Silva, de Belém, da qual Childerico Fernandes era sócio, que recebera, em agosto de 1910, o vapor Yaco, construído pelo estaleiro Murdock &Myrray, de Glasgow, dirigido pelo engenheiro James Branner. Pertencia ao tipo de Victória tendo 145 pés de comprimento; 31, de boca, e 8 e ¾, e de pontal, com 371 toneladas brutas. Seu casco era de aço, sendo movimentado por uma máquina de 90 cavalos comodidades do Guanabara, além de uma estuda a vapor capar de escaldar um fardo de carne seca.

Dezenas de outros navios de aço navegam pela Amazônia, fazendo circular seus produtos e tornando a vida do interior mais cômoda. Neste tempo, a euforia dos altos preços da borracha animava a todos, no sentindo de aplicarem seus capitais em investimentos lucrativos e de rápido retorno, como os navios, que ao mesmo tempo livravam os seringalistas dos escorchantes fretes cobrados pelos armadores.

Apesar de já ter passado o seu período áureo, em 1915, ainda se matinha grande o movimento de embarcações para o Alto Purus e Iaco, como atestava o movimento do porto da cidade de Sena Madureira, em março daquele ano. Não há registros de como chegou ao fim do império e do próprio Avelino Chaves.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.