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28 julho 2021 5:51 pm

Indígenas do Acre vão ao STF contra construção de estrada que dará acesso ao Peru

A alegação das lideranças indígenas é que a rodovia passará por dentro da Serra do Divisor, no Alto Juruá

POR TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

A estrada ligando o território brasileiro, através do Vale do Juruá, ao Peru, na cidade de Pucallpa, cujo traçado de pouco mais de cem quilômetros passaria por dentro da Serra do Divisor, em Mâncio Lima (AC), está cada vez mais ameaçada.

O projeto é defendido pelo senador Márcio Bittar (MDB-AC) e já recebeu aprovação do presidente Jair Bolsonaro, mas a obra pode ser embargada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), cujo presidente, ministro Luiz Fux, recebeu o líder indígena Francisco Piyãko, cujo povo, os Ashaninkas do rio Amônia, em Marechal Taumathurgo (AC), são contra a proposta.

Francisco Piyãko esteve em Brasília, com o ministro, acompanhado da coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib, Sonia Guajajara. Piyãko é coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá – Opirj – e disse a Luiz a Fux que a construção da estrada entre Brasil e Peru, será um desastre para toda a região. “Além de prejudicar o meio ambiente, a estrada vai atender somente os interesses políticos e empresariais, sem nenhum benefício para a população local”, disse o líder indígena.

O líder indígena sustentou no STF que não foi feita qualquer tipo de consulta à população local sobre a estrada e que a Serra do Divisor é o abrigo de uma infinidade de animais, insetos e plantas, na maior biodiversidade do mundo. “Além disso, a estrada passará por territórios de índios em isolamento voluntário no país vizinho”, disse Piyãko. “É preciso adotar outras formas de desenvolvimento para a Amazônia, que não inclua estradas como esta”, acrescentou.

Segundo ele, o desenvolvimento não pode ser pensado apenas a partir de uma estrada. “Existem outras formas de viver bem aqui na floresta. O que está ocorrendo nesta fronteira, é uma articulação entre os poderes brasileiros e peruanos para massacrar e destruir os povos tradicionais e acabar com a paz”, disse. “Nós estamos com os dias contados, diante de tudo que a gente enfrentou, esse pode ser o momento mais difícil de nossas vidas. Não conseguimos visualizar, como vai ser o futuro das próximas gerações no meio deste sistema devastador, que está chegando em nossas comunidades”, afirmou.

No encontro, de acordo com Piyãko, o ministro Luiz Fux se colocou à disposição das lideranças a fim de que se cumpra o direito indígena, contra a violação de direitos nos territórios.

No Peru, também existe luta dos povos tradicionais contra esses ataques. Berlín Diques, presidente da Orau (Organização Regional AIDESEP Ucayali), esteve na aldeia Apiwtxa, na última semana, para juntar forças e apresentar informações da situação em seu país. Ele afirma que quem está financiando as estradas são grupos ligados ao narcotráfico e a exploração madeireira.

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