Lembro como se fosse ontem: voltando da escola, passei no meu templo sagrado particular, a banca de revistas da esquina de casa. Com uma variedade grande de exemplares de todos os tipos e gostos, eu gostava de variar os estilos, mas meu gĂȘnero preferido era futebol. A Revista Placar eu comprava religiosamente todo mĂȘs, assim como os especiais, e sempre que via outras editoras lançando novas publicaçÔes, tambĂ©m comprava.
Eu devia ter uns 15 anos quando a Revista Lance!, do famoso jornal do RJ, fez um especial sobre o Vasco da Gama. Comprei sem grandes pretensÔes, lendo apenas por curiosidade. Fiquei tão encantado com a história do clube que me tornei torcedor instantaneamente, logo após concluir a leitura do exemplar.
Jå torcia para o São Paulo Futebol Clube, meu primeiro time do coração, e para o Clube do Remo. Sem controlar os impulsos da paixão pelo futebol, acabei escolhendo um terceiro, o da cruz de malta carioca.
Tinha ganhado de aniversĂĄrio um vale presentes de uma loja de departamentos em BelĂ©m e resolvi comprar a camisa preta oficial de jogo, da marca umbro. Com tecido top de linha, traços bem desenhados e ausĂȘncia de patrocĂnio, ela Ă© uma das camisas de time mais bonitas que jĂĄ tive, perdendo apenas para uma do MĂŽnaco.
Isso tudo aconteceu em apenas uma semana. O momento do clube, no inĂcio dos anos 2000, nĂŁo era dos melhores. Depois do tĂtulo brasileiro de 2000, o time foi ladeira abaixo, com campanhas pĂfias nos torneios e elencos medĂocres. Mas eu nĂŁo estava interessado exatamente no que acontecia dentro de campo, atĂ© porque o Vasco possuĂa 4 Brasileiros, uma Libertadores, uma Mercosul e um Sul-Americano (antecessor da Libertadores) atĂ© aquele momento, contando apenas os tĂtulos mais relevantes.
O que me atraiu mesmo no inĂcio foi o fato dos prĂłprios torcedores terem se unido e construĂdo o estĂĄdio de SĂŁo JanuĂĄrio nos anos 20, sendo este, atĂ© a construção do MaracanĂŁ, em 1950, o maior estĂĄdio da AmĂ©rica Latina; Sua luta contra o racismo, chegando atĂ© a ser rebaixado no Campeonato Carioca por insistir em escalar jogadores negros, mulatos e operĂĄrios â e ganhando a segunda divisĂŁo com eles; o incrĂvel time de 1948, conhecido como âExpresso da VitĂłriaâ, que atropelava todos os adversĂĄrios sem dĂł, conquistou o torneio que viria a ser a futura Copa Libertadores da AmĂ©rica e foi base da Seleção Brasileira de 1950. Esse time ficou conhecido como “Expresso da VitĂłria”
Claro que os tĂtulos tambĂ©m seduziam e o nĂșmero e a qualidade dos Ădolos, como Ademir Menezes, Barbosa, RomĂĄrio, Roberto Dinamente, daria pra formar facilmente cinco excelentes âtimes dos sonhosâ de qualquer lista.
Esse foi o impacto inicial, um novo mundo futebolĂstico que eu descobria ao acaso, muito mais denso e robusto que o dos meus dois clubes do coração, do qual hoje eu tento dar a mesma atenção.
Meu primeiro jogo vendo o time dentro do estĂĄdio foi em 2007, justo no dia do meu aniversĂĄrio. Estava no RJ para um congresso de direito, minha primeira faculdade, e nesse dia Vasco x Flamengo se enfrentavam no MaracanĂŁ pelo Campeonato Brasileiro. Fiquei empolgado para ir Ă partida, mas todos os outros colegas resolveram ir âpara o outro ladoâ, sobrando apenas um, que era vascaĂno igual a mim. Fomos de ĂŽnibus para o Maraca e comemoramos a vitĂłria por 2 x 1, com bela atuação do atacante Leandro Amaral. A atmosfera da torcida vascaĂna Ă© sensacional, como se fosse uma famĂlia, de verdade. Vibrei nos gols e me deliciei nas mĂșsicas bem animadas, desde provocaçÔes chulas como âVem c**** meu ***, Obina Ă© o c*****, Ă© Leandro Amaralâ, atĂ© a emocionante âVou torcer pro Vasco ser campeĂŁo, SĂŁo JanuĂĄrio, meu caldeirĂŁo… Contra o River Plate, sensacional (gol de quem?), gol do Juninhooo, Monumentallâ.
Desconhecidos se abraçavam, rostos felizes, filhos e filhas com seus pais, enfim, um momento marcante que eu jamais esquecerei. Chegando ao hotel, eu e meu amigo estĂĄvamos radiantes, nĂŁo apenas pelo resultado, mas pelo conjunto da obra, ao passo que o pessoal do outro lado estava meio calado. Num quiosque em Copacabana, nos contaram que viram vĂĄrias brigas, usuĂĄrios de drogas, xingamentos a toda hora etc âno outro ladoâ.
Em 2011, nĂŁo medi esforços para ir para Curitiba na final da Copa do Brasil, mesmo sem muito dinheiro nem ingresso. Tinha certeza que nĂŁo iria ter, tĂŁo cedo, outra oportunidade de ver o clube conquistando um tĂtulo de relevĂąncia, e estava certo. Ao fim do jogo, uma chuva de granizo forte começou a cair, parecendo atĂ© o fim do mundo, falando sĂ©rio. Aquele parecia ser um sinal da desgraça que viria nos prĂłximos anos.
O time ainda foi vice do BrasileirĂŁo de 2011 e fez boa campanha na Libertadores, mas em 2013 fomos rebaixados pela segunda vez â a primeira havia sido em 2008. Mesmo com os problemas em campo, fui para seis jogos em SĂŁo JanuĂĄrio nesse perĂodo. Sempre que estou no Rio, vou lĂĄ, e numa dessas vezes fui Ă um treino e atĂ© conheci o ex-goleiro Carlos Germano.
Em SĂŁo JanuĂĄrio, geralmente chego trĂȘs horas antes da partida, e fico nos arredores do estĂĄdio, que fica no bairro de SĂŁo CristovĂŁo. LĂĄ curto uma cervejinha e converso com torcedores, ouvindo histĂłrias e estĂłrias sobre jogos e viagens. Nas arquibancadas de SĂŁo Janu me sinto mais em casa do que na minha prĂłpria casa. Um ambiente sensacional, com uma torcida incrĂvel e fiel.
Ser vascaĂno para mim Ă© muito mais que torcer: Ă© um estilo de vida, um dos maiores prazeres que podem existir, uma dĂĄdiva, um grande presente de Deus. Devemos cobrar, exigir, elencos melhores e lutar para que o clube volte Ă s vitĂłrias, claro, mas para o verdadeiro torcedor da cruz de malta, âo sentimento nĂŁo paraâ, pois nenhum dirigente corrupto ou perna de pau pode nos tirar do nosso caminho, do nosso dever, porque âde todos os amores que eu tive, Ă©s o mais antigo
O vasco Ă© minha vida, minha histĂłria, o meu primeiro amigo
Quem nĂŁo te conhece, me pergunta por que eu te segui
(Porque eu te amo!)
Eu levo a cruz-de-malta no meu peito desde que eu nasci
(E eu nĂŁo paro!)
E eu nĂŁo paro, nĂŁo paro, nĂŁo!
A cruz-de-malta, meu coração!
Vasco da gama, minha paixĂŁo! (Minha paixĂŁo!)
Vasco da gama, religiĂŁo!â




