O porquĂȘ de ainda torcer para o Vasco da Gama, apesar dos 4 rebaixamentos em 12 anos

Por MAURO TAVERNARD, PARA CONTILNET 08/06/2021 Ă s 15:56

Lembro como se fosse ontem: voltando da escola, passei no meu templo sagrado particular, a banca de revistas da esquina de casa. Com uma variedade grande de exemplares de todos os tipos e gostos, eu gostava de variar os estilos, mas meu gĂȘnero preferido era futebol. A Revista Placar eu comprava religiosamente todo mĂȘs, assim como os especiais, e sempre que via outras editoras lançando novas publicaçÔes, tambĂ©m comprava.

Eu devia ter uns 15 anos quando a Revista Lance!, do famoso jornal do RJ, fez um especial sobre o Vasco da Gama. Comprei sem grandes pretensÔes, lendo apenas por curiosidade. Fiquei tão encantado com a história do clube que me tornei torcedor instantaneamente, logo após concluir a leitura do exemplar.

O porquĂȘ de ainda torcer para o Vasco da Gama, apesar dos 4 rebaixamentos em 12 anos

 

Jå torcia para o São Paulo Futebol Clube, meu primeiro time do coração, e para o Clube do Remo. Sem controlar os impulsos da paixão pelo futebol, acabei escolhendo um terceiro, o da cruz de malta carioca.

Tinha ganhado de aniversĂĄrio um vale presentes de uma loja de departamentos em BelĂ©m e resolvi comprar a camisa preta oficial de jogo, da marca umbro. Com tecido top de linha, traços bem desenhados e ausĂȘncia de patrocĂ­nio, ela Ă© uma das camisas de time mais bonitas que jĂĄ tive, perdendo apenas para uma do MĂŽnaco.

Isso tudo aconteceu em apenas uma semana. O momento do clube, no início dos anos 2000, não era dos melhores. Depois do título brasileiro de 2000, o time foi ladeira abaixo, com campanhas pífias nos torneios e elencos medíocres. Mas eu não estava interessado exatamente no que acontecia dentro de campo, até porque o Vasco possuía 4 Brasileiros, uma Libertadores, uma Mercosul e um Sul-Americano (antecessor da Libertadores) até aquele momento, contando apenas os títulos mais relevantes.

O porquĂȘ de ainda torcer para o Vasco da Gama, apesar dos 4 rebaixamentos em 12 anos

O que me atraiu mesmo no inĂ­cio foi o fato dos prĂłprios torcedores terem se unido e construĂ­do o estĂĄdio de SĂŁo JanuĂĄrio nos anos 20, sendo este, atĂ© a construção do MaracanĂŁ, em 1950, o maior estĂĄdio da AmĂ©rica Latina; Sua luta contra o racismo, chegando atĂ© a ser rebaixado no Campeonato Carioca por insistir em escalar jogadores negros, mulatos e operĂĄrios – e ganhando a segunda divisĂŁo com eles; o incrĂ­vel time de 1948, conhecido como “Expresso da VitĂłria”, que atropelava todos os adversĂĄrios sem dĂł, conquistou o torneio que viria a ser a futura Copa Libertadores da AmĂ©rica e foi base da Seleção Brasileira de 1950. Esse time ficou conhecido como “Expresso da VitĂłria”

Claro que os tĂ­tulos tambĂ©m seduziam e o nĂșmero e a qualidade dos Ă­dolos, como Ademir Menezes, Barbosa, RomĂĄrio, Roberto Dinamente, daria pra formar facilmente cinco excelentes “times dos sonhos” de qualquer lista.

Esse foi o impacto inicial, um novo mundo futebolístico que eu descobria ao acaso, muito mais denso e robusto que o dos meus dois clubes do coração, do qual hoje eu tento dar a mesma atenção.

Meu primeiro jogo vendo o time dentro do estĂĄdio foi em 2007, justo no dia do meu aniversĂĄrio. Estava no RJ para um congresso de direito, minha primeira faculdade, e nesse dia Vasco x Flamengo se enfrentavam no MaracanĂŁ pelo Campeonato Brasileiro. Fiquei empolgado para ir Ă  partida, mas todos os outros colegas resolveram ir “para o outro lado”, sobrando apenas um, que era vascaĂ­no igual a mim. Fomos de ĂŽnibus para o Maraca e comemoramos a vitĂłria por 2 x 1, com bela atuação do atacante Leandro Amaral. A atmosfera da torcida vascaĂ­na Ă© sensacional, como se fosse uma famĂ­lia, de verdade. Vibrei nos gols e me deliciei nas mĂșsicas bem animadas, desde provocaçÔes chulas como “Vem c**** meu ***, Obina Ă© o c*****, Ă© Leandro Amaral”, atĂ© a emocionante “Vou torcer pro Vasco ser campeĂŁo, SĂŁo JanuĂĄrio, meu caldeirĂŁo… Contra o River Plate, sensacional (gol de quem?), gol do Juninhooo, Monumentall”.

Desconhecidos se abraçavam, rostos felizes, filhos e filhas com seus pais, enfim, um momento marcante que eu jamais esquecerei. Chegando ao hotel, eu e meu amigo estávamos radiantes, não apenas pelo resultado, mas pelo conjunto da obra, ao passo que o pessoal do outro lado estava meio calado. Num quiosque em Copacabana, nos contaram que viram várias brigas, usuários de drogas, xingamentos a toda hora etc “no outro lado”.

Em 2011, não medi esforços para ir para Curitiba na final da Copa do Brasil, mesmo sem muito dinheiro nem ingresso. Tinha certeza que não iria ter, tão cedo, outra oportunidade de ver o clube conquistando um título de relevùncia, e estava certo. Ao fim do jogo, uma chuva de granizo forte começou a cair, parecendo até o fim do mundo, falando sério. Aquele parecia ser um sinal da desgraça que viria nos próximos anos.

O porquĂȘ de ainda torcer para o Vasco da Gama, apesar dos 4 rebaixamentos em 12 anos

O time ainda foi vice do BrasileirĂŁo de 2011 e fez boa campanha na Libertadores, mas em 2013 fomos rebaixados pela segunda vez – a primeira havia sido em 2008. Mesmo com os problemas em campo, fui para seis jogos em SĂŁo JanuĂĄrio nesse perĂ­odo. Sempre que estou no Rio, vou lĂĄ, e numa dessas vezes fui Ă  um treino e atĂ© conheci o ex-goleiro Carlos Germano.

Em SĂŁo JanuĂĄrio, geralmente chego trĂȘs horas antes da partida, e fico nos arredores do estĂĄdio, que fica no bairro de SĂŁo CristovĂŁo. LĂĄ curto uma cervejinha e converso com torcedores, ouvindo histĂłrias e estĂłrias sobre jogos e viagens. Nas arquibancadas de SĂŁo Janu me sinto mais em casa do que na minha prĂłpria casa. Um ambiente sensacional, com uma torcida incrĂ­vel e fiel.

Ser vascaĂ­no para mim Ă© muito mais que torcer: Ă© um estilo de vida, um dos maiores prazeres que podem existir, uma dĂĄdiva, um grande presente de Deus. Devemos cobrar, exigir, elencos melhores e lutar para que o clube volte Ă s vitĂłrias, claro, mas para o verdadeiro torcedor da cruz de malta, “o sentimento nĂŁo para”, pois nenhum dirigente corrupto ou perna de pau pode nos tirar do nosso caminho, do nosso dever, porque “de todos os amores que eu tive, Ă©s o mais antigo

O vasco Ă© minha vida, minha histĂłria, o meu primeiro amigo

Quem nĂŁo te conhece, me pergunta por que eu te segui

(Porque eu te amo!)

Eu levo a cruz-de-malta no meu peito desde que eu nasci

(E eu nĂŁo paro!)

 

E eu nĂŁo paro, nĂŁo paro, nĂŁo!

A cruz-de-malta, meu coração!

Vasco da gama, minha paixĂŁo! (Minha paixĂŁo!)

Vasco da gama, religião!”

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