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Pronto Socorro já está pequeno para o AC, diz diretor Areski Peniche ao ContilNet

Por TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

Em entrevista exclusiva, diretor do PS diz que se sente 'envaidecido' com superlotação - mas explica o motivo. Foto: ContilNet

Credibilidade é tudo. Algo tão forte que é capaz de causar até dissabores. É assim que o diretor-geral do Pronto Socorro do Hospital de Base de Rio Branco (Huerb), enfermeiro Areski Peniche, de 46 anos, responde aos críticos da gestão da principal unidade de saúde do Acre, que continua sendo apontada por boa parte da população como uma fonte de problemas.

Na semana que passou, chegaram a circular perlas redes sociais vídeos em que usuários do Pronto Socorro ou de seus acompanhantes mostravam pessoas acamadas nos corredores do hospital, além de goteiras e problemas de infiltração, inclusive nas salas de cirurgias emergenciais. Além de não negar a existência dos problemas, Peniche diz que isso é decorrente da credibilidade que tem o Pronto Socorro e seus profissionais na prestação de serviços à comunidade.

Tamanha credibilidade, segundo o diretor, faz com que população que precisa de atendimento médico público recorra ao Pronto Socorro mesmo havendo outras unidades de saúde, como as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). “Mesmo havendo gente nos corredores lotados do PS, se a gente disser que abriram-se vagas nas Upas ou em outras unidades, muitas dessas pessoas, mesmo assim, insistem em ficar por aqui”, disse o diretor em entrevista exclusiva ao ContilNet. A seguir, os melhores trechos da entrevista:

ContilNet – Diretor, O Pronto Socorro de Rio Branco – e foi o governador Gladson Cameli que disse isso, pelo menos mais de uma vez – parece ter uma espécie de cabeça de burro enterrada, para não permitir que as coisas avancem, mesmo com tantos esforços, que são visíveis, tanto do governo, do senhor como dos funcionários. Na semana que passou circulavam nas redes sociais vídeos com pessoas deitadas em macas pelos corredores do hospital e o registro de muitas goteiras e outros problemas nas instalações. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Areski Peniche – Na realidade, a partir do momento em que nós assumimos a missão de gerir o PS, a pedido do nosso governador Gladson Cameli, nós temos trabalhado muito para que as demandas da população sejam atendidas. Realmente, nós conseguimos, durante um bom tempo, retirar o pronto Socorro das mídias negativas, através de muito esforço e muito trabalho. Mas realmente tivemos um aumento de reclamações, de uma semana ou duas semanas atrás, mas isso é perfeitamente compreensível do ponto de vista administrativo e assistencial. É claro que isso traz transtornos para a população…

Jornalista Tião Maia conversa com equipe do PS. Foto: ContilNet

ContilNet – Mas o que acontece então? Por que existem tantas reclamações apesar do esforço por melhorias?

Areski Peniche – É onde eu quero chegar para lhe responder. O Governo do Estado, nos últimos um ano e seis meses, enfrentou uma pandemia sem precedentes. Nós, graças a Deus, estamos vencendo este momento. Muitos recursos foram alocados no atendimento aos pacientes de Covid-19. Nós temos que entender que, dentro do Pronto Socorro, no momento da maior crise da Covid-19, nós conseguimos saltar de dez leitos de UTI para 40 leitos. Nós colocamos 30 leitos para atendimento a pacientes do Covid e muitos desses leitos foram criados em 24 horas. Nós conseguimos colocar equipamentos e equipes médicas, além de equipes de enfermagem, para trabalhar numa agilidade imensa. Óbvio que isso não é de graça. Para se montar uma UTI é muito gasto. Um leito de UTI custa algo em torno de R$ 500 mil, cada um. Nós conseguimos faze isso num tempo muito curto. Paralelo a isso, a Secretaria de Saúde teve outro compromisso: nós conseguimos em 90 dias construir hospitais chamados de campanha mas que serão unidades definitivas. O Into estava desde muitos anos para ser entregue, mas não tinha instalações elétricas para receber equipamentos. Nós reformamos a estrutura existente e fizemos um hospital de campanha com mais cem leitos.

ContilNet – Deixe-me o interromper: nós estamos num prédio novo, aqui no Pronto Socorro, recentemente inaugurado, inclusive com muita pompa, mas há vídeos mostrando infiltrações, goteiras e outros problemas estruturais não poderiam ocorrer em nenhuma obra pública, principalmente numa casa de saúde. O que está por trás disso? É a cabeça de burro mesmo da qual falou no governador?

Areski Peniche – Realmente, temos problemas estruturais muitos sérios aqui. A população sabe, quem conhece esta realidade, sabe que o prédio novo do Pronto Socorro, foi e entregue recente e foi inaugurado pelo nosso Governo. Realmente é recém-inaugurado. Mas é um prédio que já estava pronto há mais de dez anos. Um prédio fechado, sem utilização, todas as instalações sofrem desgastes naturais. Tudo se complica sem manutenção. Instalação hidráulica, elétrica, tubulação, tudo. Cabos de rede, instalação de ar condicionado – tudo isso foi degrado ao longo do tempo e nós, neste esforço e no tempo em que estamos aqui, temos tentado reconstruir tudo isso, readequar à realidade. Sem conta que o consumo de oxigênio na nossa unidade estava previsto para pacientes de clínica médica e não para pacientes de UTI. Nós esvaziamos um andar de clínica médica para construir 20 leitos de UTI dentro daquele setor, por conta da Covid. Isso causou um aumento absurdo no consumo de oxigênio e dos demais insumos também. Tudo isso deve ser levado em consideração.

ContilNet – E quanto às reclamações de que continuam pacientes deitados pelos corredores, sem espaço adequado, por conta de alta demanda. Como explicar isso?

Areski Peniche – Fico muito triste quando observo todos os dias essas ocorrências, em pacientes nessas condições nossos setores de observação e de ortopedia. Fico triste mesmo. Mas, por outro lado, sinto-me até envaidecido por isso.

ContilNet – Envaidecido: Por quê? Não é contraditório nisso?

Areski Peniche – Pode parecer contraditório, mas eu explico: o Pronto Socorro hoje é a referência de saúde pública do Acre. Todo acreano que precisa de atendimento de saúde ele quer ser atendido pelo Pronto Socorro, independentemente de qualquer coisa. E isso me envaidece porque, com isso, eu consigo evidenciar que a nossa equipe é competente é uma equipe que atende a população e que resolve os problemas porque não adianta a pessoa procurar4 um serviço e não tê-lo.

ContilNet – Então, o senhor quer dizer que a pessoa que vem aqui, e que fica no corredor, mesmo que com as dificuldades e com a inexistência de vagas em outros lugares, ela quer permanecer naquelas condições?

Areski Peniche – Em muitos os casos, sim. Em muitos casos as pessoas se reusam a serem transferidas porque entendem, muitas de forma errônea, que em outras unidades elas não terão o mesmo atendimento que oferecemos aqui. Isso aconteceu muito com pacientes de Covid, com muitos parentes de pacientes chegando aqui na direção implorando para que seu ente querido não fosse transferido daqui para outro local, para uma outra unidade de saúde qualquer, porque diziam confiar só na nossa equipe. Isso é de fato meio contraditório e difícil até de a gente lidar.

Areski e Mônica Silvina, da linha de frente da equipe de coordenação do PS, conversam com nossa equipe. Foto: ContilNet

ContilNet – Então o problema de gente nos corredores vão continuar?

Areski Peniche – Eu acredito que não porque nós temos trabalhado com um movimento de gestão para agilizar ainda mais alguns procedimentos, principalmente na ortopedia, que é o que nós tem causado um transtorno um pouco maior. Nós apresentamos para a Secretaria de Saúde um termo de referência para a contratação de uma empresa terceirizada para a realização dessas cirurgias.

ContilNet – Seria isso então o início da polêmica proposta de terceirização do sistema de saúde do Estado?

Areski Peniche – Na realidade, não. Na verdade, é a contratação de um serviço terceirizado mas que não é uma novidade dentro do serviço de saúde do Acre. Neste sistema hoje já temos a tomografia , a ressonância magnética, o teste do pezinho, uma série de outros procedimentos como o cateterismo para pacientes que sofrem infarto9,a angioplastia, os exames de cabeça dos pacientes – tudo isso é realizado em unidades terceirizadas em serviços terceirizados. Os serviços especializados, quando eles são terceirizados, oferecem para a população uma agilidade muito grande.

ContilNet – Mesmo as cirurgias? As cirurgias podem ser terceirizadas?

Areski Peniche – Mesmo as cirurgias! A terceirização é algo bom porque nós temos poucos ortopedistas no Estado, porque vão agilizar o procedimento. O atendimento vai ser terceirizado mas isso não significa dizer que nós só teremos serviços ortopédicos terceirizados. O que buscamos é agilizar os processos de trabalho e que os pacientes entrem e saiam rapidamente, sem demora e sem o risco de ficar muito tempo internado e sujeito à contaminação da infecção hospitalar.

ContilNet – O que teremos então daqui por diante? Um melhor Pronto Socorro ou ainda esta ameaça de caos?

Areski Peniche – Nossa expectativa é muito boa. Nos próximos 15 dias, já teremos alguns serviços saneados. Com a redução do número de casos de Covid – e nós já estamos há mais de 48 horas sem o registro de nenhum óbito pela doença -, a gente vai conseguir olhar para outros setores e outros serviços. Então, a expectativa é muito boa e estamos torcendo para que isso aconteça. Nós estamos investindo e melhorando o acervo tecnológico do hospital. Isso significa que, diferentemente do passado, agora nós teremos atendimento de hemodiálise em todas os serviços do hospital. Antes era só em UTI. Todos os pacientes, em situação de emergência, que precisam, eles recebem hemodiálise na sala de emergência, nas UTIs, nas enfermarias. Nós conseguimos colocar equipamentos de ultrassonografia em todos os setores que precisam. No Pronto Socorro, nós temos um equipamento à disposição dos médicos e nas UTIs. Isso é um ganho muito grande. Antigamente, nós tínhamos apenas um. O Pronto Socorro passou mais de dois anos sem ter serviço de endoscopia. Os pacientes iam todos para a Fundação Hospitalar. Hoje nós temos já conseguimos fazer endoscopia em dois pacientes simultaneamente aqui no hospital. Isso é um avanço muito grande.

ContilNet- E quando fica pronto em definitivo este hospital, que está em obras faz mais de dez anos?

Areski Peniche – O prédio novo que está sendo construído na Avenida Getúlio Vargas, a expectativa é que no começo do próximo ano a gente e o inaugure com mais 116 leitos à disposição da população. Mas as obras não vão parar nunca porque a população não para de crescer e a necessidade também não. Então, a gente vai continuar inovando, criando novos espaços porque a população acreana precisa.

ASSISTA À ENTREVISTA COMPLETA:

ContilNet – Então, o Pronto Socorro já está pequeno para a população local?

Areski Peniche – Sim. E quando a gestão maior do nosso Estado entender que não cabe mais o pronto Socorro aqui, será necessário abrir outras necessidades. Mas, por enquanto a gente tem atendido bem neste espaço.

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