Saiba quem Ă© Coronel Nunes, de volta ao comando da CBF com afastamento de Caboclo

Por METRÓPOLES 07/06/2021 às 16:09

O afastamento de RogĂ©rio Caboclo do comando da CBF devolveu Ă  presidĂȘncia interina da entidade um cartola conhecido pela eficiĂȘncia em aceitar ordens de outros, sobretudo de Marco Polo Del Nero, ex-presidente da entidade banido do futebol pela Fifa.

O coronel AntĂŽnio Carlos Nunes de Lima, de 82 anos, volta ao comando da CBF pouco mais de dois anos apĂłs passar o cargo a Caboclo.

E, assim como da Ășltima vez, assume a função para substituir um presidente afastado por escĂąndalo. NinguĂ©m na entidade espera que haja qualquer mudança de rumo.

Pior, nĂŁo hĂĄ dĂșvidas de que Del Nero estarĂĄ mais fortalecido e representado no ‘comando’ da entidade’ nos prĂłximos 30 dias.

Nunes começou a segunda-feira como presidente interino da CBF após Rogério Caboclo ser afastado por 30 dias no domingo.

O cartola é acusado de assédio moral e sexual contra uma funcionåria, o que ele nega.

Ainda nesta segunda-feira, uma reuniĂŁo entre os oito vice-presidentes da CBF irĂĄ definir como serĂĄ a gestĂŁo da entidade durante este perĂ­odo.

Coronel reformado da PolĂ­cia Militar do ParĂĄ, AntĂŽnio Carlos Nunes por dĂ©cadas foi o homem forte do futebol de seu Estado – ele comandou a federação Estadual por seis mandatos -, mas nunca teve poder polĂ­tico em Ăąmbito nacional. Na verdade, ficou marcado mais pelos deslizes e afrontas do que por qualquer outra coisa.

Nunes sĂł chegou Ă  presidĂȘncia da CBF em 2016 apĂłs manobra polĂ­tica do entĂŁo presidente Marco Polo del Nero, a quem o coronel jĂĄ definiu publicamente como “amigo de muitos anos”.

Assim, sua presença hoje Ă  frente da entidade Ă© um reforço para Del Nero, que ainda se reĂșne em sua casa com os chefĂ”es atuais do futebol brasileiro.

Aqui, Ă© importante fazer um parĂȘntese e entender o contexto. Em 2015, quando foi preso na Suíça, o ex-presidente da CBF JosĂ© Maria Marin ocupava uma das cinco vice-presidĂȘncias da entidade.

À Ă©poca, o estatuto previa que, na ausĂȘncia do presidente, quem assumiria o cargo seria o vice mais velho – no caso, Marin. Mas, como ele nĂŁo poderia despachar da penitenciĂĄria dos EUA, o cargo passaria automaticamente ao segundo mais velho: Delfim Peixoto, opositor de Del Nero.

Na iminĂȘncia de ser afastado pela Fifa, Del Nero manobrou para evitar que um desafeto seu assumisse seu cargo.

Pelo estatuto, o Ășnico jeito era colocar na vaga de Marin – que representava a regiĂŁo sudeste – um cartola mais velho que Delfim.

E foi aĂ­ que surgiu o nome de AntĂŽnio Carlos Nunes de Lima, um paraense que acabou eleito vice pela regiĂŁo sudeste.

Posteriormente, o estatuto da CBF foi mudado, os vices saltaram de cinco para oito, e agora o mais velho sĂł assume de forma interina, por 30 dias.

Depois de toda essa manobra, o Coronel Nunes assumiu a presidĂȘncia no fim de 2017, quando Marco Polo del Nero foi banido do futebol pela Fifa.

Seu mandato tampĂŁo foi marcado por deslizes, uma crise com a Fifa e, principalmente, com a Conmebol – justamente com quem ele precisa lidar agora para a organização da Copa AmĂ©rica.

Voto no Marrocos

A crise começou durante a Copa do Mundo da RĂșssia, em 2018. Durante o torneio, a Fifa organizou seu congresso para a escolha da sede do Mundial de 2026.

A Conmebol havia feito com um acordo com seus dez países para votação na candidatura conjunta de Canadå, México e Estados Unidos. Na hora da votação, porém, AntÎnio Carlos Nunes votou no Marrocos.

A mudança irritou muito os dirigentes da Confederação Sul-Americana. O presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA), Claudio Tapia, chamou o voto de Nunes de “traição”.

Gianni Infantino, que comanda a Fifa e que jĂĄ foi chamado pelo coronel de “Gianini”, nĂŁo escondeu seu constrangimento e pediu que o cartola brasileiro fosse afastado das decisĂ”es importantes SĂł quem ficou feliz pelo voto foi Marco Polo del Nero, que teria telefonado para Nunes para parabenizĂĄ-lo pela postura.

Ainda naquela Copa da RĂșssia, AntĂŽnio Carlos Nunes se envolveu em uma confusĂŁo num restaurante.

Um torcedor brasileiro, que morava no ParĂĄ e estava naquele paĂ­s para assistir aos jogos do Mundial, reconheceu o cartola, proferiu xingamentos e lhe acertou um tapa.

Um assessor do coronel interveio e também foi agredido, revidando com um copo atirado. O torcedor foi parar no hospital. Nunes voltou para o Brasil.

PreferĂȘncias

O coronel Nunes é um homem afeito a conversas, e em geral nunca se recusa a dar declaraçÔes sobre os assuntos em pauta.

Justamente por isso, raramente Ă© visto sem a companhia de algum assessor, que em geral apressa o cartola para que ele nĂŁo fale muito.

Quando foi eleito vice-presidente da CBF, em dezembro de 2015, Nunes nĂŁo teve direito a uma entrevista coletiva – isso tampouco aconteceu quando assumiu a presidĂȘncia, o que, aliĂĄs, se tornou comum.

Mas, naquele dia, o coronel conseguiu driblar os assessores e apareceu para conversar com quem fazia plantĂŁo na sede da CBF. E revelou suas preferĂȘncias.

À Ă©poca, Dunga treinava a seleção brasileira e, tal qual Tite nos dias de hoje, via seu cargo a perigo.

Indagado sobre a situação de Dunga, o coronel Nunes disse gostar do técnico, mas via outros bons treinadores pelo Brasil.

“Para mim (o melhor tĂ©cnico do PaĂ­s) Ă© o Dado Cavalcanti, que recuperou o Paysandu e quase chegou no G-4 (da SĂ©rie B)”, comentou. TambĂ©m via Jorginho, Ă  frente do Vasco, como um bom nome.

Ele tambĂ©m disse que nĂŁo se importava em ser tratado como Coronel Nunes – na CBF, o uso da patente era vetado pelos assessores. “Eu sĂł nĂŁo quero que o tesoureiro do quartel nĂŁo bote lĂĄ que sou coronel, que daĂ­ meu dinheiro vai lĂĄ para baixo”, justificou.

Nunes assume todas as decisĂ”es da CBF com o afastamento de RogĂ©rio Caboclo. Vai ‘governar’ com seus pares na entidade, mantendo a lealdade ao banido presidente Del Nero, que ainda nĂŁo pode deixar o Brasil com risco de ser preso.

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