Com diferenças no ensino das redes pĂșblica e privada, Enem fica mais desigual

Por IG 08/07/2021 Ă s 10:09

A primeira metade da preparação para o Enem 2021, foi marcada por desigualdade no acesso Ă s aulas presenciais entre redes pĂșblicas e privadas. As provas do exame estĂŁo marcadas para os dias 21 e 28 de novembro.

Em 2021, enquanto 18 redes estaduais tiveram até agora 100% das aulas de forma remota, todas as particulares jå foram autorizadas a passar para algum formato híbrido, no qual pelo menos parte das atividades é feita dentro da escola. E apenas duas delas foram vetadas de aulas presenciais por mais de 50% dos dias letivos: Rio Grande do Norte (55%) e Bahia (53%).

O caso mais discrepante Ă© em Alagoas. LĂĄ, todos os 100 dias letivos — metade do ano escolar, atĂ© a Ășltima sexta — foram feitos de forma remota pela rede pĂșblica, e hĂ­brido pela privada. SĂŁo Paulo, por outro lado, manteve as duas redes autorizadas a funcionar presencialmente, com 35% de alunos em sala, o ano todo — no pico da pandemia, em março, suspendeu as aulas, mas antecipou o recesso escolar.

Pela primeira vez em 2021, as redes privadas de todos os estados estĂŁo hĂĄ 30 dias sem interromper o ensino hĂ­brido. JĂĄ as pĂșblicas, em geral, sĂŁo vetadas por nĂŁo garantirem condiçÔes ideais de infraestrutura para abrirem em segurança.

“O impacto dessa diferença vai ser enorme no Enem”, analisa Claudia Costin, diretora do Centro de ExcelĂȘncia e Inovação em PolĂ­ticas Educacionais da FGV.

Na avaliação de Ademar Batista Pereira, presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), é possível manter as escolas funcionando com protocolos rígidos:

“O paĂ­s precisa controlar a pandemia, e cada escola precisa adotar medidas com disciplina. Aquelas que tĂȘm mais espaço, podem colocar mais alunos em sala. Mas as menores precisam restringir mais”.

Aluna do colĂ©gio Mopi, no ItanhangĂĄ, Zona Oeste do Rio, Giulia Kim, de 17 anos, jĂĄ estuda no modelo hĂ­brido desde setembro do ano passado, quando terminou o 2Âș ano do ensino mĂ©dio. Em 2021, o modelo foi interrompido apenas quando o estado determinou a antecipação de um feriadĂŁo para conter o aumento de casos no RJ.

“Estudo na parte da manhĂŁ, de tarde e de noite e tenho aulas presenciais Ă  tarde duas vezes na semana. Tento dormir cedo para render bastante no dia seguinte”, diz a jovem, que se prepara para seu primeiro Enem.

Na cidade do Rio, a prefeitura jå liberou que escolas funcionem com apenas um metro de distanciamento entre as carteiras. Com isso, algumas jå decidiram que, após as férias de julho, vão acabar com o rodízio e abrigar turmas inteiras.

Déficit acumulado

Enquanto isso, no ParĂĄ, VitĂłria Reis, de 18 anos, fez o 2Âș ano do ensino mĂ©dio no ano passado de novembro a fevereiro em um colĂ©gio da rede estadual. Neste ano, desde março, todas as aulas sĂŁo por WhatsApp.

“Estamos tendo muita dificuldade em realizar as atividades sem a presença do professor. Estudamos sĂł pelo celular com os vĂ­deos que eles mandam e os exercĂ­cios”, afirma a jovem, que tambĂ©m pretende fazer o Enem pela primeira vez neste ano.

Estudo do Instituto Unibanco e do Insper com base em pesquisas acadĂȘmicas dos Ășltimos dez anos descobriu que, mesmo em condiçÔes ideais, o ensino remoto consegue apenas 17% da aprendizagem esperada em MatemĂĄtica e 38% de Linguagem.

“Mesmo sĂł com aulas remotas, jĂĄ hĂĄ diferença entre pĂșblicas e privadas, pois estas tĂȘm muito mais recursos para aulas sĂ­ncronas e cujos alunos tĂȘm mais acesso Ă  internet e aos livros didĂĄticos”, explica Costin. “E isso sĂł piora com o ensino hĂ­brido desigual neste momento”.

No entanto, diante do nĂ­vel de transmissĂŁo da Covid no paĂ­s, ainda hĂĄ nĂŁo consenso entre especialistas sobre a segurança para o retorno presencial, ainda que em rodĂ­zio. SĂł na Ășltima semana, o Brasil registrou marca inĂ©dita de mais de 100 mil novas infecçÔes, e a mĂ©dia mĂłvel de novos casos tambĂ©m atingiu o pico desde o inĂ­cio da pandemia, com 77.295 contaminados.

“O retorno Ă s aulas no decorrer do segundo semestre Ă© fundamental com todos os profissionais vacinados com duas doses”, afirma a pneumologista Patricia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de SaĂșde PĂșblica, da Fiocruz.

AtĂ© a Ășltima sexta-feira, 2,7 milhĂ”es de profissionais da educação jĂĄ haviam tomado ao menos uma dose da vacina. Esse Ă© o nĂșmero previsto pelo Plano Nacional de Imunização de pessoas desse grupo. No entanto, mais de 74% foram vacinados em junho com a AstraZeneca, cuja segunda dose sĂł Ă© dada em trĂȘs meses. Todo esse tempo longe da escola coloca em risco a inscrição do aluno no Enem e, em Ășltimo caso, atĂ© a permanĂȘncia do estudante na escola.

“A perspectiva de fazer um bom Enem segura o jovem matriculado. Essa distĂąncia dos professores gera um desengajamento nos alunos e leva Ă  evasĂŁo”, afirma Costin.

Ajuda na rede

No våcuo das redes estaduais, surgem cursinhos pré-vestibulares gratuitos para pessoas em situação de vulnerabilidade que, funcionando apenas no formato on-line, conseguem acessar jovens do país inteiro.

Diferentemente das escolas que precisam atender um nĂșmero muito grande de alunos, eles conseguem fazer um acompanhamento muito prĂłximo dos estudantes.

“NĂŁo Ă© uma utopia. No ano passado, dei aula em dois projetos desses e vi que, com um pouquinho de ajuda, eles conseguem.

EntĂŁo, neste ano resolvi criar mais um”, conta Joanna Cataldo, de 26 anos, jornalista com experiĂȘncia em correçÔes de redação para o Enem que deu vida ao Cursinho Popular Pelo WhatsApp.

As aulas sĂŁo feitas pelo celular para conseguir chegar aos estudantes que tenham pelo menos o mĂ­nimo de acesso Ă  internet.

No entanto, os 15 professores voluntĂĄrios, que jĂĄ reuniram cerca de 70 alunos, conseguem fazer um simulado por mĂȘs e correçÔes individuais de redaçÔes com os mesmos parĂąmetros do Enem. AlĂ©m disso, o Cursinho Popular Pelo WhatsApp tambĂ©m reuniu psicĂłlogos que atendem gratuitamente estudantes que desejam fazer terapia.

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