âA vida sem a mĂșsica seria um exĂlioâ, dizia o filĂłsofo Friedrich Nietzche. De fato, ele estĂĄ certo nesta afirmativa. Nesta terça-feira (13), comemora-se o Dia do Cantor. ProfissĂŁo regularizada atravĂ©s da Lei nÂș 3.857 de 22 de dezembro de 1960 da Ordem dos MĂșsicos do Brasil, a arte de cantar tornou-se essencial para a cultura da sociedade. No Acre, a situação nĂŁo Ă© diferente. Visando ganhar destaque e reconhecimento, diversos talentos promovem seus respectivos trabalhos em festas, bares, restaurantes, festivais e atĂ© nas redes sociais, a fim de expandirem o trabalho e firmarem nome na mĂșsica acreana.
ABIGAIL SUNAMITA
A cantora Abigail Sunamita, de 21 anos, canta desde a infĂąncia. Com influĂȘncias gospel, ela contou que desenvolveu o talento dentro da igreja e que começou a expandir os estilos musicais aos 16 anos, participando de festivais estudantis e militares, onde se consagrou campeĂŁ de ambos e que colaborou para que ela fosse cada vez mais notada na cidade.
A partir de entĂŁo, ela começou a ser convidada para cantar em outros locais, e passou a se inspirar em mĂșsicos como Tim Maia, Gal Costa, Caetano Veloso, Maria BethĂąnia e alguns sambas populares, fazendo covers e resgatando mĂșsicas mais antigas para pĂșblicos relativamente grandes e de idade da faixa etĂĄria dos 30 anos para mais.
âEstou com cinco anos cantando mĂșsica popular, e quem me incentivou neste ramo artĂstico foram alguns professores de escola e o produtor e integrante da banda Os Descordantes, Dito Bruzugu, que me disse que eu poderia expandir e conhecer novas coisas. Depois passei a ser convidada a participar de algumas solenidades tanto do municĂpio como do estado, e fui fazendo minha carreira de forma bem orgĂąnica e espontĂąneaâ.
ELLU
O duo local âElluâ tambĂ©m seguiu trajetos similares. Elisa Cardoso trabalha em conjunto com Luma Gama desde 2019 e contou que começou cantando na igreja por influĂȘncia do pai, que Ă© pastor, e que, posteriormente, passou a se apresentar em eventos culturais das cidades e em saraus que aconteciam na Universidade Federal do Acre (Ufac).
Com trabalhos e estilo musical influenciados por artistas como Seu Jorge, Duda Beat, e bandas nortistas como Los Porongas e Os Descordantes, Elisa disse que precisaram se adaptar de forma massiva nas redes sociais para que elas nĂŁo perdessem o pĂșblico que tinham, e de continuarem cantando. âĂ absurdo o sentimento de se sentir conectado com alguĂ©m pelo simples fato de estar cantando uma canção, ou tocando um instrumento, ou fazendo qualquer tipo de arteâ.
Luma tambĂ©m compartilha do mesmo sentimento. Ambas publicam reels, IGTV e stories interativos como uma forma de mostrar a arte e o trabalho delas. âA arte sempre foi uma grande paixĂŁo minha, e quando me vi como artista a sensação foi como se eu tivesse encontrado uma parte muito importante de mim mesmaâ, falou.
JOĂO MAGĂS
O cantor e compositor JoĂŁo MagĂĄs tambĂ©m começou cedo, aos 12 anos, acompanhando o pai nas rodas de samba, e aos 16 começou a compor. Mesmo com as dificuldades de ter um espaço pra poder apresentar o trabalho, alĂ©m do fato de nĂŁo poder aglomerar, ele conta que costuma se divulgar nas redes e em eventos onde faz uso de voz e violĂŁo. âOutro ponto tambĂ©m Ă© poder migrar para um local onde tenha pĂșblico para seu estilo musical, alĂ©m da falta de apoio Ă classe artĂsticaâ, destaca.

Rodolfo Minari conta que tem consciĂȘncia de seu potencial curativo e de transformação pessoal na mĂșsica / Foto: Arquivo pessoal
RODOLFO MINARI
O artista Rodolfo Minari, de 41 anos, tambĂ©m fincou seus passos na mĂșsica desde cedo, quando começou a tocar ĂrgĂŁo na igreja. Com facilidade para compor, Rodolfo inovou no cenĂĄrio rio-branquense ao criar um empreendimento chamado âMassembaâ, com o objetivo de abrir espaço para que outros artistas locais pudessem expor suas artes. âForam dezenas de shows realizados em poucos meses de funcionamento, de vĂĄrios artistas. SĂł minhas foram mais de 30 apresentaçÔes, de 4 shows diferentesâ, pontuou.
Minari foi um dos afetados pelos desdobramentos da pandemia. Desde entĂŁo, o compositor propaga sua arte atravĂ©s de lives no Instagram, e tambĂ©m atravĂ©s de participaçÔes em outros festivais e com recursos advindos dos editais da lei emergencial de cultura. âCerca de 15 atividades programadas foram suspensas, e jĂĄ se vai mais de um ano praticamente sem nenhuma fonte de renda, o que sĂł veio a ser amenizado com os editais da Lei Aldir Blanc, que permitiu sobrevida ao espaço, onde inclusive moram pessoasâ, falou.
DITO BRUZUGU
O cantor Dito BruzugĂș, que começou cantando em karaokĂȘs no interior de SĂŁo Paulo, construiu uma carreira de 10 anos com dois discos lançados, alĂ©m de clipes e muitos shows com a banda âOs Descordantesâ. O grupo, que atualmente estĂĄ inativo, se reunirĂĄ no pĂłs-pandemia para definir o futuro da banda.
Com a pandemia, Dito contou que passou 1 ano e 3 meses sem cantar presencialmente em lugar algum, o que acabou impactando financeiramente tambĂ©m. âAgora com a vacinação avançando, a gente fica na esperança de que as coisas voltem logo, logoâ, diz.
LEI ALDIR BLANC
O duo Ellu tambĂ©m foi contemplado com os recursos da Lei Aldir Blanc, da Fundação Elias Mansour (FEM). Por conta disso, elas foram para Minas Gerais gravar um EP, que serĂĄ lançado em outubro, e que foi produzido pelo padrinho musical delas, JoĂŁo Vasconcelos, com oito mĂșsicas que variam entre composiçÔes autorais e de outros compositores acreanos.
Esta lei, que homenageia o homĂŽnimo vĂtima de Covid-19, tem por objetivo destinar recursos Ă classe artĂstica brasileira atravĂ©s da divisĂŁo de um recurso de R$3 bilhĂ”es aos estados, municĂpios e Distrito Federal, justamente para que as pessoas que trabalham com arte em geral e que foram duramente impactadas pela pandemia tenham suporte financeiro e consigam desenvolver suas habilidades dentro das limitaçÔes impostas pela Covid.
RECONHECIMENTO
Abigail destaca que uma das maiores dificuldades para quem atua neste ramo diz respeito ao reconhecimento e valorização do talento, e que nĂŁo aceita qualquer coisa para expor a arte do canto. âO que eu percebo Ă© que as pessoas nĂŁo costumam valorizar os cantores com uma boa remuneração. SĂł para ter uma ideia, tem artista que canta em vĂĄrios lugares em uma mesma noite para poder ter uma boa renda. O que atrapalha Ă© a valorização, porque muitos nĂŁo levam a sĂ©rio o trabalho do mĂșsico, jĂĄ vĂŁo falando coisas do tipo âah, vĂŁo morrer de fomeâ, sendo que a voz Ă© o nosso principal instrumentoâ.
Dito tambĂ©m pensa da mesma forma. O cantor disse tambĂ©m que o cachĂȘ de quem trabalha com mĂșsica nĂŁo aumenta hĂĄ muito tempo. âDefasagem de cachĂȘ Ă© um problema sĂ©rio. Hoje em dia se paga a mesma coisa ou menos do que se pagava hĂĄ uns 8 anos. Ă bem complicado isso. A pandemia quebrou muita gente, os bares estĂŁo com lotação de 50% (alguns desrespeitam bastante as regras) mas o que mais atrapalha creio que seja o cachĂȘ defasadoâ, pontua.
Elisa tambĂ©m segue a mesma linha de raciocĂnio, dando enfoque na falta de abertura dos acreanos Ă s mĂșsicas regionais. âUma queixa comum Ă© referente ao acolhimento dos acreanos com seus artistas locais, e por muito tempo ficamos sem incentivo cultural, sem cena para atuar, mas vejo muita mudança acontecendo, e acredito que em breve teremos um cenĂĄrio musical incrĂvel e muito forte no Acreâ, ressalta.
Luma complementa que muitas a indĂșstria musical costuma focar apenas nos eixos Rio-SĂŁo Paulo e limitam artistas regionais como tal. âNosso maior esforço Ă© para quebrar essa ideia e reafirmar que somos artistas acreanas e nem por isso deixamos de ser artistas brasileiras, fazemos mĂșsica brasileira, vinda do meio da AmazĂŽnia, do estado do Acre e isso Ă© motivo de orgulhoâ.
Rodolfo Minari, por sua vez, afirma que questĂ”es envolvendo alto custo de deslocamento e de compra de equipamentos e, principalmente, o fato de muitas pessoas acharem que ser mĂșsico nĂŁo Ă© uma profissĂŁo, sĂŁo alguns dos fatos que mais atrapalham para quem quer viver de mĂșsica. âExiste uma cultura de que a simples divulgação do nosso trabalho compensa o fazermos gratuitamente. Somos das poucas profissĂ”es que as pessoas pedem a todo tempo para trabalharmos sem contrapartida financeira. Na minha opiniĂŁo, o que mais atrapalha um artista Ă© precisar ter outra profissĂŁo para sobreviverâ, diz.
CANTAR POR AMOR
Mesmo diante dos percalços que circundam a vida de quem investe tempo, dinheiro e dedicação na mĂșsica, Rodrigo afirma que o amor pela criação Ă© o que lhe move para fazer o que gosta. âNo meu caso, tambĂ©m fiz uma promessa de me devotar Ă arte 14 anos, sem desistir. E, claro, a maior recompensa e incentivo Ă© a reação espontĂąnea de crianças e de pessoas, muitas sequer conhecidas, ao trabalho, e aos relatos que receboâ.
Abigail tambĂ©m compartilha do mesmo sentimento. âPara mim, ser cantora Ă© o que me move e o que me deixa extasiada. Eu faço isso por prazer, por amor. Mesmo diante das dificuldades, a gente se mantĂ©m de pĂ© levando para as pessoas o que a gente sabe fazer de melhor. Tem espaço de sobra para todo mundo, mesmo sem muita valorizaçãoâ, diz.
Luma e Elisa nĂŁo veem a hora de estar nos palcos como âElluâ. âSentimos muita falta de estar no palco, de partilhar essa sensação juntas e com o pĂșblico e possivelmente tocar pessoas com a nossa arte, mas sigo ansiosa por esse reencontroâ, falaram.
JoĂŁo MagĂĄs traz o mesmo sentimento de paixĂŁo pelo o que faz. âCada composição que faço Ă© uma parte do que eu vivi ou que eu tenha visto alguĂ©m viver, e poder eternizar esse momento atravĂ©s de uma canção Ă© sensacionalâ, pontuou.
Dito finaliza dizendo que o ofĂcio e o amor por ele, bem como a necessidade de ajudar no sustento da famĂlia faz com que ele execute seu talento com primazia. âA mĂșsica me deu tudo o que tenho, e eu ainda quero conquistar maisâ, comentou.






