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Há 24 anos, Acre perdia o teatrólogo Betho Rocha; assassino nunca foi encontrado

  • TIÃO MAIA, PARA CONTILNET
  • 2 de setembro de 2021
  • 09:45
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Exatos 24 anos depois, o assassinato do ator e diretor de teatro Betho Rocha, morto as golpe de faca à altura da garganta, nunca foi esclarecido e o assassino nunca identificado e que certamente continua em liberdade. O corpo do artista foi encontrado numa rede, em seu apartamento, localizado num dos blocos da Rua Luiz Z da Silva, no Conjunto Manuel Julião, em Rio Branco (AC). Ele foi assassinado aos 38 anos de idade, em setembro de 1997.

O crime é envolto em mistério porque o artista era uma pessoa querida e aparentemente sem inimigos. Além disso, seu apartamento não tinha características de arrombamento nem tampouco foram roubados objetos de valor. Na posição em que o corpo foi encontrado, deitado numa rede, a conclusão da polícia, na época, foi que o artista foi assassinado enquanto dormia.

A polícia descobriu que o artista, homossexual assumido, de vez em quando levava namorados para o apartamento e seu assassino pode ter sido um dos homens com o qual o artista se relacionava. Só que a polícia na época, que não dispunha de equipamentos para colher impressões digitais no local, nunca encontrou pistas que pudessem levar à identidade do criminoso.

Alberto Antônio Araújo Rocha nasceu em Rio Branco e logo cedo, ainda adolescente, se apaixonou pelo teatro. Logo cedo, ao lado de pessoas como Binho Marques e Marina Silva, que se tornariam personagens icônicos da política no Acre do futuro, ele como vice-governador e depois governador Estado, e ela como senadora, ex-ministra e candidata à presidência da República, além de outros jovens do bairro da Estação Experimental, passaram a se envolver com a arte de representar. Eram tempos difíceis, a ditadura militar dando sinais de que estava ferida, mas viva com sua política de censura e perseguições a todos àqueles, principalmente artistas, que não rezassem pela cartilha dos generais que haviam assaltado o poder em 1964 e que levariam o país a 25 anos – ate 1985 – de uma ditadura que solapava as liberdades, em todos os sentidos.

Foi neste clima que Betho Rocha e seus amigos começaram um movimento que levaria à criação da Federação de Teatro Amador do Acre (Fetacre), que acaba de completar 40 anos de fundação, além de montar vários espetáculos regionais e outras peças que chegaram a ser premiadas em festivais de vários estados e que chegaram a ser, inclusive, elogiados pelos críticos dos grandes jornais do país, na época. Criativo e inquieto, Betho Rocha um certo dia escreveu o poema a seguir: “Vou andar por entre terras ainda não descobertas. Se não houver amanhã, cantarei hoje ao som do silêncio a minha última canção em vida. E pelos caminhos transcendentais, de por ai… Quero estar nu. Por que minha alma vai entrar no infinito da morte na certeza que serei eterno”. O poema está num livrinho com ilustrações feitas pelo futuro governador e seu ex-parceiro de palcos Binho Marques e cuja capa fazia menção a uma lapide de cemitério, com o título ‘Aqui jaz, de Batom Lilás”.

Parecia, portanto, uma premonição do que lhe aconteceria. Seu corpo foi encontrado seminu. O poema era uma definição de vida sem meios termos, sempre entre a irreverência e a ternura, de quem viveu e morreu fazendo arte da melhor maneira e qualidade possível. “Beto Rocha é para o teatro do Acre o que Glauber Rocha foi para o cinema brasileiro. Como sua poesia diz: “entrar no infinito da morte na certeza de ser eterno”, lembrou o jornalista Pitter Lucena, atualmente radicado em Brasília e que foi repórter no Acre e assessor de imprensa da delegacia local do Sesc (Serviço Social do Comércio), instituição com a qual o teatrólogo se relacionava.

“Conheci Betho, no início dos anos 90, quando fui levado pela minha mãe, uma atriz conhecida por Manga Rosa, ao teatro para assistir seus ensaios no palco do Cine Teatro Recreio. Por lá descobri a magia dessa arte milenar, pelas mãos do diretor Betho Rocha, e então dei meus primeiros passos no teatro. Apesar da pouca idade fui tratado como os demais e tinha responsabilidade como qualquer outro”, disse o ator e diretor Yury Montezuma, que segue os passos do mestre. “Com ele, descobri o universo dos festivais teatrais, dos outros teatros praticados pelo país. Betho era puro fogo! Ou se gostava dele, ou então odiavam, mas ninguém ficava indiferente ao seu trabalho. Tanto que é impossível falar de teatro acreano sem falar dele. Betho Rocha!”, acrescentou.

“Era um gênio. E gênio não se discute. Só se reverencia”, disse outro discípulo de Betho Rocha, Luis Carlos “Rabicó”, ator e iluminador, que também trabalhou com o artista.
Beth Rocha começou sua pungente carreira teatral no grupo Gruta, fundado no começo de 1979,. Mas também passaria pelos grupos “Semente”, “Sacy” e “4º Fuso”. Em 1987, fundou o grupo Adsaba – um Núcleo de Pesquisa Teatral que parecia inconformado com o modelo de grupo de teatro que se focava apenas em questões políticas. Em entrevista concedida à revista “N‘ativa”, em 1995, ele comentou a sua iniciação no grupo Gruta: “Somente uma vontade ansiosa de fazer algo, de montar espetáculos, de aprender. Queria fazer qualquer coisa. Fui para o grupo Gruta, trabalhar com o Naylor e o José Alves para montar Suarentos do Marley Cunha. Esse trabalho estreou em outro de 79 […] a maioria das montagens era direção coletiva, todo mundo dava pitaco, tanto quem sabia como quem não sabia”, revelou. Naylor George, ciatdo por ele, foi um jornalista e escritor que faleceu em 2019 e José Alves, jornalista e ator, se aposentou como delegado de Polícia Civil..
Após transitar por vários grupos, Betho rocha criou seu próprio grupo o “Adsaba”, através do qual criou e apresentou peças premiadas no país a fora. Como um amaturgo defensor da linguagem de fundo e preocupação antropológicos do movimento teatral no Acre, bem como um militante da consciência libertária. Ele defendia uma linguagem teatral que fosse preocupada com as questões da identidade do homem amazônico. Acreditava que, através do estudo de rituais e tradições indígenas, seria capaz de explorar aspectos específicos do modo de vida da população local, representando a sua identidade e tradições específicas.

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