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13 outubro 2021 6:52 pm

Há 54 anos, morria Che Guevara; guerrilheiro entrou na Bolívia pelo Acre, dizem historiadores

Pelo menos três meses antes de ser morto tentando fazer revolução na selva boliviana, guerrilheiro estivera em Rio Branco

POR TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

Última atualização em 08/10/2021 17:23

Era uma sexta-feira, como a hoje, naquele oito de outubro de 1967, quando o exército boliviano, com apoio da CIA, a central de inteligência do governo norte-americano, fez, com algum orgulho, a exibição daquele cadáver, crivado de balas. Jogado sobre uma carroça de boi, despido da cintura para cima, esquálido e com barba por fazer, o corpo era do líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara, mas a fragilidade das imagens apontava mais para uma espécie de santo, uma imagem bem diferente daquela cultuada em todo o mundo desde quando foi tirada, em 1960, pelo fotógrafo argentino Alberto Diaz Gutierrez Korda.

Diferente da imagem em que o guerrilheiro aparece com sua indefectível boina preta com uma estrela vermelha, com barba e cabelos ao vento, o Guevara daquela carroça lembra mais a imagem de Jesus Cristo recém-retirado da cruz. Aliás, no lugarejo de Vallegrande, em cuja selva Guevara fora capturado e morto, nos arredores da cidade Santa Cruz de La Sierra, a pouco mais de 1.200 quilômetros de distância em relação à fronteira com o Brasil, no Alto Acre, há, até hoje, informações de que, por ali, o líder guerrilheiro é santificado e opera milagres em relação à população local. O que pouca gente sabe é que, pelo menos três meses antes de entrar no território boliviano para tentar um levante militar nos moldes da Revolução em Cuba, ao lado de Fidel Castro, o homem que se tornaria mito da ideologia de esquerda e que é celebrado em todo o mundo, passou pelo Acre e, em Rio Branco, teria mantido contatos com acreanos simpatizantes de sua causa.

Guerrillero Heroico: fotografia de Alberto Korda tirada em 5 de março de 1960 ficou imortalizada. Foto: Reprodução

Dois desses acreanos com os quais o líder guerrilheiro se avistara em busca de informações sobre a situação na Bolívia teriam sido o futuro líder sindical Chico Mendes e o ativista político conhecido como João Borborema, ambos já falecidos. O provável encontro de Chico Mendes com o guerrilheiro teria se dado na incipiente BR-317, ainda sem asfalto e que não passava de um caminho de serviço, nas redondezas da fazenda Filipinas, nos arredores de Xapuri, para onde o então jovem Chico Mendes teria sido orientado a ir se encontrar “com uma pessoa importante da política mundial” e que depois, quando já era famoso, ao ver uma fotografia do homem com o qual estivera contato, era ninguém menos que Che Guevara.

Esta história era o próprio Chico Mendes que contava aos seus amigos mais próximos, como o comerciante e servidor público João Mendes, o “João Garrinha”, dono de um hotel pousada em Xapuri. “Ele me contou isso mais de uma vez sem maiores detalhes”, chegou a revelar “Garrinha” em conversas com amigos.

A história, a propósito, está registrada oficialmente, com alguma alteração, já que, pela história escrita o encontro teria sido casual e Chico mendes, na verdade, não sabia ao certo com quem estava falando. Numa entrevista concedida ao sociólogo Pedro Vicente, ex-delegado do Sesc no Acre, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e autor do livro “Exercícios Circunstanciais”, publicado em 1997 pela editora Coivara, de Natal (RN), Chico Mendes faz o seguinte depoimento sobre caso. Chico Mendes com a palavra:

“Eu nunca tinha visto seu retrato (do Che), porque não circulavam revistas ou jornais no seringal, mas tinha ouvido seu nome através da Rádio Central de Moscou. Não me recordo bem o ano, creio ter sido em meados de 65 ou 66. Eu estava caminhando pela BR-317 e, cansado, parei no bar no entroncamento, a 12 quilômetros de Xapuri. Naquele instante chegou um cidadão vindo das bandas de Rio Branco. Demonstrava ser uma pessoa muito educada; encostou-se no bar e puxou conversa comigo e com outros que estavam próximos. Falou que tinha interesse em conhecer a selva amazônica, principalmente, os seringais e a selva boliviana. Indagou se eu era seringueiro. Respondi que sim e há muitos anos. Perguntou se eu não gostaria de acompanhá-lo até até os seringais da Bolívia, pois não tinha costume de caminhar na selva. Precisava de uma pessoa que conhecesse os varadouros e o levasse na direção da fronteira. Dava para identificar que não era brasileiro, misturava português com espanhol. Ele conduzia uma mochila, falou que possuía joias que aproveitava para vender e sobreviver durante o percurso. Não dispunha de muito dinheiro, mas perguntou quanto eu queria por dia para ir com ele até onde pudesse. Não aceitei o convite. Alguém me disse que era perigoso, podia ser um bandido. Não acreditei, mas não podia ir. Alguns meses depois, em Xapuri, passei diante da delegacia e um retrato me chamou atenção. Dizia que Che se encontrava em território boliviano para organizar o terror na região. Fiquei abalado. Lembrei-me que havia visto e conversado com aquela pessoa no entroncamento. Nunca pude imaginar – pensei comigo mesmo – que aquela pessoa fosse um terrorista. Olhei várias vezes a fotografia. Não tive a curiosidade de pegar a propaganda, um cartaz, e guardar comigo. Tempos depois, ao ler o livro sobre a guerrilha do Che na Bolívia reafirmei a convicção de que cruzei com ele. Posso afirmar com certeza: era o Che!”.

Pedro Vicente, o sociólogo que colheu este depoimento de Chico Mendes, já é falecido. Como também o padre José Carneiro de Lima, um personagem controverso da história do Acre. Em artigo publicado no semanário “O Jornal”, de Rio Branco, em 1980, o religioso conta que, na mesma época, Che teria feito indagações a seu irmão, Padre Peregrino, sobre como se deslocar para a localidade boliviana Santa Rosa, no alto rio Abunã. O frei indicou alguém que possuía canoa motorizada e levou o comandante da Revolução Cubana ao local onde o aguardava um avião. O próprio padre José, algum tempo depois, toparia durante uma desobriga no rio Acre, com dois “coronéis do exército brasileiro” no seringal Itu. Segundo ele, os “coronéis”, falando mal o português, prometiam muitas coisas e anunciavam para breve uma revolução no Brasil. Desconfiado, o padre seguiu imediatamente para Xapuri, fez contato com os militares e descobriu que os dois eram, na verdade, Inti Peredo e Dario, companheiros de guerrilha de Che Guevara, também mortos na Bolívia.

Che Guevara morreu dia 08 de outubro de 1967, com 39 anos em La Higuera, Santa Cruz, Bolívia. Foto: Reprodução

Já o possível encontro de Guevara com João Borborema é contado pelo professor de História da Universidade Federal do Acre (Ufac), Daniel da Silva Klein, em tese de Doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo e também nos Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, também em São Paulo, julho 2011. O título do texto é “Comunistas, revolucionários e a passagem de Che Guevara pelo Acre: um olhar sobre um contexto de resistências entre 1962 e 1966”.

De acordo com este historiador, “a possível passagem de Che Guevara é lembrada noutras histórias que não contradizem a que contamos, mas a complementam”. Duas grandes biografias do guerrilheiro estudadas pelo historiador acreano mostram que Guevara entrou na Bolívia pelo Mato Grosso. É o que dizem os autores a de Jon Lee Anderson (2005), norte-amerricano, e outra de Jorge Castanheda (1997), mexicano, ambos biógrafos do líder guerrilheiro. “As duas biografias trazem informações complementares, a despeito dos pontos de vista divergentes entre um autor norte americano e outro mexicano”, escreve Daniel Klein.

Os dois dizem que Che Guevara chegou à Bolívia entre outubro e novembro de 1966, após ter feito uma viagem de avião que saiu de Cuba, passou por Madri e chegou a São Paulo. Da capital paulista tomou um ônibus para Corumbá no Mato Grosso, daí foi de jipe com algumas pessoas para Cochabamaba, em território boliviano. Durante o trajeto Che Guevara teria usado um disfarce e até duas identidades provenientes do Uruguai, cujos nomes são de Adolfo Mena Gonzáles e Ramon Benítez Fernandez.

Os registros fotográficos dos documentos forjados por Che Guevara para essa viagem mostram um indivíduo usando grandes óculos, chapéu inglês, sobretudo e barba aparada. A aparência do guerrilheiro estava sensivelmente modificada para parecer um pacato, velho e honesto trabalhador qualquer do Uruguai.

Jorge Castanheda diz que baseou suas informações sobre esse trajeto de Che Guevara a partir de dois passaportes apreendidos pelo exercito boliviano, que tinham a mesma foto e carimbos de entrada e saída com dias diferentes do aeroporto de Madri. Sem aprofundar o questionamento das fontes de sua pesquisa o autor diz que tudo permite concluir que o trajeto de Cuba à Bolívia foi efetivamente o que consta nos documentos apreendidos.

No dia 8 de outubro de 1967, tropas da Bolívia mataram o líder Ernesto Che Guevara. Foto: Reprodução

Mas é exatamente os documentos apreendidos pelos militares bolivianos podem ser oriundos de um estratagema montado por Che Guevara para confundir os serviços internacionais de espionagem, não evidenciando, de maneira automática, o seu trajeto para chegar à Bolívia. “Portanto, o problema levantado ainda persiste, porque as pistas e evidências constantes nos documentos apreendidos de Che Guevara não respondem satisfatoriamente a pergunta de como ele chegou à Bolívia. É provável que a resposta a tal pergunta esteja viva nas reminiscências de alguns antigos ativistas dos movimentos comunistas e de esquerda residentes na cidade acreana de Rio Branco”, escreve o historiador.

Daniel Klein conta que, em uma noite do final de 1966, o acreano João Borborema, a quem ele entrevistaria para sua tese, é surpreendido com uma estranha visita por volta das vinte horas. “Um homem alto, barbado, de porte físico considerável e carregando uma volumosa mochila bateu na porta de sua casa. Quando João Borborema atendeu, o homem lhe perguntou: “Es Juan, hermano de Raimundo?”.

Raimundo Borborema, que vem a ser pai do falecido cantor Tião natureza, assassinado em agosto de 1992 em Rio Branco, é irmão de João Borborema e deixou o Acre com destino a Cuba, por influência de amigos simpáticos à vitoriosa revolução cubana conduzida por Fidel Castro e Che Guevara, dissera, antes de deixar a família no Acre e em Manaus (além de Tião Natureza, ele tivera outros cinco filhos, com outra mulher), que iria se juntar ao exército guerrilheiro de Cuba para uma possível guerra contra o capitalismo na América Latina. Coincidência ou não, era o mesmo sonho de Guevara de uma revolução em escala mundial, razão pela qual, antes de ir para a Bolívia, ele se aventurara pela África em busca de um movimento revolucionário local, mas decepcionou-se porque, segundo o próprio, em suas memórias, os africanos só tinham interesses tribais e jamais fariam parte de um exército.

Na conversa com João Borborema, o visitante de imediato sacou da mochila um postal no qual ele reconhecera a assinatura e a caligrafia de seu irmão. No postal, Raimundo não informava quem era de fato o portador mas pedia também que o levasse para Bolívia e que se preciso fosse o defendesse com a própria vida.

No dia 10 de outubro de 1967, o corpo do argentino, Ernesto Che Guevara, executado no dia anterior, foi exibido à imprensa num casebre. Foto: Reprodução

O teatrólogo Lenine Alencar, filho de João Borborema, contou ao ContilNet que seu pai sempre constava esta história e disse que, naquele encontro, disse ao visitante que não via seu irmão fazia algum tempo e quis saber como ele estava. “Bien, mucho biem”, disse o visitante.

Borborema logo reconheceu Che Guevara porque ele não estava disfarçado. “Tinha o rosto cabeludo de sempre, o semblante sério, mas uma personalidade muito simpática. Conversaram algumas amenidades enquanto preparavam-se para a viagem e descobriu que seu irmão naqueles dias estava vivendo bem acomodado em Cuba”, conta Daiel Klein a partir da entrevista com Borborema.

De acordo com o historiador, os dois saíram por volta de meia noite e rumaram para a cidade de Plácido de Castro, na fronteira com a Bolívia, percorrendo uma estrada de barro em um velho jipe. Chegaram ao destino passando de seis horas da manhã e seu João procurou um barqueiro que levasse seu ilustre companheiro dali em diante. O barqueiro atendia pelo nome de Airton e sabia como chegar no ponto em que Che Guevara queria ficar, seguindo para tanto os caminhos entre rios e seringais. A negociação entre os três chamou a atenção de Borborema, pois o comunista argentino pagou o barqueiro em dólar. Após guiar e encaminhar o ilustre visitante, seu João voltou para casa. orgulhava-se de ter ajudado um dos homens mais impressionantes da história, segundo sua concepção, e que fez isso em homenagem a tudo o que aprendeu com seu irmão, que tinha viajado por intermédio de Francisco Julião para Cuba e preparava-se para ser guerrilheiro em toda a América Latina.

Borborema, segundo seu filho Lenine, após isso, ainda chegou a ir para a Bolívia, a pé, pela estrada, par juntar-se a Che Guevara na selva boliviana, mas, ao que tu indica, depois de dois ou três meses, a saudada da família foi maior que as convicções do velho guerrilheiro e ele voltou para casa.

Dia 8 de outubro de 1967, o exercito boliviano informava ao mundo que Che Guevara estava morto. O velho Borborema chorou, lembra seu filho. O corpo do guerrilheiro só foi localizado 30 anos após sua morte, em 1997, e levado para Cuba.

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