O jornalista carioca Marcos Eduardo Neves possuĂ extensa carreira na produção de livros biogrĂĄficos, sobretudo de personalidades esportivas. Lembro como se fosse hoje quando li âNunca Houve um Homem como Helenoâ, obra que narra a trajetĂłria do famoso futebolista do Botafogo, Heleno de Freitas, escrita de forma magistral por Marcos.
A admiração foi tĂŁo grande que me inspirou a escrever meu primeiro livro, e durante uma viagem ao Rio de Janeiro para coletar informaçÔes de Alcino, maior Ădolo da histĂłria do Clube do Remo, marquei de conhecer o autor num bar do Leblon, e desde lĂĄ nos tornamos amigos.
Atualmente ele Ă© Publisher da Approach Editora e estĂĄ lançando seu novo livro, âMaestroâ, sobre a trajetĂłria no Flamengo do ex-jogador JĂșnior, do qual participou na edição e produção.
Ele tambĂ©m passou por importantes veĂculos de comunicação do paĂs, como o Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Lance!, Placar, e colaborou com revistas como Trip, Lola e Tam nas Nuvens; e livros como âAnjo ou DemĂŽnio â A polĂȘmica trajetĂłria de Renato GaĂșchoâ, âAlex â A Biografiaâ, âVendedor de Sonhos â A vida e a obra de Roberto Medinaâ e âNunes â O Artilheiro das DecisĂ”esâ.
Confira abaixo a entrevista exclusiva com o jornalista para a ContilNet:
CN: Conte-nos um pouco da sua vida antes de seu primeiro livro, do Renato GaĂșcho.
MEN: Fiz Psicologia durante seis perĂodos, ou trĂȘs anos. Mas, no fundo, queria mesmo era escrever sobre âcomportamentoâ, tipo relação pais/filhos, casamentos, traição, paixĂŁo, essas coisas. Ou seja, fiz Psicologia mas queria ser jornalista! Descobri aos 24 anos que precisava mudar de faculdade. PorĂ©m, entrei âtardeâ no Jornalismo. NĂŁo me davam chance de estagiar porque eu estava âvelhoâ, principalmente diante dos estudantes de 18, 19 ou 20 anos. Acabei fazendo um livro para usar como currĂculo, cartĂŁo de apresentação. Por ter sido gandula e ter me aproximado do Renato GaĂșcho na GĂĄvea, escrevi sua biografia (Anjo ou DemĂŽnio, editado pela Gryphus em 2002). Acabou que descobri nisso que o que eu queria mesmo, mais do que ser jornalista, era me tornar biĂłgrafo.
CN:Â O que o motivou a escrever o livro do Renato? Por quĂȘ vocĂȘ o escolheu e como foi o processo produtivo desse projeto.
MEN: Motivou o fato de eu precisar fazer algo que me destacasse dos demais estudantes de Jornalismo e pudesse, assim, conseguir estĂĄgios com mais facilidade, jĂĄ que entrei âvelhoâ na faculdade. TambĂ©m motivou o fato de eu ter me aproximado dele quando fui gandula do Flamengo e termos criado uma amizade, tanto com ele como com sua mĂŁe, sua noiva, seus amigos. E o fato de ele ser um Ădolo nacional. Acreditei que seria um projeto interessante do ponto de vista mercadolĂłgico, o que me renderia visibilidade como escritor.
Em relação ao processo produtivo, aprendi fazendo. Apurando em jornais da época, revistas, livros, escrevendo, reescrevendo, cortando, fazendo entrevistas com amigos e profissionais do meio, além de familiares, revisando, editando, enfim, aprendi botando a mão na massa. Não tive teoria para me ajudar. Aprendi na marra, só na pråtica.
CN:Â Quais livros vocĂȘ escreveu depois? Qual sĂŁo as dificuldades de ser um escritor no Brasil?
MEN: Tenho 12 livros no total. Biografias do Renato GaĂșcho, do Heleno de Freitas, do Alex, do Francisco Horta, do Nunes, do Loco Abreu (junto com Gustavo Rotstein), do Roberto Medina (o criador do Rock in Rio), da construtora Servenco, do desembargador Aloysio Maria Teixeira, de Gilberto Gama (uma espĂ©cie de âForrest Gumpâ brasileiro), do engenheiro ApolĂŽnio Bechara e um livro sobre os 20 principais jogos do Flamengo atĂ© 2013.
As maiores dificuldades de ser escritor Ă© que praticamente nĂŁo dĂĄ para ser apenas escritor. Hoje sou editor, na Approach Editora. Faço comentĂĄrios em rĂĄdios, dou palestras, faço matĂ©rias para jornais ou revistas, enfim, viver sĂł de livros em um paĂs de poucos leitores Ă© muito complicado. Mas nĂŁo desisto. Acredito que ainda estou trilhando o meu caminho e um dia chego lĂĄ!
CN: Com o livro do Heleno, vocĂȘ ganhou projeção nacional, com a obra virando atĂ© filme. Conte-nos a sua trajetĂłria, do inĂcio das pesquisas atĂ© a estreia do filme, estrelado por Rodrigo Santoro.
MEN: Realmente âNunca houve um homem como Helenoâ me consolidou como biĂłgrafo. Entrevistei mais de 100 pessoas, algumas que faleciam pouco depois, porque era um universo de octogenĂĄrios, alguns atĂ© de 90 e poucos anos. Heleno hoje teria 101 anos, para se ter ideia. Comecei as pesquisas pelo Google, mas muita coisa nĂŁo batia. Os jornais de Ă©poca foram mais confiĂĄveis, por virem com o que acontecera no dia anterior. As entrevistas foram cruciais, porque faziam as peças do quebra-cabeça se encaixar. E optei por dar um tempero a mais, reconstituindo uma Copacabana e um Rio de Janeiro que nĂŁo existem mais, de tĂŁo glamourosos que foram, com direito a cassinos e astros de Hollywood por aqui. Heleno era mais do que um jogador, era uma personalidade. Um homem que viveu 39 anos a mil. E que foi muito bem retratado pela atuação do Santoro. Uma pena o roteiro do filme ter ficado meio capenga. Mas ainda sonho que este livro virarĂĄ minissĂ©rie. E que eu possa participar de forma mais efetiva do roteiro.
CN:Â VocĂȘ fez vĂĄrios livros ao longo da carreira, como o do Francisco Horta (Fluminense) e Roberto Medina (Rock In Rio), mas o do Alex foi um sucesso de vendas, principalmente na Turquia. Quantos livros do Alex foram vendidos somando Brasil e Turquia, e como esse livro foi avaliado no exterior.
MEN: Alex, A Biografia vendeu cerca de 20 mil cĂłpias no Brasil e estĂĄ sendo reeditado mĂȘs que vem na Turquia, porque nosso contrato de 5 anos expirou. Querem renovar os direitos porque continua vendendo, isso Ă© bom sinal. Vejo que Alex lĂĄ serĂĄ como o livro do Garrincha aqui. Enquanto nenhum outro jogador for para a Turquia e ganhar o reconhecimento nacional que ele fez jus por merecer, este livro terĂĄ mais e mais reimpressĂ”es. JĂĄ bateu a casa dos 150 mil livros vendidos. Ă, sem dĂșvida, meu maior sucesso comercial. E me deu esse âstatusâ de autor mundial, porque onde tem turco â e turco tem em todo lugar, que nem judeu â, o livro Ă© comprado. Volta e meia recebo postagens de alguĂ©m com o livro em Berlim, em Nova York, em Sarajevo, enfim, no mundo todo. Ă muito gratificante ver um âfilhoâ meu ganhar o mundo!
CN: VocĂȘ jĂĄ trabalhou em vĂĄrios veĂculos de comunicação, mas nĂŁo continuou no mainstream, digamos assim. Na sua opiniĂŁo, qual foi o motivo? HĂĄ panela de jornalistas no RJ ou preconceito com escritores?
 MEN: Acho que quando nos tornamos biĂłgrafos, deixamos de ser especialistas em um determinado assunto. Isso pesa. Sabemos pouco sobre muita coisa, mas deixamos de saber muito sobre uma coisa sĂł. EntĂŁo, por exemplo, jornalista que fala sobre futebol na TV domina este assunto, mas boia se tiver que falar sobre Engenharia. NĂŁo considero biĂłgrafo quem sĂł faz biografias de cantores. Considero historiador de mĂșsica. Se sĂł faz livros de futebol, considero historiador de futebol. BiĂłgrafo Ă© tipo ator. Rodrigo Santoro mesmo jĂĄ fez papel de padre, de galĂŁ, de homossexual, enfim, navega em sete mares. EntĂŁo, nĂŁo digo que seja preconceito, mas realmente assumo que nĂŁo sei tanto sobre um Ășnico assunto como quem estĂĄ no dia a dia daquela determinada profissĂŁo. Mas estudando conseguiria rapidamente me adaptar. Ă uma questĂŁo do que a vida me levou a ser. PorĂ©m, nĂŁo descarto voltar ao mainstream, se preciso for.

MEN: Na Approach Editora, realizamos o sonho de muitos que acham que fazer livro Ă© coisa pra Paulo Coelho, Zuenir Ventura ou Luis Fernando VerĂssimo. Qualquer um pode fazer um livro. Seja escrevendo ou dando depoimentos que um profissional sĂ©rio saberĂĄ organizar em texto. NĂłs desengavetamos projetos. Ă uma delĂcia fazer o âpartoâ de filhos dos outros. JĂĄ fizemos livro sobre Marilene Dabus, primeira mulher a cobrir futebol no Brasil; fizemos um livro de crĂŽnicas de futebol de um peladeiro; fizemos um livro de um CEO de uma grande loja que dĂĄ dicas para nĂŁo âquebraremâ na pandemia; temos um romance em ebook, de uma autora octogenĂĄria que assina sua primeira obra; temos uma enciclopĂ©dia de Ădolos dos primĂłrdios do futebol tambĂ©m em e-book e preparamos agora um livro sobre o Maestro Junior, outro que Ă© sobre racismo (escrito pelo ator e cantor Thiago ThomĂ©), um guia para quem quer se aventurar no mundo das corridas e, por fim, uma compilação de crĂŽnicas da A Pelada Como Ela Ă, do meu sĂłcio Sergio Pugliese, que toca o Museu da Pelada.
Quanto ao mercado de livros sob demanda, ou orçamos para criar do zero um livro ou para âresolverâ o texto de alguĂ©m que nĂŁo Ă© escritor mas quer eternizar sua histĂłria em formato impresso ou digital. A ordem Ă© nĂŁo deixar morrer a ideia, muito menos colocĂĄ-la na gaveta.Â
CN: VocĂȘ possuĂ um ritual ou cronograma na elaboração de seus livros? Conte como funciona sua rotina produtiva.
MEN: NĂŁo tenho rituais. Tudo depende da necessidade. Ăs vezes entrevistas resolvem. Ăs vezes preciso fazer pesquisas, para afinar certos pontos, resgatar histĂłrias perdidas. Cronograma sĂł tenho quando sou contratado e tenho atĂ© o mĂȘs tal para finalizar. AtĂ© entrego, mas nĂŁo Ă© o melhor dos cenĂĄrios. Porque livro Ă© arte. Se Da Vinci tivesse que entregar sua Monalisa meses antes, nĂŁo daria alguns retoques que tornaram a obra imortal. Mesma coisa com um livro. Quanto mais tempo, mais lapidação no texto, que fluirĂĄ melhor.
Quanto Ă minha rotina produtiva, sĂł consigo dormir quando estou consciente de que dei o mĂĄximo de mim no dia. Seja resolvendo um capĂtulo ou criando algo que, por eu ser muito exigente, tenho certeza que prenderĂĄ o leitor. Um degrau por dia e em meses temos uma escadaria da Igreja da Penha. NĂŁo dĂĄ para parar, porque aplicativos nĂŁo captam mente humana e o âsantoâ sĂł baixa quando ficamos diante do monitor e do teclado.
CN: O seu Ășltimo livro Ă© o do JĂșnior, Craque do Flamengo, tambĂ©m seu time do coração. Ă diferente escrever sobre o Flamengo? Como foi a relação com o Maestro na produção da obra.
MEN:Â Muitos acham que âMaestroâ Ă© livro meu. NĂŁo Ă©. O livro Ă© do prĂłprio Junior, feito a quatro mĂŁos com um amigo pesquisador e fĂŁ dele, Mauricio Neves de Jesus. SĂł fui o âparteiroâ. Peguei o word e revisei. Organizei. Editei. Mas considero filho, de certa forma. Porque sai pela minha editora, a Approach, com o selo do Pugliese, âMuseu da Peladaâ.
Mas jå escrevi sobre o Flamengo algumas vezes. Fiz um livro sobre 20 jogos do clube e as biografias de Renato, Alex, Nunes, todos que passaram pelo Flamengo. Não acho diferente escrever sobre meu time. Porque separo o pessoal do profissional. Saio do torcedor de arquibancada para ser alguém que retrata um momento, seja ele bom ou ruim. Com imparcialidade, senão perco credibilidade.
Quanto Ă Ășltima questĂŁo, sempre fui fĂŁ do futebol do Junior, acompanhei de perto, principalmente entre 1989 e 1993. E agora estou conhecendo-o melhor. E, claro, admirando ainda mais, porque Ă© uma pessoa simples, incrĂvel, que sabe separar o Ădolo do ser humano.
Livro: “Maestroâ
Autor: Junior e Mauricio Neves de Jesus
ISBN- 978-65-992260-6-9
Preço de venda – R$ 67,00
DimensĂ”es – 21cm x 21cm
Editora: Approach Editora (selo Museu da Pelada) 1ÂȘ edição
NĂșmero de pĂĄginas – 172 pgs
Ă venda na Amazon e Mercado Livre.
Sinopse:Â
HĂĄ 30 anos, em 1991, Junior se tornou o âMaestroâ. Remanescente da geração mais vitoriosa da histĂłria do Flamengo, o craque trocou a lateral pelo meio-campo e, mesmo veterano, comandou o Rubro-Negro na conquista do Campeonato Carioca. Melhor jogador do paĂs, enaltecido por pĂșblico e crĂtica, aos 38 anos ainda teve fĂŽlego para presentear o clube com o pentacampeonato nacional no ano seguinte. O dia a dia destas duas conquistas Ă© retratada neste livro, que traz informaçÔes, fichas tĂ©cnicas e charges da Ă©poca.









