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13 outubro 2021 10:45 am

Escritor carioca lança livro sobre ex-jogador Júnior, do Flamengo, e concede entrevista exclusiva ao ContilNet

POR MAURO TAVERNARD, PARA CONTILNET

Última atualização em 05/10/2021 17:38

O jornalista carioca Marcos Eduardo Neves possuí extensa carreira na produção de livros biográficos, sobretudo de personalidades esportivas. Lembro como se fosse hoje quando li “Nunca Houve um Homem como Heleno”, obra que narra a trajetória do famoso futebolista do Botafogo, Heleno de Freitas, escrita de forma magistral por Marcos.

A admiração foi tão grande que me inspirou a escrever meu primeiro livro, e durante uma viagem ao Rio de Janeiro para coletar informações de Alcino, maior ídolo da história do Clube do Remo, marquei de conhecer o autor num bar do Leblon, e desde lá nos tornamos amigos.

Atualmente ele é Publisher da Approach Editora e está lançando seu novo livro, “Maestro”, sobre a trajetória no Flamengo do ex-jogador Júnior, do qual participou na edição e produção.

Ele também passou por importantes veículos de comunicação do país, como o Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Lance!, Placar, e colaborou com revistas como Trip, Lola e Tam nas Nuvens; e livros como “Anjo ou Demônio – A polêmica trajetória de Renato Gaúcho”, “Alex – A Biografia”, “Vendedor de Sonhos – A vida e a obra de Roberto Medina” e “Nunes – O Artilheiro das Decisões”.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com o jornalista para a ContilNet:

CN: Conte-nos um pouco da sua vida antes de seu primeiro livro, do Renato Gaúcho.

MEN: Fiz Psicologia durante seis períodos, ou três anos. Mas, no fundo, queria mesmo era escrever sobre “comportamento”, tipo relação pais/filhos, casamentos, traição, paixão, essas coisas. Ou seja, fiz Psicologia mas queria ser jornalista! Descobri aos 24 anos que precisava mudar de faculdade. Porém, entrei “tarde” no Jornalismo. Não me davam chance de estagiar porque eu estava “velho”, principalmente diante dos estudantes de 18, 19 ou 20 anos. Acabei fazendo um livro para usar como currículo, cartão de apresentação. Por ter sido gandula e ter me aproximado do Renato Gaúcho na Gávea, escrevi sua biografia (Anjo ou Demônio, editado pela Gryphus em 2002). Acabou que descobri nisso que o que eu queria mesmo, mais do que ser jornalista, era me tornar biógrafo.

CN: O que o motivou a escrever o livro do Renato? Por quê você o escolheu e como foi o processo produtivo desse projeto.

MEN: Motivou o fato de eu precisar fazer algo que me destacasse dos demais estudantes de Jornalismo e pudesse, assim, conseguir estágios com mais facilidade, já que entrei “velho” na faculdade. Também motivou o fato de eu ter me aproximado dele quando fui gandula do Flamengo e termos criado uma amizade, tanto com ele como com sua mãe, sua noiva, seus amigos. E o fato de ele ser um ídolo nacional. Acreditei que seria um projeto interessante do ponto de vista mercadológico, o que me renderia visibilidade como escritor.

Em relação ao processo produtivo, aprendi fazendo. Apurando em jornais da época, revistas, livros, escrevendo, reescrevendo, cortando, fazendo entrevistas com amigos e profissionais do meio, além de familiares, revisando, editando, enfim, aprendi botando a mão na massa. Não tive teoria para me ajudar. Aprendi na marra, só na prática.

CN: Quais livros você escreveu depois? Qual são as dificuldades de ser um escritor no Brasil?

MEN: Tenho 12 livros no total. Biografias do Renato Gaúcho, do Heleno de Freitas, do Alex, do Francisco Horta, do Nunes, do Loco Abreu (junto com Gustavo Rotstein), do Roberto Medina (o criador do Rock in Rio), da construtora Servenco, do desembargador Aloysio Maria Teixeira, de Gilberto Gama (uma espécie de “Forrest Gump” brasileiro), do engenheiro Apolônio Bechara e um livro sobre os 20 principais jogos do Flamengo até 2013.

As maiores dificuldades de ser escritor é que praticamente não dá para ser apenas escritor. Hoje sou editor, na Approach Editora. Faço comentários em rádios, dou palestras, faço matérias para jornais ou revistas, enfim, viver só de livros em um país de poucos leitores é muito complicado. Mas não desisto. Acredito que ainda estou trilhando o meu caminho e um dia chego lá!

CN: Com o livro do Heleno, você ganhou projeção nacional, com a obra virando até filme. Conte-nos a sua trajetória, do início das pesquisas até a estreia do filme, estrelado por Rodrigo Santoro.

MEN: Realmente “Nunca houve um homem como Heleno” me consolidou como biógrafo. Entrevistei mais de 100 pessoas, algumas que faleciam pouco depois, porque era um universo de octogenários, alguns até de 90 e poucos anos. Heleno hoje teria 101 anos, para se ter ideia. Comecei as pesquisas pelo Google, mas muita coisa não batia. Os jornais de época foram mais confiáveis, por virem com o que acontecera no dia anterior. As entrevistas foram cruciais, porque faziam as peças do quebra-cabeça se encaixar. E optei por dar um tempero a mais, reconstituindo uma Copacabana e um Rio de Janeiro que não existem mais, de tão glamourosos que foram, com direito a cassinos e astros de Hollywood por aqui. Heleno era mais do que um jogador, era uma personalidade. Um homem que viveu 39 anos a mil. E que foi muito bem retratado pela atuação do Santoro. Uma pena o roteiro do filme ter ficado meio capenga. Mas ainda sonho que este livro virará minissérie. E que eu possa participar de forma mais efetiva do roteiro.

CN: Você fez vários livros ao longo da carreira, como o do Francisco Horta (Fluminense) e Roberto Medina (Rock In Rio), mas o do Alex foi um sucesso de vendas, principalmente na Turquia. Quantos livros do Alex foram vendidos somando Brasil e Turquia, e como esse livro foi avaliado no exterior.

MEN: Alex, A Biografia vendeu cerca de 20 mil cópias no Brasil e está sendo reeditado mês que vem na Turquia, porque nosso contrato de 5 anos expirou. Querem renovar os direitos porque continua vendendo, isso é bom sinal. Vejo que Alex lá será como o livro do Garrincha aqui. Enquanto nenhum outro jogador for para a Turquia e ganhar o reconhecimento nacional que ele fez jus por merecer, este livro terá mais e mais reimpressões. Já bateu a casa dos 150 mil livros vendidos. É, sem dúvida, meu maior sucesso comercial. E me deu esse “status” de autor mundial, porque onde tem turco – e turco tem em todo lugar, que nem judeu –, o livro é comprado. Volta e meia recebo postagens de alguém com o livro em Berlim, em Nova York, em Sarajevo, enfim, no mundo todo. É muito gratificante ver um “filho” meu ganhar o mundo!

CN: Você já trabalhou em vários veículos de comunicação, mas não continuou no mainstream, digamos assim. Na sua opinião, qual foi o motivo? Há panela de jornalistas no RJ ou preconceito com escritores?

 MEN: Acho que quando nos tornamos biógrafos, deixamos de ser especialistas em um determinado assunto. Isso pesa. Sabemos pouco sobre muita coisa, mas deixamos de saber muito sobre uma coisa só. Então, por exemplo, jornalista que fala sobre futebol na TV domina este assunto, mas boia se tiver que falar sobre Engenharia. Não considero biógrafo quem só faz biografias de cantores. Considero historiador de música. Se só faz livros de futebol, considero historiador de futebol. Biógrafo é tipo ator. Rodrigo Santoro mesmo já fez papel de padre, de galã, de homossexual, enfim, navega em sete mares. Então, não digo que seja preconceito, mas realmente assumo que não sei tanto sobre um único assunto como quem está no dia a dia daquela determinada profissão. Mas estudando conseguiria rapidamente me adaptar. É uma questão do que a vida me levou a ser. Porém, não descarto voltar ao mainstream, se preciso for.

CN: Você possui uma editora. Como funciona esse tipo de trabalho e quais os trabalhos publicados? Como é o mercado de obras sob demanda?

MEN: Na Approach Editora, realizamos o sonho de muitos que acham que fazer livro é coisa pra Paulo Coelho, Zuenir Ventura ou Luis Fernando Veríssimo. Qualquer um pode fazer um livro. Seja escrevendo ou dando depoimentos que um profissional sério saberá organizar em texto. Nós desengavetamos projetos. É uma delícia fazer o “parto” de filhos dos outros. Já fizemos livro sobre Marilene Dabus, primeira mulher a cobrir futebol no Brasil; fizemos um livro de crônicas de futebol de um peladeiro; fizemos um livro de um CEO de uma grande loja que dá dicas para não “quebrarem” na pandemia; temos um romance em ebook, de uma autora octogenária que assina sua primeira obra; temos uma enciclopédia de ídolos dos primórdios do futebol também em e-book e preparamos agora um livro sobre o Maestro Junior, outro que é sobre racismo (escrito pelo ator e cantor Thiago Thomé), um guia para quem quer se aventurar no mundo das corridas e, por fim, uma compilação de crônicas da A Pelada Como Ela É, do meu sócio Sergio Pugliese, que toca o Museu da Pelada.

Quanto ao mercado de livros sob demanda, ou orçamos para criar do zero um livro ou para “resolver” o texto de alguém que não é escritor mas quer eternizar sua história em formato impresso ou digital. A ordem é não deixar morrer a ideia, muito menos colocá-la na gaveta. 

CN: Você possuí um ritual ou cronograma na elaboração de seus livros? Conte como funciona sua rotina produtiva.

MEN: Não tenho rituais. Tudo depende da necessidade. Às vezes entrevistas resolvem. Às vezes preciso fazer pesquisas, para afinar certos pontos, resgatar histórias perdidas. Cronograma só tenho quando sou contratado e tenho até o mês tal para finalizar. Até entrego, mas não é o melhor dos cenários. Porque livro é arte. Se Da Vinci tivesse que entregar sua Monalisa meses antes, não daria alguns retoques que tornaram a obra imortal. Mesma coisa com um livro. Quanto mais tempo, mais lapidação no texto, que fluirá melhor.

Quanto à minha rotina produtiva, só consigo dormir quando estou consciente de que dei o máximo de mim no dia. Seja resolvendo um capítulo ou criando algo que, por eu ser muito exigente, tenho certeza que prenderá o leitor. Um degrau por dia e em meses temos uma escadaria da Igreja da Penha. Não dá para parar, porque aplicativos não captam mente humana e o “santo” só baixa quando ficamos diante do monitor e do teclado.

CN: O seu último livro é o do Júnior, Craque do Flamengo, também seu time do coração. É diferente escrever sobre o Flamengo? Como foi a relação com o Maestro na produção da obra.

MEN: Muitos acham que “Maestro” é livro meu. Não é. O livro é do próprio Junior, feito a quatro mãos com um amigo pesquisador e fã dele, Mauricio Neves de Jesus. Só fui o “parteiro”. Peguei o word e revisei. Organizei. Editei. Mas considero filho, de certa forma. Porque sai pela minha editora, a Approach, com o selo do Pugliese, “Museu da Pelada”.

Mas já escrevi sobre o Flamengo algumas vezes. Fiz um livro sobre 20 jogos do clube e as biografias de Renato, Alex, Nunes, todos que passaram pelo Flamengo. Não acho diferente escrever sobre meu time. Porque separo o pessoal do profissional. Saio do torcedor de arquibancada para ser alguém que retrata um momento, seja ele bom ou ruim. Com imparcialidade, senão perco credibilidade.

Quanto à última questão, sempre fui fã do futebol do Junior, acompanhei de perto, principalmente entre 1989 e 1993. E agora estou conhecendo-o melhor. E, claro, admirando ainda mais, porque é uma pessoa simples, incrível, que sabe separar o ídolo do ser humano.

Livro: “Maestro”

Autor: Junior e Mauricio Neves de Jesus

ISBN- 978-65-992260-6-9

Preço de venda – R$ 67,00

Dimensões – 21cm x 21cm

Editora: Approach Editora (selo Museu da Pelada) 1ª edição

Número de páginas – 172 pgs

À venda na Amazon e Mercado Livre.

Sinopse: 

Há 30 anos, em 1991, Junior se tornou o “Maestro”. Remanescente da geração mais vitoriosa da história do Flamengo, o craque trocou a lateral pelo meio-campo e, mesmo veterano, comandou o Rubro-Negro na conquista do Campeonato Carioca. Melhor jogador do país, enaltecido por público e crítica, aos 38 anos ainda teve fôlego para presentear o clube com o pentacampeonato nacional no ano seguinte. O dia a dia destas duas conquistas é retratada neste livro, que traz informações, fichas técnicas e charges da época.

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