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No AC, professora cede espaço em casa para que ex-aluna da Zona Rural inicie os estudos na Ufac

Por RENATO MENEZES, PARA CONTILNET

Professora é considerada como "madrinha" para a ex-aluna. Foto: Arquivo pessoal

Uma história que começou em meados de 2008, na escola Major João Câncio, no KM-80 da Transacreana, se entrelaçou de uma forma ainda mais intensa em meados de 2021. A professora aposentada Raimunda Bessa, de 55 anos, que conheceu a estudante Katrine Alves, de 19 anos, no dia a dia escolar da Zona Rural, hoje cede espaço à jovem em sua residência para que ela possa realizar o sonho de cursar Letras Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac).

Segundo a professora, que se aposentou aos 50 anos, a afeição pela menina foi à primeira vista. Mesmo retornando à cidade tempos depois, e mesmo com a mudança de Katrine para Porto Velho (RO), Raimunda relatou que nunca perdeu o contato com ela e nem com a família.

“Os alunos de zona rural têm um carinho muito grande pela gente, a comunidade nos recebe com muito amor, eu gostei demais de trabalhar lá. No dia a dia escolar, reparei nela, que sempre ficava quietinha no canto dela, e me encantei no sentido de ajudar. Ela adorava ler, estudar. Toda semana eu levava alguma coisinha pra ela”, falou.

INCENTIVO

A distância entre as duas, que se intensificou ainda mais em decorrência da pandemia de Covid-19, não foi nenhum empecilho frente ao carinho que ambas compartilhavam entre si. Com a chegada do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a chuva de motivações advinda por parte da família de dona Raimunda fez com que Katrine acreditasse que teria potencial de enfrentar a prova, mesmo diante de um ano tão difícil, marcado pelos desdobramentos da crise sanitária, e mesmo pensando em desistir de comparecer ao segundo dia de aplicação.

“Ela foi fazer o (primeiro dia do) Enem, e ficava me falando ‘madrinha, eu acho que não vou passar’, mas aí todo mundo da família deu forças para ela continuar dizendo que ela iria ganhar experiência. Acabou dando certo, e ela foi. Quando saiu as notas, ela me mandou e minha sobrinha conferiu para ver em qual curso ela poderia entrar”, pontuou a professora.

Até que chegou o tão esperado dia: Katrine conseguiu a vaga para cursar Letras – Inglês na Ufac. Foi só alegria. No entanto, como ela ainda estava morando em Porto Velho com a mãe, e como a Universidade de Rondônia não aceita notas do Enem, a professora vestiu o papel de “madrinha”, forma a que a estudante a chama até hoje, e cedeu um espaço na casa para que ela pudesse ficar despreocupada quanto à moradia.

“Eu fiquei muito feliz, é um sentimento muito gratificante. Eu decidi ajudar com muito amor e carinho, como ajudaria outras pessoas. Várias pessoas já passaram aqui pela minha casa, já acolhemos uma moça que hoje é enfermeira […] e em termos desta minha aluna, depende muito do ‘querer’. Quando eu vi que ela queria (continuar com os estudos), então percebi que aquela era a oportunidade de fazer com que aquela jovem vencesse na vida, de ser uma pessoa bem sucedida. Me sinto maravilhada de poder ajudá-la. Para mim, a educação é isto: é o professor estar perto do aluno, descobrir as necessidades do aluno, incentivá-lo a estudar”, complementou.

GRATIDÃO

Mesmo tímida, Katrine também conversou com a reportagem do ContilNet e disse que não consegue mensurar o carinho que sente por dona Raimunda e por ela sempre ter acreditado em seu potencial. “Meu sentimento é de gratidão eterna, sou muito grata por tudo, por toda a ajuda que ela tem me dado”.

A jovem, que já está alocada na casa da professora, contou que o caminho para chegar à aprovação foi bastante árduo, visto às dificuldades com conectividade e com material de estudo, mas que está bastante ansiosa para o início das aulas, previstas para começar na próxima segunda-feira (20).

“Vou começar dia 20, estou um pouco nervosa, mas ansiosa pra começar logo às aulas. Gosto muito de inglês, de ler, e as expectativas estão lá em cima para começar (de modo) presencial”.

Sobre a lição a que tirou em tantos anos de sala de aula, Raimunda finalizou dizendo que “é uma profissão árdua porque é complicado lidar com 40 crianças em sala, com a baixa remuneração salarial, alguns estudantes com dificuldade maior de aprendizagem, mas é muito gratificante ver os alunos que alfabetizamos, virando pessoas bem sucedidas na vida”.

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