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24 novembro 2021 2:45 pm

Narciso Mendes passa a ser o mais novo colunista do ContilNet

Político que virou analista fala da bagunça partidária no país, elogia Gadson Cameli e diz: “sei que eu pouco aprendi”

POR TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

Última atualização em 23/11/2021 12:25

O mais novo colunista da editoria de política do site e Agência de Notícias ContilNet, instalado em Rio Branco (AC), o empresário Narciso Mendes de Assis, de 75 anos, é um desses homens sobre o qual é possível dizer que ele saiu da política mas, ao que tudo indica, a política não saiu de dentro dele. Ex-deputado estadual e ex-deputado federal por duas vezes. inclusive um dos signatários da Constituição Federal de 1988, engenheiro civil de profissão, nos últimos 25 anos, ele passou a se dedicar integralmente à política e ao jornalismo.

Desde que se tornou dono do extinto jornal impresso “O Rio Branco” e posteriormente da TV Rio Branco, retransmissora do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), passou a alternar a atividade política com o jornalismo, participando de programas de TV ou escrevendo artigos, sempre analisando a política local e o contexto nacional. É nesta condição que chega agora ao ContilNet como um de seus colaboradores.

Para a entrevista a seguir, o site destacou outro de seus colaboradores, o repórter Tião Maia, velho conhecido de Narciso Mendes. A seguir, os principais trechos da entrevista:

ContilNet – Narciso, no ContilNet, em seus artigos, você fará análise sobre as conjunturas local e nacioal. Pergunto: você poderia adiantar agora um pouco do que está pensando em relação ao Brasil? Quero também, em separado, uma análise sobre a conjuntura política local. Vamos lá?

Narciso Mendes – Eu, todos os dias, escrevo um artigo sobre política, que é publicado no site do jornal o Rio Branco e que agora também o será no ContilNet. No que escrevo, tenho me preocupado, e só fundamentalmente, a fazer análise da macropolítica, mas confesso que ainda não dei a devida atenção à nossa chamada política tupiniquim – até porque o clima aqui no Acre…

ContilNet – Faça, por favor, primeiro, uma análise nacional e depois a gente desce aqui para o Acre…

Narciso Mendes – Pois bem. A análise que faço no plano nacional é a pior possível. Os percussores da nossa República foram os primeiros – Saldanha Marinho, Ruy Barbosa, Benjamim Constant e tantos outros – a dizerem: esta não era a República dos nossos sonhos.

Narciso Mendes em entrevista ao ContilNet/ Foto: ContilNet

ContilNet – Mas, depois de quase um século e meio, não melhorou?

Narciso Mendes – Não! A partir de lá para cá, a situação tem sido de tamanha indignação e tristeza para os brasileiros de tamanha monta que a nossa República já mereceu sete apelidos: a República dos Marechais, a República do Café-Com-Leite, a República Velha, a República do Getulismo que desaguou numa ditadura, a Nova República prometida pelo saudoso Tancredo Neves e agora estamos vivendo uma República, que está a merecer um apelido que ainda não lhe fora dado, que é a República da esculhambação.

ContilNet – A análise que você faz do Governo Bolsonaro é que o atual presidente contribui para isso ou ele já encontrou a esculhambação da qual você fala?

Narciso Mendes – Não. Quando a gente analisa – aliás, eu gosto muito das religiões, e eu gosto de todas as religiões, indistintamente, e o Brasil foi muito bem, já na primeira Constituição Republicana, em ter transformado o Brasil num país laico, onde fora dada a liberdade de religião a todos! Você há de me perguntar por que eu gosto da religião: porque as religiões combatem o pecado na busca de recuperar o pecador. No Brasil, nós temos feito o contrário: nós deixamos os crimes se estabelecerem e vamos atrás de escolher a dedo os criminosos que devem pagar a conta E isso foi revelado e intensificado pela Operação Lava Jato. O que fez a Operação Lava Jato contra os crimes, contra as organizações criminosas? Consta que nada tenha feito, embora tenha escolhido a dedo os criminosos que pretendia assassinar as suas reputações. E olhe que aqui não me refiro a fulano, sicrano ou beltrano. Estou dizendo que nós, no Brasil, apenas estamos combatendo os efeitos e não as causas que têm degenerado a nossa República e, em última consequência, a nossa própria democracia. Num dos meus artigos, usei uma das frases emblemáticas de Winston Churchill, que foi, na minha opinião, o maior estadista do século XX, o qual disse que a democracia é o pior dos regimes com exceção de todos os demais. Com isso, ele quis dizer que a democracia não seria um regime perfeito e carecia de constantes aperfeiçoamentos e melhorias.

ContilNet – Você acha então que o Brasil não aperfeiçoou a sua democracia? Degenerou sua democracia por quê?

Narciso Mendes – Degenerou porque, primeiro, vamos levar em consideração a democracia americana e o seu regime presidencialista, a democracia inglesa com seu regime monárquico e a Alemanha, com seu regime parlamentarista. Em que esses regimes se assentam? Nas suas estruturas partidárias. Aqui, no Brasil, partidos políticos já se revelaram apenas siglas para acomodar candidaturas. Se você me faz uma pergunta, individualizando o presidente Bolsonaro, eu jamais farei acusação isolada a ele como responsável pelo que está acontecendo no país. Este processo de degeneração apenas está sendo continuado e não é um legado do atual presidente.

Narciso Mendes/ Foto: ContilNet

ContilNet – Como você analisa a liderança do ex-presidente Lula em todos os cenários das pesquisas da corrida presidencial do ano que vem?

Narciso Mendes – Eu sou contrário à esta polarização Lula versus Bolsonaro. Ambos se retroalimentam e quem os alimenta? A chamada terceira via, apelidada terceira via. Até porque a entrada do ex-juiz Moro na corrida presidencial não muda absolutamente nada. A terceira via só terá condições de levar o seu candidato à segunda via se este centro político – como eles assim se autodenominam encontrarem o seu próprio centro. Como é que eu vou acreditar e apostar num centro político que não tem centro? Que tem nove candidaturas, todas se dizendo de centro. Uma circunferência só tem um centro. O nosso centro político tem nove centros. Então, o que Moro, Ciro Gomes, Rodrigo Pacheco, João Dória, Eduardo Leite e outros estão fazendo é fortalecendo e levando, necessariamente, a disputa em segundo turno entre Jair Bolsonaro e Lula. Nas eleições de 1989, eu estava no Congresso como deputado e quem disputavam a presidência da República eram, entre outros, um Ulysses Guimarães, Mario Covas, Leonel Brizola, Aureliano Chaves, Guilherfe Affif Domingos… O que aconteceu? Ao se dividirem, permitiram que chegasse ao segundo turno daquelas eleições o inesperado, o Collor e Lula. E de lá para cá, ao invés de nós nos estruturarmos em relação aos nossos partidos políticos, o que aconteceu foi a degeneração partidária. Hoje, nós temos no Congresso Nacional 50 partidos legalmente habilitados à concorrer à presidência da República e temos deputados e senadores de 28 partidos políticos distintos. A que isto leva-nos? A um presidente da República – é com Bolsonaro, foi com Temer, com Dilma, com Lula, com FHC, com Itamar Franco, com Sarney – ao chamado presidencialismo de coalizão Este, não sendo suficiente, pode ser chamado de presidencialismo de cooptação. Presentemente, estamos assistindo – e aqui eu não quero jogar pedras no atual presidente, o presidencialismo de compra de votos de parlamentares. Se antes nós condenávamos a compra de votos dos candidatos para com os seus eleitores, agora está claramente demonstrado a compra de votos daqueles que nós elegemos para nos representar.

ContilNet – Ok. Vamos para uma análise estadual: como é que você ver a situação do governador Gladson Cameli, seu Governo e a perspectiva de sua reeleição?

Narciso Mendes – Ninguém, absolutamente ninguém, espere de mim oposição ao governador Gladson Cameli. É pela gratidão. E a gratidão é a síntese de todas as virtudes. O homem que não tem gratidão não tem virtudes. Quando eu olho para o Governo e vejo o governador Gladson Cameli, sou obrigado a levar em consideração a gratidão que eu tinha com o seu tio, Orleir Cameli, e que mais ainda eu tenho com o pai dele, Eládio. Até neste particular, eu contrario uma as belas frases de Santo Agostinho, que diz prefiro as críticas que corrigem do que às bajulações que me corrompem. Mas quero dizer apenas uma coisa: o governador Gladson Cameli, na mais recente aguda e mortífera crise que nós passamos, que foi a pandemia do coronavirus, o seu comportamento foi exemplar e reconhecido pela sociedade acreana. Inclusive, às vezes, eu fico a me perguntar: por que o Gladson foi o único dos 27 governadores do país que, ao mesmo tempo em que tomava café com o João Dória (governador de São Paulo), jantava com o presidente Bolsonaro. Nenhum outro governador conseguiu esta proeza.

ContilNet – Isso é habilidade ou o que, na sua avaliação?

Narciso Mendes – Vamos aqui separar dois valores: simpatia e empatia. Simpatia é aquilo que você tem por sua namorada, por um amigo, por um colega. E empatia – quando você exterioriza isto para todos. No quesito empatia, o Gladson Cameli tem feito disso uma de suas principais características.

ContilNet – Concordo contigo, mas, ao que parece, não é isso o que pensam alguns dos dirigentes da coligação que o levou ao poder. Pelo menos é o que se depreende do comportamento do senador Sérgio Petecão, que se declarou pré-candidato ao Governo e que deve disputar eleição com ele, não é isso?

Narciso Mendes – Eu me elegi em 1982 deputado estadual, pelo PDS. O MDB, na época, tinha a maioria. Nós, das oposições, éramos 8 deputados estaduais de oposição, dos 24 deputados estaduais. Numa determinada, ainda sem ter tomado posse, o governador eleito Nabor Júnior, convocou nós oito da oposição para uma reunião. Nós não sabíamos de antemão qual o objeto daquela reunião. E naquele jeito maneiro, pacífico e habilidoso, Nabor Júnior nos fez uma pergunta: vocês acham que nós, com 16 deputados, temos o direito de escolher aquele que será o presidente da Assembleia Legislativa? De pronto, respondemos que sim. Isso nos mostrou que o então governador não era adepto daquela tese de que somos maioria vamos manar. E ele disse: então eu gostaria que vocês indicassem o nome para ser o primeiro secretário da mesa diretora da Assembleia. Aí veio o nosso espanto porque eles tinham número para indicar o presidente e todos os demais cargos da mesa diretora. Indicamos o saudoso Félix Bestene como nosso primeiro-secretário. Gestos desta natureza nós hoje não mais presenciamos. Nas eleições das mesas em nossas diretoras das nossas casas parlamentares é que as brigas se dão até para escolher os seus suplentes e não apenas em relação aos titulares. É este estado de clima, de pacificação que não vemos hoje no nosso Estado e no nosso país. Daí a existência de 11 candidatos, fazendo a polarização entre Lula e Bolsonaro, cada um deles se apresentado como de centro.

ContilNet – Certo. E aqui, como você analisa essa candidatura do senador Petecão contra seu ex-aliado Gladson Cameli?

Narciso Mendes – Olha, na análise política, eu já não gosto de nominar pessoas, de fulanizar o debate. Mas penso que isso decorre da nossa anarquia partidária. O senador Petecão, por quem tenho também consideração e respeito, como tenho também pela senadora Mailza e como tenho também demasiadamente pelo senador Márcio Bittar, cada um pertencente a um partido diferente. Aquela junção que foi possível se formar nas eleições de 2018, não está sendo possível se formar agora, sobretudo com o fim das coligações partidárias. Esta fragmentação de candidaturas deriva das fragmentações partidárias, o que, no futuro, se revelará num grande bem para o nosso sistema partidário. Na realidade, as coligações não foram completamente extintas porque surgiu a chamada federação de partidos, mas isto não poderá se dar de forma diferente, de um jeito aqui no Acre e no outro em Rondônia ou no Amazonas. A federação partidária tem caráter nacional. Se o PP se coligar a nível nacional com o PSDB, a coligação tem que se dar também aqui no Acre. E, para mim, haverá uma Federação entre PTB, PP e PL. E em indos e somar a cláusula de barreira que, nas próximas eleições, exigirá 2% dos votos para permitir eleições de seus candidatos em 2026, 2,5% e em 2030, 3%, a Federação Partidária e Cláusula de Barreira farão um grande bem para este país porque não mais do que apenas sete Partidos se farão presente no nosso Congresso Nacional.

ContilNet – Vamos falar de ti agora. Como é que você está? Está aposentado, ainda produzindo muito?

Narciso Mendes – Não. Estou vivendo como alguém que saiu da política partidária. Já fui o maior na antipetista do Acre. Alguém duvida disto? Mas penso que, se sai da política partidária, eu não posso ser antipetista e nem a favor de nenhum Partido. Passeia fazer avaliação dos resultados. O que tenho feito: sou portador de tripla comorbidade. Já fui operado de um câncer, de um infarto e tenho 75 anos de díade. O que foi que fiz frente à pandemia? Passei, nos primeiros dias da pandemia, 120 dias sem por os pés na calçada da minha casa, esperando uma resposta da ciência. Penso que, numa pandemia, político tem que tomar decisões, mas tais decisões têm qu ser orientadas pela ciência. Aí começou a luta dos que queriam se vacinar – e diga-se de passagem: o Brasil, por tradição, é aderente à vacina e um país que mais atenção dar às vacinas. Então, antes da vacina, temia pega o vírus, mas me protegi. Já tomei as três doses. A Covid-19 não foi a primeira nem será a última pandemia do mundo. Já tivemos a da Febre Amarela, a Bubônica, a Gripe Espanhola. E quem as detiveram foi a ciência. E o que tenho feito neste período? Lido. Você não sabe o prazer que isso tem me dado e o quanto eu aprendi relendo livros.

ContilNet – Você está lendo os contemporâneos ou os clássicos?

Narciso Mendes – Primeiro, tenho dado muito importância àqueles filósofos que viveram antes de Cristo. Sócrates, Aristóteles, Platão e uma série de outros. E dei muita atenção àqueles que advieram da Revolução Francesa, que foi, para mim, o berço do ensinamento político do mundo. A leitura tem sido o prazer e o alimento do meu dia a dia. Certa vez, Sócrates, que foi o maior filósofo de todos os tempos e professor inclusive de Platão, quando perguntaram para ele, o que ele sabia, a resposta foi aquela conhecida: sei que nada sei. Obviamente, que era modéstia dele. Hoje, me encontro numa situação em que, afirmo: sei que pouco aprendi…aos 75 anos.

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