Em carta, indĂ­genas pedem ao presidente do STF que retome julgamento do marco temporal

Por CIMI 19/12/2021 Ă s 09:18

Na tarde da Ășltima quarta-feira (15), lideranças indĂ­genas protocolaram um documento junto ao gabinete do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Luiz Fux, solicitando a retomada e conclusĂŁo do julgamento do Recurso ExtraordinĂĄrio (RE) 1.017.365, que pode definir o futuro das demarcaçÔes das terras indĂ­genas.

O documento Ă© assinado por lideranças dos povos Xokleng, Kaingang, Tukano, Kalapalo, Tupi-Guarani, Kanela do Araguaia, Terena e Macuxi. Enquanto o documento era protocolado, cerca de 60 indĂ­genas manifestavam-se contra o marco temporal do lado de fora da Suprema Corte. Uma das faixas reforçava o pedido feito ao presidente do STF por meio do documento, com os dizeres “Pauta, Fux”.

Parte dos indígenas está na capital do país desde o dia 11 de novembro, data que deu início ao acampamento Levante Pela Democracia – uma extensão do movimento Levante Pela Terra. No documento, as lideranças lembram que em junho deste ano o relator do RE, o ministro Edson Fachin, alertou sobre a importñncia de a Corte priorizar o julgamento.

As lideranças ressaltam, na carta, os ataques cometidos pelo atual governo e aliados contra os povos originårios e seus direitos constitucionais, e pedem ao presidente do STF que retome o julgamento para que seus direitos sejam protegidos.

Os povos indígenas “sofrem cotidianamente os mais vis ataques decorrentes da omissão do Estado em demarcar nossas terras e do estímulo da invasão de nossos territórios pelo Executivo Federal”, destaca o documento protocolado no STF. “É permanente a tentativa de apropriação dos nossos corpos, da terra onde vivemos e dos recursos naturais que protegemos, a exemplo dos ataques diretos de garimpeiros, madeireiros e fazendeiros”.

O documento tambĂ©m recorda que o prĂłprio presidente da Corte, Luiz Fux, havia se comprometido a dar “a prioridade que o tema merece”, durante as X sessĂ”es do julgamento que transcorreram entre os meses de junho e setembro, quando o processo foi suspenso por um pedido de vistas do ministro Alexandre de Moraes.

“Compreendemos que a pacificação do entendimento desta Corte em relação Ă  posse das terras ocupadas tradicionalmente por nĂłs, hĂĄ sĂ©culos, em consonĂąncia com a vontade firmada pelos constituintes em 1987/88, pode contribuir com a redução das violĂȘncias que vitimam nossas crianças e nossa cultura”, afirmam as lideranças.

“O marco temporal aniquila os direitos indĂ­genas. Esperamos que o Fux dĂȘ o sinal verde e os povos indĂ­genas possam retornar aos seus territĂłrios”, afirma Luis Salvador Kaingang, cacique da Terra IndĂ­gena (TI) Rio dos Índios, no Rio Grande do Sul.

“O marco temporal aniquila os direitos indĂ­genas. Esperamos que o Fux dĂȘ o sinal verde e os povos indĂ­genas possam retornar aos seus territĂłrios”

Julgamento interrompido 

Iniciado no final de agosto, o julgamento que definirĂĄ o futuro das demarcaçÔes de terras indĂ­genas e deverĂĄ trazer a posição da Suprema Corte sobre a tese do chamado “marco temporal” foi interrompido no dia 15 de setembro, empatado em um a um, apĂłs pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes.

Antes disso, o relator do caso, ministro Edson Fachin, havia apresentado seu voto, posicionando-se em defesa dos direitos constitucionais indígenas, reafirmando o caráter originário do direito dos povos à demarcação de suas terras de ocupação tradicional e rechaçando a tese ruralista do “marco temporal”.

O ministro Kássio Nunes Marques, por outro lado, apresentou um voto contrário aos direitos dos povos indígenas, favorável à tese do “marco temporal” e alinhado com a posição defendida por latifundiários, mineradoras e outros setores econîmicos interessados na apropriação dos territórios indígenas.

No dia 11 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes devolveu os autos para a retomada do julgamento, que agora passa a depender novamente da disposição do presidente da Corte, Luiz Fux, de colocå-lo em pauta.

Quando for reiniciado, o julgamento deve retornar com o voto de Moraes, que serĂĄ seguido pelos outros oito ministros e ministras, do mais novo na Corte ao decano, Gilmar Mendes. O Ășltimo a votar Ă© Luiz Fux.

Em setembro, no início do julgamento, o presidente do STF garantiu que considerada o tema “muito importante” e que ele teria uma decisão da Corte em breve.

No dia 15 de dezembro, lideranças indígenas protocolaram documento no STF pedindo ao presidente da Corte, Luiz Fux, que retome o julgamento do marco temporal. Foto: Marina Oliveira/Cimi

Lideranças indígenas protocolaram documento no STF pedindo ao presidente da Corte, Luiz Fux, que retome o julgamento do marco temporal. Foto: Marina Oliveira/Cimi

Outras cartas ao STF

Desde a suspensĂŁo do julgamento, povos indĂ­genas de todo o paĂ­s tĂȘm reivindicado que o julgamento seja retomado pela Suprema Corte. No dia 17 de novembro, lideranças do povo Xokleng, cujo territĂłrio estĂĄ no centro da disputa que Ă© discutida no mĂ©rito do processo de repercussĂŁo geral, tambĂ©m entregaram ao gabinete do presidente do STF, o ministro Luiz Fux, uma carta com o pedido de retomada do julgamento do RE.

“O processo teve o julgamento suspenso por pedido de vista. Agora, diante da devolução do processo para julgamento pelo Ministro Vistor, Alexandre de Moraes, pedimos encarecidamente que possa colocar o caso para continuidade do julgamento”, diz um trecho da carta.

No dia 27 de outubro, lideranças dos povos Macuxi e Wapichana, da Terra IndĂ­gena (TI) Raposa Serra do Sol, em Roraima (RR), tambĂ©m compareceram ao STF para protocolar um documento com a mesma reivindicação ao ministro Luiz Fux. Na ocasiĂŁo, os indĂ­genas foram recebidos pelo secretĂĄrio-geral da presidĂȘncia do STF, Pedro Felipe.

Essa iniciativa surgiu apĂłs a V Assembleia da TI Raposa Serra do Sol, evento realizado entre os dias 11 e 16 de outubro deste ano, na regiĂŁo das Serras (RR). O documento protocolado no STF foi assinado pelos povos Macuxi, Wapichana, Taurepang, IngaricĂł e Patamona.

“Acompanhamos, atentamente, o julgamento do Recurso ExtraordinĂĄrio com repercussĂŁo geral sobre nossos direitos territoriais, consideramos o ‘julgamento do sĂ©culo’. TambĂ©m sabemos que esse processo vai afetar todos os povos indĂ­genas do Brasil, especialmente nossos parentes que nĂŁo dispĂ”em de terras demarcadas e, caso seja aplicado entendimento contrĂĄrio aos direitos constitucionais, podem perder o direito de demarcação de suas terras”, afirmaram os povos no pedido.

Confira a Ă­ntegra da carta protocolada no STF:

 

Excelentíssimo Senhor Presidente do Supremo Tribunal Federal – STF, Ministro Luiz Fux

RE 1.017.365 – (Tema 1.031)

NĂłs, do povo indĂ­gena Kaingang, da Terra IndĂ­gena Nonoai, no Rio Grande do Sul, irmanados com o oovo Xokleng, de Santa Catarina, da TI Ibirama-La Klaño, estamos em BrasĂ­lia/DF desde o dia 01/11/2021, para clamar Ă  Vossa ExcelĂȘncia a inclusĂŁo do Recurso ExtraordinĂĄrio nÂș 1017365 (Tema 1031) na pauta de julgamento desta Corte com urgĂȘncia.

A realidade de nossa comunidade nĂŁo Ă© diferente do quanto Ă© vivenciado pelos demais povos indĂ­genas em nosso paĂ­s que sofrem, cotidianamente, os mais vis ataques decorrentes da omissĂŁo do Estado em demarcar nossas terras e do estĂ­mulo da invasĂŁo de nossos territĂłrios pelo Executivo Federal.

É permanente a tentativa de apropriação dos nossos corpos, da terra onde vivemos e dos recursos naturais que protegemos, a exemplo dos ataques diretos de garimpeiros, madeireiros e fazendeiros. Não bastasse isso, tem sido recorrente a apresentação de propostas legislativas e atos do Executivo que visam flexibilizar os nossos direitos.

Perdemos, pela ausĂȘncia de polĂ­ticas pĂșblicas de saĂșde em nossos territĂłrios, 1.241 indĂ­genas vĂ­timas da Covid-19. Para o governo federal a prioridade na vacinação seria dada tĂŁo somente aos indĂ­genas de terras indĂ­genas jĂĄ homologadas, caso nĂŁo fossem as decisĂ”es emanadas por essa Corte, na ADPF 709.

Da mesma forma tem atuado a Funai e outros ĂłrgĂŁos pĂșblicos, ao nĂŁo nos consultar sobre temas afetos Ă s nossas vidas, com a justificativa de que nĂŁo estamos em terras homologadas. Muitos de nĂłs estĂŁo abandonados Ă  prĂłpria sorte, uma vez que o Estado brasileiro deixa de cumprir com a sua missĂŁo constitucional.

O ĂłrgĂŁo indigenista tem lançado mĂŁo do Parecer nÂș 0763/2020/CONJUR-MJSP/CGU/AGU para suspender de forma indiscriminada os procedimentos demarcatĂłrios, bem como se abster de cumprir decisĂ”es judiciais referente Ă  demarcação de terras indĂ­genas no Brasil.

Por essas e tantas outras razĂ”es, compreendemos que a pacificação do entendimento desta Corte em relação Ă  posse das terras ocupadas tradicionalmente por nĂłs, hĂĄ sĂ©culos, em consonĂąncia com a vontade firmada pelos Constituintes em 1987/88, pode vir a contribuir com a redução das violĂȘncias que vitimam nossas crianças e nossa cultura.

Importante lembrarmos tambĂ©m que no dia 14 de junho, ciente da relevĂąncia da matĂ©ria e dos novos fatos que demonstram a urgĂȘncia e a necessidade de um julgamento definitivo do RE-RG 1.017.365/SC, o relator, ministro Edson Fachin, indicou junto a esta PresidĂȘncia preferĂȘncia no julgamento.

NĂŁo nos esquecemos das palavras proferidas por Vossa ExcelĂȘncia, quando se comprometeu em dar a prioridade que o tema merece. Acompanhamos atentamente da Praça dos 3 Poderes o julgamento que foi iniciado em agosto deste ano, e, suspenso, apĂłs pedido de vista do Min. Alexandre de Moraes.

Seguimos acompanhando este Recurso, e soubemos que desde o dia 11/10/2021 o Min. Alexandre de Moraes devolveu os autos para a retomada de julgamento, estando o processo aguardando apenas a deliberação de Vossa ExcelĂȘncia para inclusĂŁo na pauta desta Corte.

Neste sentido, urge a retomada e a conclusĂŁo do julgamento do Recurso ExtraordinĂĄrio nÂș 1.017.365 (Tema 1.031), o qual pedimos atenção e os prĂ©stimos de Vossa ExcelĂȘncia.

BrasĂ­lia-DF, 15 de dezembro de 2021

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