‘Como seria a vida da minha famĂ­lia?’: ao ContilNet, diretor do Deracre revela detalhes de sequestro

Por TIÃO MAIA, PARA CONTILNET 13/01/2022 às 11:19

Retornando Ă s atividades apĂłs ter sido vĂ­tima de sequestro, com mais seis pessoas, na noite da Ășltima segunda-feira (11) para que os sequestradores pudessem roubar trĂȘs caminhonetes avaliadas em quase meio milhĂŁo de reais, o diretor-presidente do Departamento de Estradas e Rodagens, Infraestrutura HidroviĂĄria e AĂ©rea do Acre (Deracre). PetrĂŽnio Antunes, falou, com exclusividade ao ContilNet, sobre o que ocorreu naquela noite. A seguir, os principais trechos da entrevista:

ContilNet – O senhor está refeito do susto?

PetrĂŽnio Antunes – Passou o susto, graças a Deus. Primeiro, quero agradecer a Deus por nĂŁo ter acontecido algo de mais grave com ninguĂ©m.

Apesar do susto, nĂŁo houve violĂȘncia fĂ­sica. O que aconteceu Ă© que eu havia chegado de viagem e fiquei atĂ© mais tarde para por as coisas em dias. Normalmente, fico ate mais tarde no gabinete, atĂ© Ă s 20 ou 21 horas, despachando s coisas internas. Durante o dia o atendimento Ă© praticamente aos funcionĂĄrios, as diretorias e aos fornecedores e Ă s empresas que trabalham para o Deracre. A noite, eu acabo despachando as coisas internas da presidĂȘncia, respondendo ofĂ­cios, e-mails e outros documentos. Naquela noite, eu cumpria essa rotina, apĂłs ter chegado de viagem, fiquei atĂ© mais tarde despachando com minha assessoria mais prĂłxima e teve a visita de um fornecedor, o empresĂĄrio Francisco SalomĂŁo. Ele me ligou, me perguntou se eu estava aqui e veio me visitar. Ele estava comigo e acabou sendo sequestrado tambĂ©m. No fundo, foi uma fatalidade eu estar aqui naquele momento. AliĂĄs, atĂ© um dos bandidos falou isso.

ContilNet – Eram quantos bandidos?

Petrînio Antunes – A gente não sabe. Eu, particularmente, verifiquei seis bandidos. Quatro que entraram aqui e mais dois que ficaram coma gente lá no cativeiro, no mato.

ContilNet – O cativeiro foi onde ? O senhor conhece o lugar?

Petrînio Antunes – É um local distante uns sete quilîmetros mais ou menos. É ali depois do ramal da Cinco Mil, no rumo da Estrada de Porto Acre, depois do Mutum.

ContilNet – VocĂȘs ficaram numa casa ou num ambiente aberto?

Petrînio Antunes – Ficamos num capinzal, numa área de mato.

ContilNet – Eles mantinham armas apontadas para vocĂȘs? Eles os ameaçaram de morte?

PetrĂŽnio Antunes – NĂŁo, hora nenhuma fomos ameaçados, nem ameaçaram agressĂŁo fĂ­sica. Simplesmente, falaram que eram – entre aspas – profissionais e que queriam apenas as caminhonetes.

'Como seria a vida da minha famĂ­lia?': ao ContilNet, diretor do Deracre revela detalhes de sequestro

Diretor do Deracre e servidores da repartição foram sequestrados. Foto: ContilNet

ContilNet – AtĂ© agora, alguma pista das caminhonetes?

PetrĂŽnio Antunes – Vou ser bem sincero. Depois que fiz o BO (Boletim de OcorrĂȘncia), nĂŁo fui atrĂĄs para saber o resultado. Ontem foi um dia de recuperação do susto e agora estou aqui de volta ao Deracre para tentar retomar a rotina e estou deixando essa coisa da investigação com a polĂ­cia e vamos esperar por alguma notĂ­cia. AtĂ© agora estou sem notĂ­cia dos veĂ­culos.

ContilNet – O senhor acha que as pessoas que invadiram seu gabinete tinham conhecimento de sua rotina de trabalho? Elas sabiam que o senhor ficava atĂ© mais tarde aqui?

PetrĂŽnio Antunes – NĂŁo! Um deles atĂ© falou sobre isso. Disse que eu estava na hora errada, no lugar errado. Disse: NĂłs monitoramos o Deracre vĂĄrios dias para saber a hora em que a gente poderia entrar com o menor nĂșmero de pessoas possĂ­veis aqui.

ContilNet – O senhor teria condiçÔes de reconhecer essas pessoas, se as visse?

Petrînio Antunes – De forma alguma. Eles estavam todos e totalmente encapuzados, com máscaras, luvas e tudo coberto de tal forma que não daria para se perceber qualquer particularidade. Não tinham nenhuma característica física visível.

ContilNet – Eles eram pessoas educadas, de fino trato ou bandidos tradicionais, aqueles que falam gĂ­ria, com dificuldades com o vocabulĂĄrio… Como eram eles em relação Ă  isso?

PetrĂŽnio Antunes – Eles eram normais, me pareceu. NĂŁo eram totalmente de gĂ­rias, mas falavam, eram meio termos. Para um grupo de ladrĂ”es, me pareceram atĂ© educados.

ContilNet – Eram acreanos? Deu para perceber isso?

Petrînio Antunes – Havia acreanos, sim, no grupo. Deu para perceber pelo sotaque. Não posso afirmar com segurança, mas não percebi sotaques diferentes do nosso não.

'Como seria a vida da minha famĂ­lia?': ao ContilNet, diretor do Deracre revela detalhes de sequestro

Petronio e Gladson devem anunciar mais investimentos para 2022. Foto: Ascom/Deracre

ContilNet – Aqui no Deracre havia atĂ© uma tesouraria. As mediçÔes e alguns contratos eram pagos aqui mesmo, com cheque ou dinheiro. Isso acabou?

PetrĂŽnio Antunes – Acabou hĂĄ muitos anos esta modalidade de pagamento. Hoje, o governo nĂŁo trabalha mas nem com cheque, com o sistema online diretamente para o banco. O fato Ă© que os ladrĂ”es nĂŁo vieram procurar dinheiro. Eles falaram que queriam simplesmente os veĂ­culos e os veĂ­culos oficiais. Para se ter uma ideia do quanto eles vieram planejados, temos por primeiro esta fala de um dos ladrĂ”es, que, segundo ele, ‘nĂŁo era para eu estar aqui, naquela hora’ – disseram que haviam monitorado o Deracre por alguns dias e sabiam a hora em que sĂł deveria estar os vigias; segundo, o empresĂĄrio Francisco SalomĂŁo estava com seu carro estacionado aqui no pĂĄtio, um carro de luxo, um corola, e ele nĂŁo quiseram o veiculo do empresĂĄrio. Eles disseram que queriam as caminhonetes identificadas. Creio eu se fosse caminhonetes nĂŁo identificadas, eles tambĂ©m nĂŁo triam levado. Haviam carros assim ali no estacionamento.

ContilNet – Por que essa predileção por carros identificados? Por serem mais fáceis para atravessar a fronteira, por se tratarem de carros oficiais, com a logomarca do governo?

Petrînio Antunes – Isso eu não sei. Só sei que eles disseram: a gente quer essas caminhonetes. Inclusive foram em cima do que queriam. Eles monitoram muito porque eles sabiam quais os carros que queriam e inclusive sabiam onde achar as chaves.

ContilNet – Quando o senhor estava lá, sequestrado, o senhor, que tem família, inclusive um filho pequeno, o que passou pela sua cabeça?

PetrĂŽnio Antunes – Passa tudo pela cabeça da gente… Pensei no que minha mulher poderia estar passando e como seria a vida da minha famĂ­lia se acontecesse algo de mais grave.

ContilNet – O senhor conseguiu avisar alguĂ©m que estava sequestrado?

Petrînio Antunes – Não, não consegui. Eles não deixaram. Eu apenas rezei bastante, me apeguei a Deus e pedi que a gente saísse ileso daquela situação.

ContilNet – Que horas vocĂȘs saĂ­ram e como saĂ­ram lĂĄ do local onde estavam sequestrados?

PetrĂŽnio Antunes – Eu nĂŁo tinha a menor ideia do horĂĄrio, a gente nĂŁo tinha acesso a relĂłgios. SĂł depois Ă© que eles devolveram alguns pertences, quando passamos a ter acesso a hora. Era algo em torno das duas horas da manhĂŁ em que a gente foi liberado.

'Como seria a vida da minha famĂ­lia?': ao ContilNet, diretor do Deracre revela detalhes de sequestro

Alan Rick e Diretor-presidente do Deracre realizam visita técnica à obra. Foto: Ascom

ContilNet – Como foi essa liberação?

PetrĂŽnio Antunes – Eles simplesmente liberam assim: os dois, que estavam lĂĄ de guarda, no mato, receberam uma ligação e falaram para a gente o seguinte: vocĂȘs ficam sentados aĂ­ uns dez minutos e aĂ­ vocĂȘs podem ir embora.

A gente e ouviu que um carro foi pegá-los. A gente não conseguiu os carros porque estavam ainda dentro do mato, no escuro, sentados – já que eles não deixavam a gente levantar.

ContilNet – Para isso, eles apontavam armas para vocĂȘs?

Petrînio Antunes – Lá no mato, não. Eles só apontaram armas para nós no momento em que entraram aqui, no gabinete.

Eles entraram, apontando armas e nos mandaram deitar no chão. Depois, deixaram as armas à mostra, na cinta, mas não mais sacaram, sem apontar arma para a cabeça.

ContilNet – AlĂ©m do senhor e do empresĂĄrio Francisco SalomĂŁo, quem mais foi sequestrado?

PetrĂŽnio Antunes – Eu, a chefe de gabinete, os trĂȘs vigias, meu motorista e o empresĂĄrio Francisco SalomĂŁo.

ContilNet – Quando entrei aqui para esta entrevista com o senhor, percebi que nada mudou em relação á segurança mesmo após ao assalto. Não me pararam, nem exigiram documentos. O senhor vai manter isso assim mesmo depois do assalto?

PetrĂŽnio Antunes – Olha, aqui Ă© um ĂłrgĂŁo pĂșblico e assim deve ser franqueado ao pĂșblico. A gente estĂĄ fazendo algumas reformas.

Acabamos de reformar o påtio e eu jå tinha a intenção de mudar a rede elétrica, fazendo uma iluminação melhor. Era um projeto que vinha sendo feito devagar mas agora vou acelerar. Acho que melhorar a iluminação do påtio, uma nova guarita, enfim, oferecer mais segurança.

ContilNet – os carros eram da Seinfra, a Secretaria de Infraestrutura, que fica aqui ao lado. Por que eles então atacaram aqui, no Deracre?

PetrĂŽnio Antunes – Pelo o que falaram, nĂŁo era para a gente estar aqui naquele horĂĄrio. Como eu jĂĄ estava de saĂ­da, meu motorista veio andando atĂ© o gabinete.

Os assaltantes seguiram ele achando que era o vigia e iam rendĂȘ-lo. Na hora em que ele chegou, a gente ainda estava aqui e os bandidos tambĂ©m levaram um suto, creio eu, porque elas nĂŁo esperavam encontrar tanta gente. Eles nĂŁo contavam com isso.

ContilNet – VocĂȘs foram levados para o matagal como?

Petrînio Antunes – Nos carros que eles roubaram.

ContilNet – As chaves estavam lá na Seinfra, não era?

Petrînio Antunes – Sim, eles estavam bem informados sobre isso. Sabiam inclusive onde eram a sala ou levaram o vigia da Seinfra para informá-las, eu não sei.

ContilNet – O senhor, como está se sentindo agora?

PetrĂŽnio Antunes – Eu me apaguei muito a Deus e agradeço por ninguĂ©m ter se ferido e por nĂŁo ter havido agressĂŁo fĂ­sica. Mas Ă© claro que o psicolĂłgico fica abalado. Mas espero voltar ao normal dentro do menor espaço de tempo possĂ­vel.

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