Trinta e quatro anos depois de sua morte, em dezembro de 1988, em Xapuri, interior do Acre, a voz do sindicalista Chico Mendes vai ecoar pelo Brasil, com a peça âVozes da Florestaâ, dirigida e interpretada pela atriz LucĂ©lia Santos. A atriz brasileira mais conhecida no mundo anunciou que, entre seus projetos para 2022, que inclui a possibilidade de uma candidatura sua Ă CĂąmara Federal pelo PT, partido no qual milita praticamente desde sua fundação, estĂĄ a apresentação da peça em todo o paĂs, com a voz de Chico Mendes, gravada por ela durante uma longa entrevista em maio de 1988, em Xapuri, contando sua prĂłpria histĂłria e do movimento de seringueiros do Alto Acre no enfrentamento ao chamado projeto de bovinização da AmazĂŽnia, que visava substituir a floresta pelo capim e o homem AmazĂŽnia, pelo gado.
O anĂșncio da apresentação da peça nos palcos do paĂs foi feito pela prĂłpria atriz numa longa entrevista concedida Ă Fundação Perseu Abramo, a cĂąmara de cultura e memĂłria do Partido dos Trabalhadores na qual a artista, alĂ©m de anuncia a possibilidade de disputar um mandato na CĂąmara dos Deputados, revela que estĂĄ preocupada com o presente no paĂs, principalmente depois do governo Bolsonaro, e vislumbra cenĂĄrios de tempos duros e muitos desafios para o povo brasileiro. Ao longo dos anos, LucĂ©lia acompanhou comitivas presidenciais a outros paĂses e acumulou fĂŁs notĂĄveis, como Fidel Castro e Nelson Rodrigues, o dramaturgo brasileiro mais conhecido. No ano em que completa 50 anos de carreira, a atriz parece dividida entre celebrar seu trabalho como artista e concorrer a uma vaga no parlamento.

Lucélia Santos e Chico Mendes/ Reprodução
Mas, a parte mais visĂvel de sua militĂąncia polĂtica, deu-se no Acre, quando ela travou contato com Chico Mendes. EntĂŁo filiada no PV, ela e outros militantes verdes buscavam atrair Chico Mendes para ser candidato a governador pela sigla, nas eleiçÔes de 1990. LucĂ©lia Santos esteve pessoalmente em Xapuri no ano em que o sindicalista seria assassinado para lhe fazer o convite. Chico Mendes ficou de pensar na ideia, mas nĂŁo ouve tempo. Faltando menos de dez dias para o ano de 1988 terminar, ele foi morto com um tiro no peito, no quintal de casa.
Mas, antes, alĂ©m do legado de sua luta, deixou a entrevista gravada com LucĂ©lia, durante visita da atriz em Xapuri. Ela tem uma sĂ©rie de trabalhos e comemoraçÔes engatilhados para 2022, alĂ©m da peça âVozes da Florestaâ, na qual conta a histĂłria do seringueiro e ativista. A voz de Chico Mendes, captada hĂĄ 34 anos, Ă© o enredo principal da peça, a qual, aliĂĄs, jĂĄ foi apresentada em Xapuri por ocasiĂŁo da Semana Chico Mendes, em 2021.
âĂ inimaginĂĄvel. Mas Ă© o que estĂĄ acontecendo desde que esse sujeito assumiu: um desmonteâ, disse a atriz sobre o Governo Bolsonaro, durante a entrevista. âDesde a classe cientĂfica, que atinge a Anvisa â e precisamos agora imensamente dos cientistas funcionando bem porque dependemos muito deles nesse momento de pandemia â atĂ© indĂșstria, agrĂĄrio, agroecologia, agrofloresta, Funai, meio ambiente⊠Todo esse desmonte jĂĄ tem uma consequĂȘncia imediata para o Brasil. Nunca nossas florestas foram tĂŁo destruĂdas como agora. Para mim, essa Ă© a maior preocupação. Porque o que se destrĂłi em termos de florestas amazĂŽnicas e de outros biomas, como cerrado, pantanal e etc, Ă© possĂvel que nunca mais se consiga repor. Hoje, a floresta amazĂŽnica produz mais gĂĄs carbĂŽnico com as queimadas do que Ă© capaz de absorver. Isso Ă© um ponto de desequilĂbrio que se a gente nĂŁo mexer e nĂŁo mudar imediatamente, com todos os esforços nacionais e internacionais, corremos o risco de perder o maior bioma do planeta. Ă a maior tragĂ©dia de todas. Ă algo que nĂŁo se pode recuperar. O que [o ex-ministro] Ricardo Salles fez sĂŁo erros crassos e de tamanha gravidade para o bem comum que isso Ă© a minha maior preocupação para o paĂs. Com a destruição dos biomas vem a destruição dos rios, a contaminação dos rios pelo mercĂșrio do garimpo descontrolado e ilegal. Tudo isso dentro da floresta. Ă desgraça demais para pouco paĂs. Ă madeireiro, grileiro de terra, mercĂșrio nas ĂĄguas, Ă© toda a ganĂąncia do capital expressa de uma forma contundente contra a AmazĂŽniaâ, disse a atriz, ao justificar os motivos que estĂŁo levando-a fazer ecoar a voz de Chico Mendes pelos palcos brasileiros.

Atriz Lucélia Santos/ Divulgação
âQuando falo da AmazĂŽnia, eu me refiro nĂŁo sĂł Ă fauna e Ă flora, mas tambĂ©m Ă s pessoas que vivem lĂĄ. Elas sĂŁo muito fortes, mas estĂŁo levando porrada em cima de porrada. Hoje, no Brasil, os povos que mais sofrem e apanham sĂŁo os indĂgenas e os quilombolas, que vivem nesses biomas sagrados. Eles sĂŁo os cuidadores. NĂŁo fossem esses guardiĂ”es, jĂĄ nĂŁo existiria mais nada. Eu milito nisso hĂĄ mais de 34 anos. Estava nessa frente de batalha lĂĄ atrĂĄs, com o Chico Mendes. E continuo na mesma frente. Nunca houve tamanho retrocesso na histĂłria do Brasil. Nunca houve tanta destruição, queimada, desmatamento e tanta perseguição aos povos da floresta, desde a ditadura militar. Nos anos 70, eles invadiam as casas dos seringueiros, queimavam, estupravam as mulheres. E, hoje, dentro das reservas extrativistas, onde estive recentemente, voltaram a queimar casas de seringueiros e de lideranças indĂgenas. SĂŁo ameaçados e assassinados. Para mim, esse Ă© o maior nĂł a ser desatado pelo prĂłximo presidente da RepĂșblica. Eu queria muito ter mais acesso a essa agenda do Lula, que apoio incondicionalmente. Gostaria de participar de projetos onde fossem apresentados caminhos aos presidenciĂĄveis, para que fossem assumidos compromissos com essa agenda verdeâ, acrescentou.
Sobre a peça em si, a atriz disse que jĂĄ fez duas Ășnicas apresentaçÔes em Xapuri (AC), na data do 33Âș ano do assassinato do Chico Mendes, e uma outra sem maiores ensaios. âTodos os anos, de 15 a 22 de dezembro, acontece a Semana Chico Mendes em Xapuri, onde ele viveu e os sindicatos foram criados e todo aquele Vale do Acre. Todo o trabalho dele estĂĄ muito ligado Ă quela regiĂŁo. Foi ali que estive com ele, entramos pelas matas. Foi lĂĄ dentro da floresta que comecei a minha militĂąncia. EntĂŁo, fiz questĂŁo de ir, atĂ© de uma maneira bastante crua, sem financiamento, sem recursos. Fui na raça, inclusive, sem muitos ensaios. E consegui fazer o melhor que pude. Foram duas apresentaçÔes. Fui porque para mim tinha um cunho de emoção muito forte pela comemoração da data e, somado a isso, o fato de estar em pleno pulmĂŁo do governo Bolsonaro. Pretendo levar essa peça para o Brasil inteiro. Devemos começar por SĂŁo Paulo, em abril, em uma das unidades do SESC. Depois, devo fazer interior de SĂŁo Paulo e começar a viajar o Brasil construindo uma agenda para a peçaâ, afirmou.
Em âVozes da Florestaâ, prossegue a atriz, conto a histĂłria na voz do prĂłprio Chico Mendes porque quando eu estive lĂĄ, em 1988, gravei uma longa entrevista na qual Chico conta a histĂłria do movimento dos seringueiros e a fundação dos sindicatos, tudo o que ele estava sofrendo, a forma como saiu do Brasil, a aproximação e o respeito que ganhou nos EUA, o prĂȘmio internacional⊠Isso tudo Ă© o que conduz a narrativa da minha peça. Do ponto de vista de dramaturgia, de teatro, Ă© construĂda pelas falas de trĂȘs mulheres: a Valdiza Alencar, a primeira seringueira da histĂłria do Acre e quem fundou o sindicato. Outra Ă© a dona CecĂlia Mendes, tia do Chico [Mendes] e que acompanhou toda a trajetĂłria dele atĂ© a morte. E a terceira sou eu mesma, como um testemunho de 1988, quando cheguei e peguei o movimento no auge do conflitoâ. Dona CecĂlia Mendes jĂĄ Ă© falecida mas sua voz tambĂ©m foi gravada.
LucĂ©lia Santos disse que tenta resgatar a histĂłria com sua arte. âEssa memĂłria Ă© o que a gente tenta resgatar. Ă a minha ação ao fazer uma peça como essa. Em âVozes da Florestaâ, falo de vĂĄrios companheiros que perderam a vida, inclusive antes do Chico, como Wilson Pinheiro e outros. Esse inventĂĄrio de assassinatos, se vocĂȘ for fazer agora, das mortes no campo e na floresta desde que o Bolsonaro assumiu⊠isso tem que ser inventariado, tem que ser denunciado. Inclusive, em nĂvel internacional, porque Ă© um genocĂdio, tem que ser tratado dessa forma. Muitas pessoas no Brasil estĂŁo tentando emplacar essa discussĂŁo com relação a direitos humanos e acho que trata-se de algo muito importante de ser feito. Eu apoio 100%â, disse.
âVocĂȘ pretende ser candidata ao parlamento?â, pergunta o repĂłrter que a entrevistou. A resposta da atruz: âNĂŁo tenho pretensĂ”es. Eu acho⊠se fosse em inglĂȘs, nĂŁo sei se seria âI would likeâ ou âI should likeâ, entende? Tenho uma voz que alcança e, por isso, deveria correr o risco e me lançar nessa aventura. NĂŁo Ă© uma coisa confortĂĄvel. Este ano, faço 50 anos de carreira e tenho muitos projetos de exposição fotogrĂĄfica, lançamento de um fotobook no Brasil e na China, comemoraçÔes alavancadas pelo âVozes da Florestaâ.
Portanto, o mais confortĂĄvel para mim seria ficar aqui no meu mundo, trabalhando. Mas acho que deveria me arriscar por causa do Brasil. A situação Ă© muito delicada e estaria sendo atĂ© um pouco egoĂsta se quisesse me livrar de uma posição coletiva nesse momento institucional. Sempre militei desde muito cedo e acho que tenho essa maturidade para concorrer. PorĂ©m, nĂŁo estou tomando uma decisĂŁo ainda porque quero ouvir as pessoas. Vou fazer uma sĂ©rie de reuniĂ”es nos prĂłximos dias. Se for me candidatar, vou querer fazer uma campanha criativa, capaz de penetrar via redes sociais e atingir a juventude nesse sentido de mudança de atitude, de comportamento e de discussĂŁo sobre onde estĂĄ a sociedade, para onde ela vai e quais sĂŁo as transformaçÔes necessĂĄrias. Gostaria de atingir essa turma da Greta Thunberg. Esse pessoal estĂĄ aĂ gritando e a gente tem que gritar ao lado deles porque a questĂŁo do clima global Ă© inevitĂĄvel. Esse Ă© um discurso que precisa ser incorporado pelo Brasil e Ă© a partir dele que precisamos nos mover, colocando a AmazĂŽnia no centro da discussĂŁo. O Brasil nĂŁo começa em BrasĂlia nem em SĂŁo Paulo. O Brasil começa na AmazĂŽnia. Se o novo governante entender isso, teremos saĂdas e soluçÔes. Se nĂŁo entender, os prĂłximos anos podem ser muito complicadosâ, disse.
