Em caso rarĂ­ssimo, menino nasce com dois pĂȘnis e passa por cirurgia; entenda

Por G1 15/03/2022 Ă s 17:00

Um caso rarĂ­ssimo na medicina ocorreu no UzbequistĂŁo: um menino de 7 anos nasceu com dois pĂȘnis e precisou passar por uma cirurgia para corrigir o problema. O caso foi recentemente divulgado na revista cientĂ­fica “Science Direct”.

A operação ocorreu em outubro. O nome da condição, difalia, ocorre uma vez a cada 5 ou 6 milhÔes de nascimentos; em todo o mundo, hå apenas cerca de 100 casos registrados. A causa do problema não é bem definida.

O pĂȘnis Ă© formado por trĂȘs cilindros: dois corpos cavernosos, que ficam juntos um do outro lateralmente, e um no meio, que Ă© o corpo esponjoso, que Ă© onde estĂĄ a uretra dentro“, explica o urologista Ubirajara Barroso Jr, especialista em reconstrução genital e chefe de cirurgia reconstrutiva de uretra do Hospital das ClĂ­nicas da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

No caso da difalia verdadeira, que Ă© a do menino uzbeque, “dois pĂȘnis completamente normais sĂŁo formados, ou seja, cada um com seus dois corpos cavernosos e o corpo esponjoso, e tambĂ©m com sua glande”, completa o mĂ©dico. Em outros tipos de difalia, essa configuração pode ser um pouco diferente.

“Esses pacientes [com difalia verdadeira] tĂȘm duas uretras, urinam em jatos separados, mas Ă© como se fosse um Y invertido. Essa uretra une e vai de uma posição sĂł na bexiga – uma saĂ­da sĂł na bexiga, aĂ­ ela se bifurca com dois ĂłrgĂŁos genitais masculinos”, explica o mĂ©dico.

Para corrigir o problema, quem vai fazer a cirurgia escolhe um dos pĂȘnis para ser retirado – o mais robusto ou desenvolvido, se houver diferença entre os dois. “Na maior parte das vezes, eles sĂŁo muito parecidos um com o outro”, completa Ubirajara Barroso Jr.

Vida normal com dois pĂȘnis Ă© possĂ­vel

 

O urologista explica que, geralmente, a cirurgia para retirada de um dos pĂȘnis pode ser feita a partir dos seis meses de idade.

No caso do menino do UzbequistĂŁo, que sĂł passou pela operação aos 7 anos, pode ter havido problemas no acesso Ă  saĂșde, por exemplo.

“A princĂ­pio, nĂŁo hĂĄ uma necessidade de esperar muito tempo para corrigir – se tiver todo o diagnĂłstico, porque, para vocĂȘ saber quantos corpos cavernosos [existem], precisa ter uma ressonĂąncia magnĂ©tica para avaliar”, pondera.

Por outro lado, Ă© possĂ­vel, tambĂ©m, levar uma vida normal tendo dois pĂȘnis.

“Ele pode viver com dois pĂȘnis. NĂŁo seria muito comum, mas Ă© possĂ­vel viver – nĂŁo hĂĄ nenhum prejuĂ­zo Ă  saĂșde. Ele pode ter alguma dificuldade, talvez, depois, de penetração”, aponta.

O menino nĂŁo sofria, por exemplo, de problemas de incontinĂȘncia urinĂĄria – que nĂŁo costuma ocorrer apenas por existirem dois ĂłrgĂŁos genitais, e sim quando hĂĄ problemas associados.

“O problema, em si, nĂŁo causa incontinĂȘncia. NĂŁo tem razĂŁo de haver disfunção erĂ©til, porque a inervação Ă© normal. A vascularização Ă© normal”, explica Ubirajara Barroso Jr.

Na operação, os cirurgiĂ”es uniram as uretras, e tambĂ©m nĂŁo houve problemas de incontinĂȘncia no pĂłs-operatĂłrio. Segundo o urologista, a cirurgia Ă© “muito mais uma reconstrução”, que nĂŁo traz risco adicional de continĂȘncia da urina ou Ă  função erĂ©til.

Sem Ăąnus

Um problema que pode acontecer ao mesmo tempo que a duplicação do pĂȘnis Ă© a imperfuração do Ăąnus, ou seja, a pessoa nasce sem o Ăąnus. Foi o caso do menino, que teve o problema corrigido em uma cirurgia anterior, logo apĂłs nascer.

“HĂĄ uma mĂĄ-formação muito associada [Ă  difalia] que Ă© o Ăąnus imperfurado, ou seja, uma pessoa que nasce sem Ăąnus. Consequentemente, o intestino nĂŁo tem como escoar para fora e aĂ­ Ă© preciso, ao nascimento, fazer uma derivação – pegar o intestino, colocar para fora, atĂ©, depois, reconstruir esse trĂąnsito”, explica Ubirajara Barroso Jr.

“E isso tem uma implicação, porque, dos Ăąnus imperfurados, 30% tĂȘm uma alteração da formação da medula dos nervos que vĂŁo para a bexiga”, completa. Nesses casos, pode haver incontinĂȘncia.

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