Fígado lesionado por substâncias para emagrecer: novos dados sobre morte de Paulinha Abelha

Por G1 08/03/2022 às 08:56 Atualizado: há 4 anos

Um fígado debilitado por um mix de substâncias tomadas para dormir, ficar alerta, ganhar definição muscular e, principalmente, emagrecer pode ser a principal chave para entender o quadro que terminou com a morte da cantora Paulinha Abelha, que tinha 43 anos.

Com base nos resultados divulgados na segunda-feira (7) de um exame toxicológico e de uma biópsia, além da lista de medicamentos receitados para a cantora antes da internação, o g1 ouviu especialistas que explicam:

  • quais as substâncias tomadas pela artista,
  • para que elas servem,
  • quais as possĂ­veis complicações que elas causam,
  • as lacunas que ainda persistem sobre o que ocorreu com a vocalista.

Antes de uma análise geral dos medicamentos, conheça em três pontos um resumo do que dizem os exames médicos e o que consta na receita:

  • Resultado da biĂłpsia (laudo anatomopatolĂłgico): exame mostra lesĂŁo hepática aguda com necrose. Traduzindo: o fĂ­gado da cantora estava fortemente debilitado, com áreas mortas. AlĂ©m disso, tinha retenção de bile no fĂ­gado (colestase). O fĂ­gado, entre outras funções, Ă© responsável por eliminar substâncias tĂłxicas por meio justamente da bile. O laudo nĂŁo crava, mas diz que as lesões sĂŁo compatĂ­veis com as provocadas por medicamentos.
  • Exame de substâncias tĂłxicas no corpo (triagem toxicolĂłgica): Deu positivo para duas substâncias: 1) anfetaminas (remĂ©dios que agem no cĂ©rebro aumentando estado de alerta e que tĂŞm efeito sobre o apetite) e 2) barbitĂşricos (sedativos e calmantes). Deu negativo para outras 10 substâncias, incluindo drogas.
  • Receita de medicamentos: o receituário assinado por uma mĂ©dica nutrĂłloga indicava um conjunto com 7 medicamentos ou fĂłrmulas. Ao todo, eram 18 substâncias. Na análise dos especialistas consultados pelo g1, o foco dessa lista era inibir a absorção de carboidratos, gordura, atuar no humor, no sono e apoiar nos treinos fĂ­sicos para ganhar passa muscular.

A avaliação geral de dois hepatologistas e uma nutricionista após analisarem os laudos e os itens que constam na receita é:

“O principal a apontar Ă© essa “salada de compostos” na receita. Com uma certa frequĂŞncia eles interagem entre si e podem resultar em danos sĂ©rios ao fĂ­gado”, avalia Mário Kondo, professor adjunto de gastroenterologia da UNIFESP e hepatologista do Hospital SĂ­rio-LibanĂŞs de SĂŁo Paulo.

Para Vanderli Marchiori, nutricionista e fitoterapeuta com especialização em medicina complementar:

“Sem dĂşvida alguma, era uma pessoa que tomava remĂ©dio para dormir e para acordar. E para se manter magra o tempo inteiro. E, infelizmente, talvez atĂ© de acordo com o tempo de uso, o organismo nĂŁo deu conta”, afirma Vanderli.
O hepatologista Raymundo Paraná, professor titular da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia, avalia:

“A intoxicação por fĂłrmulas (para emagrecer) eu vejo com frequĂŞncia no SUS e na clĂ­nica privada. A frequĂŞncia Ă© assustadora. Felizmente, a imensa maioria evolui bem com a suspensĂŁo. SĂł poucos tem desfechos gravĂ­ssimos”, afirma Paraná.

Quais os remédios e substâncias tomadas por Paulinha?

A receita com sete tópicos tinha três dedicados a medicamentos alopáticos (da medicina tradicional, normalmente agem produzindo efeitos contrários aos da doença, por exemplo, antidepressivos ou antibióticos).

Para além dos remédios tradicionais, a lista tinha uma série de suplementos alimentares, extratos de plantas e fitoterápicos (obtidos de plantas medicinais ou de seus derivados, utilizados com finalidade profilática, curativa ou paliativa).

Para que servem as substâncias e os medicamentos receitados?

Os remédios listados tinha como função regular o humor, sono e apetite.

Entre os tradicionais, o primeiro da lista era o bupropiona, um antidepressivo que costuma ser usado em tratamentos para deixar de fumar, mas ela também é eventualmente receitado por atuar contra a compulsão por doces, segundo Vanderli Marchiori.

“O perfil de segurança Ă© bem satisfatĂłrio para o seu uso isolado, mas tem muitas interações medicamentosas perigosas. É preciso cautela quando Ă© usado com outras medicações”, alerta o hepatologista Raymundo Paraná.

Outro remédio alopático da lista é o venvance, usado para tratar hiperatividade e déficit de atenção, mas que também pode ser aplicado em tratamento contra transtorno alimentar. É da classe das anfetaminas, substância que apareceu positiva no laudo.

“Pode causar agressĂŁo hepática, mas nĂŁo Ă© habitual se usado isoladamente. Tem muitas interações medicamentosas nefastas sobretudo com antidepressivos. Pode causar arritmia e nĂŁo deve ser usado em pacientes com insuficiĂŞncia renal”, explica o hepatologista Raymundo Paraná.

Por fim, o Orlistat fecha a lista dos remédios tradicionais voltado especificamente para o emagrecimento: age no intestino. Ela inibe uma enzima produzida no pâncreas, a lipase, que faz a ingestão de gorduras. Isso faz com que cerca de 30% da gordura ingerida na alimentação seja eliminada nas fezes.

“Seu efeito adverso Ă© a perda de continĂŞncia, eliminando gorduras atravĂ©s do ânus. O indivĂ­duo pode passar por situações vexatĂłrias, por isso o prĂłprio paciente diminui a ingestĂŁo de alimentos gordurosos. Em relação ao fĂ­gado Ă© muito seguro, mas tem casos de hepatite.

Na outra metade da lista o foco das outras quatro fĂłrmulas e suplementos era:

  • acalmar, reduzir estresse e ansiedade;
  • ajudar no combate da insĂ´nia e a manter a atenção;
  • impede a absorção de carboidrato;
  • ganho de massa muscular.

Como as fórmulas ou extratos não possuem uma padronização de dosagem para uso ou mesmo não foi possível localizar estudos de eficácia científica, o g1 não vai listar os nomes de todas as substâncias que as compõem.

Quais as possíveis complicações das substâncias?

O professor e hepatologista Raymundo Paraná destaca que os itens da lista classificados como suplementos alimentares e afins não apresentam estudos de fase 3 (testes em larga escala com humanos comparando o produto com um placebo) para atestar eficácia e dosagem segura.

Além de fazer ressalvas generalizadas para praticamente toda a lista, o professor ressalta que há relatos de complicações para o uso da valeriana, da paulinea e da garcinia camboja.

“Sobre a garcĂ­nia, o que nĂłs temos de fato, baseado em estudo clĂ­nico, Ă© um alerta do NIH dos EUA que a garcĂ­nia pode causar agressĂŁo hepática e algumas vezes essa agressĂŁo pode ser grave. É uma droga que deve ser evitada”, afirma Paraná.

O professor Mario Kondo tambĂ©m destaca o mesmo composto. “Pelo menos essa garcĂ­nia camboja Ă© bem conhecida, mas outros podem estar envolvidos (no desgaste do fĂ­gado)”, avalia Kondo.

Já a nutricionista Vanderli Marchiori avalia que o receituário era extenso, mas que de modo geral a prescrição “fazia sentido”. “Sem conhecer o caso, tirando o bupropriona e o venvance, faz sentido para algumas pessoas”, avalia Vanderli, que nĂŁo viu na lista nenhuma quantidade prescrita acima do que Ă© comum no meio.

Quais as lacunas no diagnóstico e na análise do caso?

A certidão de óbito de Paulinha aponta insuficiência renal aguda, hepatite, hipertensão séptica e meningoencefalite. Os médicos que atenderam a cantora apresentaram o caso como um quadro de comprometimento multissistêmico. A família ainda aguarda novos exames para descobrir o motivo das rápidas complicações de saúde. Ainda não se sabe o motivo de ela ter apresentado rápida piora e as complicações terem afetado outras partes do corpo.

Uma das principais funções de um fĂ­gado saudável Ă© depurar o sangue. Em um quadro de hepatite fulminante causado pela ingestĂŁo de substâncias tĂłxicas, as cĂ©lulas do fĂ­gado – chamadas de hepatĂłcitos – morrem rapidamente, causando o colapso do ĂłrgĂŁo. Com isso, a corrente sanguĂ­nea “envenenada” pelas toxinas causa a inflamação de outros ĂłrgĂŁos. Geralmente, o cĂ©rebro Ă© o primeiro a falhar, causando a morte encefálica.

O papel dos remĂ©dios no comprometimento parece ser uma das chaves da análise. Em entrevista ao Fantástico no dia 27 de fevereiro, o marido de Paulinha Abelha, Clevinho Santos, disse que a artista nunca tomou anabolizantes, mas que “sempre tomou” remĂ©dios do tipo “mais diurĂ©ticos”. “Quando tinha um show, uma coisa que ela queria dar uma secada, esses chás de emagrecer”, contou.

O período de exposição a medicamentos pode ter comprometido o fígado e ainda não se sabe a quanto tempo ela estava tomando os medicamentos da atual receita.

“Apenas como especulação, Ă© possĂ­vel que ela tenha tido um quadro como o da enfermeira Mara Abreu. Hepatite aguda grave que, se nĂŁo transplantada a tempo, pode rapidamente levar Ă  morte”, aponta Mário Kondo, professor adjunto de gastroenterologia da Unifesp e hepatologista do Hospital SĂ­rio LibanĂŞs de SĂŁo Paulo.

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Para Raymundo Paraná, que coordena um ambulatĂłrio que estuda casos de hepatite fulminante, Ă© preciso ser “absolutamente honesto e transparente”. Ele afirma que Ă© muito difĂ­cil o diagnĂłstico de toxicidade. “NĂŁo Ă© por outro motivo que tem tantos suplementos fitoterápicos vendendo sem nenhum controle, Ă© porque o diagnĂłstico Ă© difĂ­cil”, afirma.

“SĂŁo pouquĂ­ssimos centros no Brasil que podem contar com a estrutura necessária (para investigar cada caso), entĂŁo a subnotificação Ă© a regra”, afirma Paraná. Ele explica que mesmo com a biĂłpsia do fĂ­gado nĂŁo há garantias absolutas, já que ao contrário de outras doenças como alcoolismo ou hepatite a ou B, nĂŁo há sinais visĂ­veis individuais da intoxicação na maioria dos casos, e na maioria dos casos o diagnĂłstico ocorre por eliminação e avaliação do histĂłrico da paciente.

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