PrĂ©-candidatos Ă  PresidĂȘncia criam estruturas de campanha para atrair voto evangĂ©lico; conheça

Por G1 13/03/2022 Ă s 09:58

O presidente Jair Bolsonaro (PL) se reuniu no PalĂĄcio do Planalto, na Ășltima semana, com cerca de 20 pastores evangĂ©licos e outras lideranças cristĂŁs. Na ocasiĂŁo, indicou que os rumos do Brasil sĂŁo dirigidos de acordo com os desejos dos pastores.

“Eu dirijo a nação para o lado que os senhores assim o desejarem. É fĂĄcil? NĂŁo Ă©. Mas nĂłs sabemos e temos força para buscar fazer o melhor para a nossa pĂĄtria”, declarou.

LĂ­deres religiosos interpretaram o ato como uma demonstração de força polĂ­tica e de mobilização do segmento. Bolsonaro, no entanto, nĂŁo Ă© o Ășnico entre os prĂ©-candidatos Ă  PresidĂȘncia da RepĂșblica em 2022 a buscar o pĂșblico evangĂ©lico.

Questionadas pelo g1, as equipes de prĂ©-campanha de Luiz InĂĄcio Lula da Silva (PT), Sergio Moro (Podemos), Ciro Gomes (PDT) e JoĂŁo Doria (PSDB) confirmaram que traçam estratĂ©gias especĂ­ficas para esse segmento – a reportagem conversou com conselheiros de cada prĂ©-candidato (leia mais abaixo).

Consulta, a campanha da pré-candidata Simone Tebet (MDB) não informou se hå planos ou estratégias de campanha dirigidas a esse segmento do eleitorado.

Eleitorado decisivo

 

As estatĂ­sticas justificam a estratĂ©gia das prĂ©-campanhas. Pesquisa Datafolha de janeiro de 2020 apontou que 31% dos brasileiros se identificavam como evangĂ©licos – bem mais que os 22% identificados no censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂ­stica (IBGE).

O professor aposentado da Escola Nacional de CiĂȘncias EstatĂ­sticas do IBGE JosĂ© EustĂĄquio Diniz Alves diz que, em 2018, o voto evangĂ©lico foi decisivo para a eleição de Jair Bolsonaro.

Segundo o doutor em demografia, no segundo turno, Bolsonaro recebeu 11,6 milhÔes de votos de eleitores evangélicos a mais que o candidato Fernando Haddad, do PT.

O nĂșmero Ă© maior que os 10,7 milhĂ”es de votos que, na soma geral, segundo os dados finais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), garantiram a vitĂłria de Bolsonaro.

“Naquela eleição, houve uma divisĂŁo do eleitorado catĂłlico, que ficou quase 50% [Haddad] a 50% [Bolsonaro]. Com os votos do eleitorado evangĂ©lico, Bolsonaro conseguiu compensar derrotas nas outras religiĂ”es e vencer”, afirmou.

Alves avalia que, para 2022, o cenĂĄrio Ă© diferente. Mesmo com a tendĂȘncia de crescimento da população evangĂ©lica, o demĂłgrafo diz acreditar que, desta vez, o fiel da balança serĂĄ o eleitorado catĂłlico.

“As Ășltimas pesquisas indicam uma mudança. Lula se posiciona com bastante diferença positiva entre os catĂłlicos e se aproxima [de Bolsonaro] no eleitorado evangĂ©lico. O que indica que a maioria dos evangĂ©licos que embarcou com Bolsonaro em 2018 nĂŁo estarĂĄ com ele neste ano”, explicou.

“Temos uma defasagem dos dados sem um novo censo, mas tudo indica que pode haver uma diĂĄspora evangĂ©lica entre os candidatos, justificando uma busca por esses votos”, explicou.

Doutora em ciĂȘncia polĂ­tica pelo Instituto de Estudos Sociais e PolĂ­ticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Carolina de Paula afirma que, apesar de atuar unido em relação a algumas teses, o eleitorado evangĂ©lico nĂŁo Ă© um bloco, e sim um segmento com vĂĄrias vertentes.

Para ela, em 2022, os rumos da economia serão mais importantes nas eleiçÔes que a pauta conservadora de costumes utilizada por Bolsonaro na campanha de 2018.

“As igrejas se prepararam politicamente hĂĄ alguns anos para eleger representantes. É um eleitorado importante, especialmente para as eleiçÔes majoritĂĄrias, mas a tendĂȘncia Ă© que nĂŁo haja uma semelhança com o cenĂĄrio da eleição de 2018”, disse.

Segundo ela, os candidatos ao Planalto terĂŁo como desafio “entender” o eleitor evangĂ©lico.

“NĂŁo existe uma fĂłrmula. Bolsonaro usou da defesa da famĂ­lia, da pauta de costumes e um pouco da agenda contra corrupção em 2018 e teve sucesso com esse pĂșblico, mas nĂŁo estĂĄ certo que essa tĂĄtica tem chance de funcionar novamente e ser replicada agora”, avaliou.

Veja, abaixo, o que dizem os conselheiros religiosos dos pré-candidatos ao Palåcio do Planalto (em ordem alfabética, pelo nome do pré-candidato):

Ciro Gomes (PDT)

 

O prĂ©-candidato Ciro Gomes, do PDT  — Foto: Antonio Molina/Fotoarena/EstadĂŁo ConteĂșdo

O prĂ©-candidato Ciro Gomes, do PDT — Foto: Antonio Molina/Fotoarena/EstadĂŁo ConteĂșdo

“Nós defendemos um Estado laico em que a Bíblia e a Constituição não entram em conflito”, disse o pastor Alexandre Gonçalves, presidente nacional do Cristãos Trabalhistas – um movimento interno do PDT.

Gonçalves afirmou que o entendimento deve permear toda a campanha de Ciro, a quem Gonçalves tem ajudado no contato com a população evangélica. O pré-candidato tem se reunido, reservadamente, com pastores em todo o país.

Os encontros, afirma Gonçalves, sĂŁo destinados a ouvir os pleitos e absorver as percepçÔes sobre a trajetĂłria de Ciro – muitas vezes, diz, formuladas com base em notĂ­cias falsas.

“A gente nĂŁo divulga publicamente porque hĂĄ um temor de que esses pastores sofram qualquer tipo de represĂĄlia por estarem dialogando com o ‘outro lado'”, afirma.

Na tentativa de elevar a fatia de eleitores evangĂ©licos, Gonçalves diz que o PDT deseja levar “formação” Ă s igrejas das periferias, onde, de acordo com ele, o discurso bolsonarista venceu nos Ășltimos anos.

“NĂŁo vamos focar em pastores ‘midiĂĄticos’. Eles, tradicionalmente, vĂŁo atrĂĄs do poder. NĂłs queremos formar as pessoas, queremos quebrar esse preconceito delas com Ciro”, explica.

O partido propÔe uma defesa da família que não se concentre na discussão entre o modelo tradicional e os formatos contemporùneos.

“Para que a famĂ­lia fique forte, que vĂĄ Ă  igreja, Ă© preciso fortalecer direitos bĂĄsicos. É preciso que a gente diga que nĂŁo dĂĄ para votar em candidato que defende diminuição de direitos trabalhistas, por exemplo”, diz.

A questĂŁo Ă© abordada na cartilha “Fundamentos Ă©ticos do trabalhismo cristĂŁo”, que ainda serĂĄ lançada oficialmente pelo partido. O conteĂșdo, na avaliação do pastor, Ă© uma das apostas para difusĂŁo em grupos de aplicativos de mensagens e em rodas de conversa nas igrejas.

Um trunfo da campanha de Ciro serĂĄ o apoio do pastor e ex-deputado federal Cabo Daciolo, que anunciou desistĂȘncia da candidatura para apoiar o candidato do PDT. Para Alexandre Gonçalves, Daciolo “fala a voz do povo das periferias” e tem potencial para fazer Ciro ser ouvido pelo mesmo pĂșblico.

JoĂŁo Doria (PSDB)

 

O governador de SĂŁo Paulo, JoĂŁo Doria — Foto: Rovena Rosa / AgĂȘncia Brasil

O governador de SĂŁo Paulo, JoĂŁo Doria — Foto: Rovena Rosa / AgĂȘncia Brasil

Segundo o presidente do NĂșcleo de Base Inter-Religioso do PSDB de SĂŁo Paulo, pastor Luciano Luna, JoĂŁo Doria (PSDB) ainda nĂŁo definiu quais serĂŁo as estratĂ©gias para estreitar os laços com os evangĂ©licos.

Luna afirmou que, em conversa no inĂ­cio do ano, Doria indicou que deve estruturar a campanha ao Planalto somente apĂłs deixar o mandato de governador de SĂŁo Paulo. O prazo para que ele deixe o posto e possa disputar a PresidĂȘncia vai atĂ© 2 de abril.

Para Luna, que atuou como uma espécie de conselheiro religioso de Doria nas campanhas vitoriosas à Prefeitura de São Paulo e ao governo do estado, o tucano jå tem bom trùnsito com o setor cristão, mas perdeu força no segmento com o avanço da pandemia no estado de São Paulo.

“Ele já se relaciona muito bem com as lideranças, maiores ou menores. Nosso trabalho vai ser garantir ainda mais espaço para ele”, declarou.

Luiz Inåcio Lula da Silva (PT)

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em imagem do dia 17 de dezembro de 2021 — Foto: Amanda Perobelli/Reuters

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em imagem do dia 17 de dezembro de 2021 — Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Apesar de o PT nĂŁo ter anunciado oficialmente a prĂ©-candidatura do ex-presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva Ă  PresidĂȘncia, ele tem traçado um caminho de diĂĄlogo com os evangĂ©licos.

O desejo de aproximar o eleitor cristão cresceu com a saída de Lula da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, em novembro de 2019.

Segundo a coordenadora do NĂșcleo Nacional de EvangĂ©licos do PT (Nept), deputada Benedita da Silva (RJ), o ex-presidente relatou ter acompanhado, durante o perĂ­odo da prisĂŁo, programas religiosos veiculados na TV aberta. DaĂ­, afirmou, surgiu a percepção da necessidade de se reconectar com esse pĂșblico.

Localizados em 21 estados, os nĂșcleos regionais do Nept formam politicamente evangĂ©licos que “se identificam com PT ou com Lula”. Esses nĂșcleos, segundo ela, buscam lembrar que o PT “ajudou as igrejas”.

“Mais adiante, esses nĂșcleos trabalharĂŁo prĂł-eleição, abrindo e ampliando para apoio de outros evangĂ©licos”, disse a deputada.

“Lula nĂŁo prega o evangelho. Ele prega a polĂ­tica para todas as pessoas. Lula nĂŁo tem que sair atrĂĄs dos evangĂ©licos, tem que conversar. EvangĂ©lico nĂŁo Ă© gado. SĂŁo pessoas com identidade”, declarou Benedita da Silva.

Em outra frente, atua o pastor Paulo Marcelo Schallenberger, que nĂŁo Ă© filiado ao PT. Segundo Benedita da Silva, as açÔes dele sĂŁo “independentes” do partido.

Em julho passado, o pastor procurou Lula de maneira voluntĂĄria. Os dois conversaram por telefone e, ao fim do ano, se reuniram de forma presencial. A Lula, Paulo Marcelo entregou um projeto de “inclusĂŁo de evangĂ©licos” no PT.

No documento, o pastor apresenta uma metodologia que poderĂĄ ajudar a mudar a imagem de que o PT Ă© o “vilĂŁo do segmento”. O texto defende, por exemplo, o “respeito Ă  diversidade, porĂ©m sem indução Ă  mudança de costumes”. Segundo ele, Lula gostou do projeto.

O pastor pretende reunir um “exĂ©rcito” de pastores independentes dispostos a apoiar Lula. Para isso, tem feito o cadastro de lideranças dispostas a apoiar publicamente o ex-presidente. Na Bahia, relata, cerca de 800 lideranças religiosas foram cadastradas.

Paulo Marcelo tambĂ©m estarĂĄ em um podcast criado pelo PT para “conversar” com evangĂ©licos. O pastor ainda planeja sair em caravanas pelo paĂ­s para promover a imagem de Lula (mesmo sem a companhia do petista), conversar com lideranças de igrejas e “mostrar que a igreja precisa de uma economia forte para funcionar”. “As pessoas vĂŁo votar pelo estĂŽmago nessa eleição”, disse.

O pastor também jå se antecipou sobre a possibilidade de Geraldo Alckmin integrar a chapa de Lula como candidato a vice-presidente. O ex-governador de São Paulo, que deixou o PSDB, sinalizou que participarå de um encontro com Paulo Marcelo após definir a filiação a um novo partido, provavelmente o PSB.

Sergio Moro (Podemos)

 

O ex juiz Sergio Moro nesta quarta-feira, 10 de novembro durante cerimînia de filiação no Podemos — Foto: AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO

O ex juiz Sergio Moro nesta quarta-feira, 10 de novembro durante cerimînia de filiação no Podemos — Foto: AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Uziel Santana, ex-presidente da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), estå à frente dos esforços da pré-campanha do ex-ministro Sergio Moro (Podemos) de aproximação com evangélicos.

Desde dezembro, Santana tem feito a ponte entre Moro e lideranças do meio cristĂŁo. No entanto, segundo ele, nĂŁo hĂĄ na equipe do ex-juiz o desejo de tratar os religiosos como “gado”.

“Moro foi pioneiro entre os prĂ©-candidatos a perceber que esta eleição precisaria de um enfoque maior no grupo evangĂ©lico. NĂłs nĂŁo queremos colocĂĄ-los em um curral. Queremos a participação desse grupo na construção do nosso governo”, disse.

Uma das primeiras açÔes de Santana foi o lançamento da “Carta de princĂ­pios para os cristĂŁos”. Non texto, Moro faz um aceno aos evangĂ©licos e defende a “autonomia da instituição familiar“, o respeito Ă s “preferĂȘncias afetivas e sexuais de cada indivĂ­duo” e a “nĂŁo ampliação da legislação em relação ao aborto”.

Segundo Santana, Moro deve se concentrar na aproximação do eleitorado evangélico jovem, que, na avaliação dele, estå mais aberto a votar de forma diferente do líder da igreja.

“A gente vai combater as notĂ­cias falsas e promover ainda mais aproximação com os lĂ­deres. Vamos ressaltar que Moro nunca se posicionou na esfera pĂșblica sobre diversos temas, como o aborto, porque ele era juiz. Temos feito reuniĂ”es com lĂ­deres por todo o Brasil. Temos feito trabalho em todos os estados. A gente quer conversar com os fiĂ©is evangĂ©licos, conhecer os evangĂ©licos, o que pensam e ver o que se pode construir em um futuro governo”, acrescentou.

Para Uziel Santana, a candidatura de Sergio Moro tem potencial para tirar votos da fatia evangĂ©lica que se identifica com Jair Bolsonaro. “Bolsonaro perdeu força e representatividade. HĂĄ espaço para crescer no segmento”, disse.

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