A Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira, o texto-base do projeto que limita o ICMS a 17% para energia, combustĂveis, telecomunicações e transporte coletivo. Foram 403 votos favoráveis e dez contrários, alĂ©m de duas abstenções. Os deputados ainda vĂŁo analisar destaques, emendas que podem alterar o texto. Quando finalizarem a votação, o texto será encaminhado ao Senado.
Este patamar chega a ser metade do cobrado por alguns estados. A medida deve reduzir em atĂ© 12% o preço destes produtos e serviços em alguns estados — segundo os defensores do projeto —, o que pode aliviar a inflação e beneficiar a popularidade do presidente Jair Bolsonaro neste ano eleitoral. Por outro lado, pode retirar atĂ© R$ 83,5 bilhões por ano dos caixas de estados e municĂpios.
Como a redução vale para combustĂveis em geral, sem discriminação, tambĂ©m será aplicada para o querosene de aviação. Foi incluĂdo no texto uma menção especĂfica para o gás natural ficar sujeito ao teto. AlĂ©m disso, há um dispositivo que determina nova regra para a redução da tributação do diesel neste ano. Uma decisĂŁo dos estados fez com que o governo questionasse a decisĂŁo no Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu liminar suspendendo o convĂŞnio.
Essa proposta considera esses serviços essenciais, e por isso estĂŁo sujeitos a limitação do ICMS. Em um aceno aos estados, foi incluĂdo um dispositivo que prevĂŞ uma regra de transição de seis meses com compensação em caso de perda de arrecadação, mas os recursos sĂł poderĂŁo ser usados para abatimento de dĂvidas com a UniĂŁo.
O projeto foi capitaneado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com forte apoio do governo federal. Estados se mobilizaram contra a proposta, e tentam derrubá-la no Senado, recorrer à Justiça ou, em último caso, adiar a entrada para vigor para 2024, seguindo uma decisão anterior do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre ICMS.
Mudanças para conquistar os estados
Os estados sempre se manifestaram contrários ao projeto do deputado Danilo Forte (UniĂŁo-CE), por causa da perda de arrecadação bilionária com a redução das alĂquotas. Para angariar esse apoio, o relator da proposta, deputado Elmar Nascimento (UniĂŁo-BA), acrescentou dispositivos para compensar essa diminuição. Os estados e municĂpios vĂŁo ganhar descontos nas obrigações de dĂvidas junto Ă UniĂŁo em valor equivalente Ă perda arrecadatĂłria que tiverem.
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Em reuniões ao longo desta quarta-feira, dia da votação, ficou definido que os estados que aderiram ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) terĂŁo compensação de qualquer perda de arrecadação que venham a ter. Para os demais estados, foi mantido o acordo de que o gatilho poderá ser acionado caso a perda da arrecadação no mĂŞs seja superior a 5%. Esses recursos serĂŁo usados para abater as dĂvidas dos entes com a UniĂŁo – ou financiamento do RRF – e as compensações serĂŁo interrompidas se houver alteração de alĂquotas ou se nĂŁo houver mais saldo a ser abatido.
Essa é uma regra de transição que valerá por seis meses, entre julho e dezembro de 2022 – isso também estava no acordo que foi alinhavado junto com a equipe econômica ontem.
Nascimento fez outra alteração para incluir os municĂpios na regra do gatilho. Isso ocorre porque as cidades recebem uma parte da arrecadação do ICMS e tambĂ©m terĂŁo perda de recursos. A compensação, nesse caso, ficaria a cargo dos estados.
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Em contrapartida, o relator incluiu uma alteração na lei complementar que mudou a cobrança do ICMS sobre o diesel e uniformizou a alĂquota no paĂs. Ele fixa uma regra para forçar uma revisĂŁo do Conselho Nacional de PolĂtica Fazendária (Confaz), que fixou uma alĂquota maior com possibilidade de os estados darem descontos. Agora, eles serĂŁo obrigados a considerarem a mĂ©dia mĂłvel dos preços mĂ©dios praticados nos 60 meses anteriores, ignorando o perĂodo de congelamento do tributo.
Estados tentarão reverter situação no Senado
Os estados querem reverter a situação de perda de arredação. Porém, o foco já é no Senado, pois avaliavam que há poucas chances de emplacar qualquer mudança que seja na Câmara, ainda que tenham sido propostas mudanças ao texto, que não foram aprovadas.
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Por ora, o que está sendo analisado é uma proposta para substituir esse mecanismo de gatilhos por um fundo de compensação. Esse tipo de medida conta com a antipatia do Ministério da Economia, que é contrário a esses mecanismos.
Os estados afirmam que a limitação do ICMS pode gerar perdas de atĂ© R$ 83,5 bilhões, segundo estimativas do ComitĂŞ Nacional de Secretários Estaduais de Fazenda (Comsefaz). Esse Ă© o montante no chamado ” pior cenário”, caso ocorra alta de 30% dos combustĂveis atĂ© o final do ano. Nos parâmetros atuais, as perdas sĂŁo estimadas em R$ 64,2 bilhões.
Esta conta inclui a parcela que vai aos municĂpios: perdas de R$ 16,05 bilhões Ă s prefeituras no cenário atual e de R$ 20,875 bilhões caso os combustĂveis continuem subindo de preço.
O ataque ao ICMS Ă© mais um capĂtulo na queda de braço entre o Executivo federal e os governadores. Como o GLOBO mostrou, os repasses da UniĂŁo aos estados engordaram os caixas, tambĂ©m beneficiados pelo aumento da arrecadação e, com R$ 320 bilhões disponĂveis, a cobiça do governo federal sobre esses recursos está crescendo.
