O Supremo Tribunal Federal (STF) agendou para amanhã (18) o julgamento da constitucionalidade da Lei 11.705/2008, conhecida como Lei Seca.
Trata-se de uma ação antiga, impetrada há 13 anos pela Associação Brasileira de Restaurantes e Empresas de Entretenimento (Abrasel), mas que pode colocar fim Ă tolerância zero ao álcool para os condutores brasileiros. Segundo a entidade, o texto fere o exercĂcio dos direitos de liberdade e de nĂŁo autoincriminação.
Essa não é a primeira vez que o tema é colocado na agenda do STF, mas a discussão foi adiada pela mesa. Desde que foi analisada no Congresso, entidades pró e contra o texto da Lei Seca apresentam seus pontos de vista, e a queda de braço está perto de ter um fim.
O principal argumento da Abrasel Ă© que o Brasil pune o cidadĂŁo que consumiu apenas uma dose de álcool com o mesmo rigor que alguĂ©m que dirigiu embriagado, enquanto outros paĂses oferecem tolerância.
A Organização Mundial da SaĂşde (OMS) estabelece um limite aceitável de 0,5 g/L no sangue para motoristas em geral e abaixo de 0,2 g/L para condutores com atĂ© 21 anos. Antes de 2008, a Lei brasileira tolerava atĂ© 0,6 g/L, enquanto que agora Ă© mais rĂgida, com tolerância zero ao álcool.
PaĂses como Alemanha, Argentina e Finlândia acatam a determinação da OMS, enquanto outros – como Canadá, Estados Unidos (dependendo do estado), Inglaterra e Irlanda do Norte – sĂŁo mais liberais e toleram atĂ© 0,8 g/L de álcool no sangue.
O que dizem os desafiantes

Imagem: Pedro Kirilos/AgĂŞncia O Globo
O prĂłprio presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, afirma que a associação foi a Ăşnica a, de fato, se posicionar contra a Lei Seca, alegando inconstitucionalidade por ferir o exercĂcio dos direitos de liberdade e de nĂŁo autoincriminação. No entanto, no entendimento dele, apenas o fato de questioná-la já trouxe benefĂcios para a população.
“Antes de nosso posicionamento, o texto proibia a venda de bebidas em todas as rodovias federais, algo sem sentido, já que muitas estradas passam dentro de cidades. Conseguimos retirar a proibição de áreas urbanas. Outro ponto era a obrigação de fazer o bafĂ´metro, ou seja, de constituir prova contra si mesmo”, explica.
Atualmente a Abrasel questiona trĂŞs pontos: a multa para quem se nega a realizar o bafĂ´metro (sob o argumento de que o cidadĂŁo nĂŁo Ă© obrigado a constituir prova contra si mesmo); a privação do direito de ir e vir de quem fica parado em blitz e o fato de a lei ter “criminalizado boa parte da população adulta”.
“Ao nosso ver, a blitz da Lei Seca Ă© algo inconstitucional. Centenas ou milhares de pessoas sĂŁo obrigadas a parar – privadas do direito de ir e vir – porque supõe-se que alguĂ©m bebeu. Em outros paĂses a polĂcia sĂł aborda quem dá indĂcios de que está fazendo algo errado”, opina Solmucci.
Sobre tolerância zero ao álcool, o presidente da associação argumenta que a Lei transforma boa parte da sociedade em criminosos. “Vemos frequentemente pessoas tomando uma ou duas taças de vinho ou chopes dirigindo. Essas pessoas sĂŁo criminosas, mesmo que estejam dentro do parâmetro de vários paĂses do mundo. NĂŁo podemos fazer de conta que essa Lei Ă© boa.”
Abramet diz que Lei Seca Ă© constitucional

Imagem: Fernando FrazĂŁo/AgĂŞncia Brasil
Para a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), a Ăşnica concentração segura para a direção de veĂculos automotores Ă© zero. A instituição afirma que, desde que entrou em vigor, a lei trouxe uma redução de 63% no nĂşmero de mortes no trânsito.
“O risco de envolvimento em um acidente fatal para condutores com alcoolemia entre 0,2 e 0,5 g/L Ă© de 2,6 a 4,6 vezes maior do que o de um condutor sĂłbrio. A diminuição da capacidade de desempenhar funções cruciais para a condução de veĂculos, como processamento de informações, se inicia com alcoolemias baixas, e a maioria dos indivĂduos se encontra significantemente debilitada com alcoolemia de 0,5 g/L”, explica a advogada da Abramet, Priscila Calado Correa Netto.
A advogada tambĂ©m afirma que nĂŁo há argumentos válidos para se decidir pelo fim da Lei Seca. “A Lei nÂş 11.705/08 nĂŁo viola princĂpios constitucionais, pois nĂŁo proĂbe a venda nem o consumo de bebida alcoĂłlica tampouco o motorista de dirigir. NĂŁo há violação aos princĂpios da liberdade econĂ´mica, da livre iniciativa e mĂnima intervenção do Estado na vida privada. Devemos ter sempre em mente que a vida e a incolumidade fĂsica das pessoas sĂŁo direitos fundamentais e estĂŁo acima dos interesses individuais e econĂ´micos”.
VĂtimas de trânsito se posicionam
Segundo a deputada federal Christiane Yared (PP-PR), uma das defensoras das vĂtimas de trânsito na Câmara, trata-se de uma tentativa de enterrar a Lei Seca – para ela, uma das mais exitosas polĂticas pĂşblicas de trânsito no Brasil.
“Um sinal amarelo surgiu em 2013, quando a Procuradoria-Geral da RepĂşblica manifestou-se favoravelmente ao pedido da associação, fato que alarmou todos os ativistas e especialistas de trânsito no Brasil. Por outro lado, temos esperança de que os onze ministros do Supremo Tribunal Federal terĂŁo sabedoria para enxergar o desastre que seria invalidar as penalidades a quem recusar o bafĂ´metro”, opina.
Já Fernando Diniz, presidente da Trânsito Amigo, associação de parentes, amigos e vĂtimas de trânsito, um dos mentores intelectuais da Lei Seca, afirma que nĂŁo há espaço para argumentações contrárias, já que, nos dias de hoje, com a facilidade dos carros por aplicativo, a sociedade já se adaptou Ă s determinações.
“NĂŁo Ă© justo dizer que a lei Ă© muito forte, pois perder o costume de beber e dirigir nĂŁo tem comparação com o que a vĂtima de trânsito perde, que Ă© a vida de um ente querido. As pessoas podem beber o quanto quiserem, sĂł nĂŁo podem dirigir depois. NĂŁo há desculpas quando se fala em salvar vidas.”
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