Fim da Lei Seca? Por que tolerância zero no bafômetro pode acabar

Por UOL 17/05/2022 Ă s 08:10

O Supremo Tribunal Federal (STF) agendou para amanhã (18) o julgamento da constitucionalidade da Lei 11.705/2008, conhecida como Lei Seca.

Trata-se de uma ação antiga, impetrada há 13 anos pela Associação Brasileira de Restaurantes e Empresas de Entretenimento (Abrasel), mas que pode colocar fim à tolerância zero ao álcool para os condutores brasileiros. Segundo a entidade, o texto fere o exercício dos direitos de liberdade e de não autoincriminação.

Essa não é a primeira vez que o tema é colocado na agenda do STF, mas a discussão foi adiada pela mesa. Desde que foi analisada no Congresso, entidades pró e contra o texto da Lei Seca apresentam seus pontos de vista, e a queda de braço está perto de ter um fim.

O principal argumento da Abrasel é que o Brasil pune o cidadão que consumiu apenas uma dose de álcool com o mesmo rigor que alguém que dirigiu embriagado, enquanto outros países oferecem tolerância.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece um limite aceitável de 0,5 g/L no sangue para motoristas em geral e abaixo de 0,2 g/L para condutores com até 21 anos. Antes de 2008, a Lei brasileira tolerava até 0,6 g/L, enquanto que agora é mais rígida, com tolerância zero ao álcool.

PaĂ­ses como Alemanha, Argentina e Finlândia acatam a determinação da OMS, enquanto outros – como Canadá, Estados Unidos (dependendo do estado), Inglaterra e Irlanda do Norte – sĂŁo mais liberais e toleram atĂ© 0,8 g/L de álcool no sangue.

O que dizem os desafiantes

10.jan.2015 - Policiais realizam blitz da Lei Seca na Lagoa, altura do Cantagalo, no Rio de Janeiro. Desde a última sexta-feira (9) a Operação Lei Seca, do governo do estado do Rio de Janeiro, faz blitzes nos principais acessos à orla, no fim da tarde. É a primeira vez que a fiscalização é feita durante o dia, para lembrar que dirigir depois de tomar bebida alcoólica pode causar acidentes, além de multa de R$ 1,9 mil - Pedro Kirilos/Agência O Globo - Pedro Kirilos/Agência O Globo

Imagem: Pedro Kirilos/AgĂŞncia O Globo

O próprio presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, afirma que a associação foi a única a, de fato, se posicionar contra a Lei Seca, alegando inconstitucionalidade por ferir o exercício dos direitos de liberdade e de não autoincriminação. No entanto, no entendimento dele, apenas o fato de questioná-la já trouxe benefícios para a população.

“Antes de nosso posicionamento, o texto proibia a venda de bebidas em todas as rodovias federais, algo sem sentido, já que muitas estradas passam dentro de cidades. Conseguimos retirar a proibição de áreas urbanas. Outro ponto era a obrigação de fazer o bafĂ´metro, ou seja, de constituir prova contra si mesmo”, explica.

Atualmente a Abrasel questiona trĂŞs pontos: a multa para quem se nega a realizar o bafĂ´metro (sob o argumento de que o cidadĂŁo nĂŁo Ă© obrigado a constituir prova contra si mesmo); a privação do direito de ir e vir de quem fica parado em blitz e o fato de a lei ter “criminalizado boa parte da população adulta”.

“Ao nosso ver, a blitz da Lei Seca Ă© algo inconstitucional. Centenas ou milhares de pessoas sĂŁo obrigadas a parar – privadas do direito de ir e vir – porque supõe-se que alguĂ©m bebeu. Em outros paĂ­ses a polĂ­cia sĂł aborda quem dá indĂ­cios de que está fazendo algo errado”, opina Solmucci.

Sobre tolerância zero ao álcool, o presidente da associação argumenta que a Lei transforma boa parte da sociedade em criminosos. “Vemos frequentemente pessoas tomando uma ou duas taças de vinho ou chopes dirigindo. Essas pessoas sĂŁo criminosas, mesmo que estejam dentro do parâmetro de vários paĂ­ses do mundo. NĂŁo podemos fazer de conta que essa Lei Ă© boa.”

Abramet diz que Lei Seca Ă© constitucional

Lei Seca realizou cerca de 29 ações durante o período - Fernando Frazão/Agência Brasil - Fernando Frazão/Agência Brasil

Imagem: Fernando FrazĂŁo/AgĂŞncia Brasil

Para a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), a única concentração segura para a direção de veículos automotores é zero. A instituição afirma que, desde que entrou em vigor, a lei trouxe uma redução de 63% no número de mortes no trânsito.

“O risco de envolvimento em um acidente fatal para condutores com alcoolemia entre 0,2 e 0,5 g/L Ă© de 2,6 a 4,6 vezes maior do que o de um condutor sĂłbrio. A diminuição da capacidade de desempenhar funções cruciais para a condução de veĂ­culos, como processamento de informações, se inicia com alcoolemias baixas, e a maioria dos indivĂ­duos se encontra significantemente debilitada com alcoolemia de 0,5 g/L”, explica a advogada da Abramet, Priscila Calado Correa Netto.

A advogada tambĂ©m afirma que nĂŁo há argumentos válidos para se decidir pelo fim da Lei Seca. “A Lei nÂş 11.705/08 nĂŁo viola princĂ­pios constitucionais, pois nĂŁo proĂ­be a venda nem o consumo de bebida alcoĂłlica tampouco o motorista de dirigir. NĂŁo há violação aos princĂ­pios da liberdade econĂ´mica, da livre iniciativa e mĂ­nima intervenção do Estado na vida privada. Devemos ter sempre em mente que a vida e a incolumidade fĂ­sica das pessoas sĂŁo direitos fundamentais e estĂŁo acima dos interesses individuais e econĂ´micos”.

Vítimas de trânsito se posicionam

Segundo a deputada federal Christiane Yared (PP-PR), uma das defensoras das vĂ­timas de trânsito na Câmara, trata-se de uma tentativa de enterrar a Lei Seca – para ela, uma das mais exitosas polĂ­ticas pĂşblicas de trânsito no Brasil.

“Um sinal amarelo surgiu em 2013, quando a Procuradoria-Geral da RepĂşblica manifestou-se favoravelmente ao pedido da associação, fato que alarmou todos os ativistas e especialistas de trânsito no Brasil. Por outro lado, temos esperança de que os onze ministros do Supremo Tribunal Federal terĂŁo sabedoria para enxergar o desastre que seria invalidar as penalidades a quem recusar o bafĂ´metro”, opina.

Já Fernando Diniz, presidente da Trânsito Amigo, associação de parentes, amigos e vítimas de trânsito, um dos mentores intelectuais da Lei Seca, afirma que não há espaço para argumentações contrárias, já que, nos dias de hoje, com a facilidade dos carros por aplicativo, a sociedade já se adaptou às determinações.

“NĂŁo Ă© justo dizer que a lei Ă© muito forte, pois perder o costume de beber e dirigir nĂŁo tem comparação com o que a vĂ­tima de trânsito perde, que Ă© a vida de um ente querido. As pessoas podem beber o quanto quiserem, sĂł nĂŁo podem dirigir depois. NĂŁo há desculpas quando se fala em salvar vidas.”

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