NĂșmero de mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ subiu 33,3% em um ano

Por TERRA 14/05/2022 Ă s 12:13 Atualizado: hĂĄ 4 anos

Em 2021, houve no Brasil, pelo menos 316 mortes violentas de pessoas lĂ©sbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersexo (LGBTQIA+). Esse nĂșmero representa um aumento de 33,3% em relação ao ano anterior, quando foram 237 mortes. Os dados constam do DossiĂȘ de Mortes e ViolĂȘncias contra LGBTQIA+ no Brasil.

Entre os crimes ocorridos no ano passado, 262 foram homicĂ­dios (o que corresponde a 82,91% dos casos), 26 suicĂ­dios (8,23%), 23 latrocĂ­nios (7,28%) e 5 mortes por outras causas (1,58%).

O dossiĂȘ, produzido por meio do ObservatĂłrio de Mortes e ViolĂȘncias contra LGBTQIA+, Ă© resultado de uma parceria entre a Acontece Arte e PolĂ­tica LGBTQIA+, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e a Associação Brasileira de LĂ©sbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT).

Realizado por meio de uma base de dados compartilhada entre essas trĂȘs instituiçÔes, o trabalho contĂ©m os registros dos casos encontrados em notĂ­cias de jornais, portais eletrĂŽnicos e redes sociais. As violĂȘncias ocorreram em diferentes ambientes, como domĂ©stico, via pĂșblica, cĂĄrcere e local de trabalho.

“Apesar desse nĂșmero jĂĄ representar a grande perda de pessoas, apenas por sua identidade de gĂȘnero e/ou orientação sexual, temos indĂ­cios para presumir que esses dados ainda sĂŁo subnotificados no Brasil”, divulgaram as entidades, que apontaram a para a ausĂȘncia de dados governamentais como desafio para elaboração do dossiĂȘ.

Como o levantamento depende do reconhecimento da identidade de gĂȘnero e da orientação sexual das vĂ­timas pelos veĂ­culos que reportam as mortes, muitos casos de violĂȘncias praticadas contra pessoas LGBTQIA+ acabam nĂŁo entrando na contabilização.

Perfis mais violentados

Os dois grupos que sofreram mais violĂȘncia, reunindo 90,5% dos casos, foram os homens gays (45,89%), com um total de 145 mortes; e as travestis e mulheres trans (44,62%), com 141 mortes. As mulheres lĂ©sbicas representam 3,80% das mortes (12 casos); os homens trans e pessoas transmasculinas somam 2,53% dos casos (oito mortes).

Pessoas bissexuais (0,95%) e pessoas identificadas como outros segmentos (0,95%) tiveram 3 mortes cada grupo. Houve quatro pessoas cuja orientação sexual ou identidade de gĂȘnero nĂŁo foi identificado, representando 1,27% do total, com 4 casos.

A idade das vítimas variou de 13 a 67 anos em 2021, sendo que a maioria das mortes ocorreu com jovens entre 20 e 29 anos (96 casos, o que representa 30,38% do total). As demais faixas etårias corresponderam às seguintes proporçÔes: 22 pessoas com idade entre 10 a 19 anos (6,96%); 68 pessoas entre 30 e 39 anos (21,52%); 36 pessoas entre 40 e 49 anos (11,39%); 21 pessoas entre 50 e 59 anos (6,65%); e 13 pessoas entre 60 e 69 anos (4,11%). Em 60 casos (18,99%), não foi possível identificar a idade.

Onze das vĂ­timas eram adolescentes entre 13 e 17 anos. “Chamamos atenção para a idade da pessoa mais jovem, que era uma adolescente trans de 13 anos, tendo se tornado a mais jovem vĂ­tima de transfeminicĂ­dio no Brasil”, informou o dossiĂȘ.

A avaliação das entidades Ă© que o cenĂĄrio geral de violĂȘncia contra essa população pouco mudou em relação a medidas efetivas de enfrentamento da LGBTIfobia por parte do Estado. “Mesmo em um cenĂĄrio onde alcançamos conquistas considerĂĄveis junto ao Poder JudiciĂĄrio, percebemos a recorrente inĂ©rcia do Legislativo e do Executivo ao se omitirem diante da LGBTIfobia, que segue acumulando vĂ­timas e que permanece enraizada no estado e em toda a sociedade.”

Causa da morte

Segundo o dossiĂȘ, a maior parte das mortes ocorreu por esfaqueamento, com 91 casos (28,8% do total), em segundo lugar vieram mortes por arma de fogo, com 83 casos (26,27), seguida por espancamento, com 20 casos (6,33%), e asfixia, com 10 casos (3,16%). No total, foram identificadas 26 diferentes causas mortis de LGBTQIA+ no paĂ­s.

A maioria das mortes ocorreu no perĂ­odo noturno, com 152 casos, o que representa 48,10% do total. Em 11,08%, as mortes foram em perĂ­odo diurno e, em 129 casos (40,82%), o perĂ­odo nĂŁo foi identificado. “Esse dado indica a relevĂąncia das prĂĄticas profissionais – como a prostituição –, culturais e de lazer da população LGBTQIA+ realizadas no perĂ­odo da noite, o que demanda maior atenção do Poder PĂșblico na garantia da segurança desse grupo em situação de vulnerabilidade”, ressaltou o dossiĂȘ.

As regiĂ”es Nordeste e Sudeste tiveram 116 e 103 mortes violentas, respectivamente. As demais regiĂ”es ficaram em torno de 30 mortes cada uma: 36 no Centro-Oeste, 32 no Norte e 28 no Sul. Os estados que apresentaram maior nĂșmero de mortes foram SĂŁo Paulo (42), Bahia (30), Minas Gerais (27) e Rio de Janeiro (26), os quatro estados mais populosos do Brasil.

SuicĂ­dio

O levantamento revelou que o maior nĂșmero de casos de suicĂ­dio ocorreu entre travestis e mulheres trans, com 38,46% dos casos (10 pessoas), e homens gays, com 30,77% do total (8). Em seguida, estĂŁo os homens trans e as pessoas de outros segmentos, com dois casos cada.

De acordo com as entidades que elaboraram o dossiĂȘ, o resultado “evidencia possĂ­veis danos causados pela LGBTIfobia estrutural, que impacta significativamente a saĂșde mental das pessoas, podendo levar a intenso sofrimento ou mesmo Ă  retirada da prĂłpria vida por pessoas em situação de vulnerabilidade”.

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