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29 junho 2022 10:37 am
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Servidor desaparecido na Amazônia treinava indígenas para uso de drones

Bruno da Cunha de Araújo Pereira desapareceu com o jornalista britânico Dom Phillips quando os dois estavam viajando a trabalho pela região

POR G1

Antes de desaparecer na Amazônia, o indigenista e servidor da Funai (Fundação Nacional do Índio) Bruno da Cunha de Araújo Pereira fazia um trabalho de treinar e equipar os indígenas da Terra Indígena Vale do Javari para defenderem seu território. Ele desapareceu no domingo (5/6) com o jornalista britânico Dom Phillips quando os dois estavam viajando a trabalho pela região.

Licenciado de seu trabalho na Funai, Pereira é coordenador técnico do projeto Monitoramento Ambiental e Territorial da Terra Indígena do Vale do Javari, que treina os indígenas para uso de drones, mapas, computadores para fazer georreferenciamento e equipamentos de radiofonia.

A ideia do projeto é capacitar a vigilância indígena — que vinha sendo organizada pelas comunidades locais há três anos — para fazer monitoramento local e remoto de atividades criminosas na terra indígena com uso de tecnologia.

A terra indígena do Javari tem uma população estimada de 6,3 mil indígenas, mas dos 26 grupos diferentes — 19 são povos isolados.

Entre junho e dezembro de 2020, a União dos Povos Indígenas do Parque do Javari (Univaja) contou com a parceria técnica da WWF-Brasil para o projeto — a entidade doou R$ 58 mil para compra dos equipamentos, contratação de instrutores e tradutores.

O uso dos equipamentos permite o registro dos crimes, provas que depois podem ser enviadas ao Ministério Público e usadas para denunciar os delitos à Justiça. A ideia é justamente evitar conflitos violentos e fazer com que o enfrentamento direto seja feito pelas autoridades e não pelos próprios indígenas.

No ano passado, Pereira afirmou à WWF que o pessoal de vigilância já tinha identificado uma “grande quantidade de invasores.”

Drones são usados pelos indígenas para fazer o monitoramento — Foto: BRUNO ARAÚJO/UNIVAJA via BBC
Drones são usados pelos indígenas para fazer o monitoramento — Foto: BRUNO ARAÚJO/UNIVAJA via BBC

Situação ‘difícil’

“Eles estão fazendo várias denúncias sobre garimpo, caça e pesca ilegais. Muitas vezes apreendem os materiais e os infratores e os entregam às autoridades”, disse Pereira

“Trabalho lá há 11 anos e nunca vi uma situação tão difícil”, afirmou o indigenista no ano passado. “Os indígenas dizem que hoje a quantidade de invasões é comparável à do período anterior à demarcação (em 2001).”

Com 8,5 milhões de hectares, a Terra Indígena Vale do Javari é uma das maiores do Brasil e tem mais de 50 aldeias.

O indigenista disse à WWF que as invasões e chacinas na região vinham piorando nos últimos anos, com o enfraquecimento contínuo da vigilância pelo poder público.

“Não era assim há alguns anos”, disse Pereira em dezembro do ano passado. “Os invasores tinham medo dos índios e, especialmente, da Funai. Agora eles parecem se sentir mais à vontade, por conta da postura permissiva do poder público. Os indígenas querem enfrentar e não é fácil convencê-los a não entrar em conflito.”

Em 2019 e 2020, as bases da Funai na região sofreram diversos ataques. Em um deles, em Tabatinga em setembro de 2019, o colaborador Maxciel Pereira dos Santos foi assassinado a tiros. Ele trabalhava no combate à caça, pesca, garimpo e exploração madeireira ilegais no território e foi morto em frente à esposa e à enteada.

Até 2019, Pereira era coordenador-geral de Índios Isolados e de Recém Contatados, mas foi retirado do cargo após coordenar uma operação que expulsou centenas de garimpeiros da Terra Indígena Yanomami, em Roraima.

Colegas afirmaram ao repórter João Fellet, da BBC News Brasil, que, após se tirado do cargo, Pereira pediu licença da Funai para que pudesse continuar agindo em prol de indígenas num momento em que a fundação restringia drasticamente sua atuação em defesa das populações.

Buscas

Em nota à BBC, a Funai afirma que “acompanha o caso, está em contato com as forças de segurança que atuam na região e colabora com as buscas”. A Polícia Federal disse em comunicado que está trabalhando no caso. Informou ainda que duas testemunhas, cujos nomes não foram divulgados, foram ouvidas na segunda-feira.

O Ministério Público Federal diz ter acionado a Polícia Federal, a Força Nacional, a Polícia Civil, a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari e a Marinha do Brasil. O Comando Militar na Amazônia afirmou que iniciou uma operação de busca na região do município de Atalaia do Norte com uma equipe de combatentes de selva.

O governador do Estado do Amazonas, Wilson Lima, disse que determinou o envio de reforço policial especializado para a região de Atalaia do Norte para ajudar nas buscas.

O jornal The Guardian disse que “está muito preocupado” e buscando informações sobre o caso. “Estamos em contato com a embaixada britânica no Brasil e com autoridades locais e nacionais para tentar esclarecer os fatos assim que possível.”

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