“NĂŁo podemos considerar a pandemia superada”, diz pesquisadora da Fiocruz

Por CORREIO BRAZILIENSE 01/08/2022

VĂĄrios estados brasileiros flexibilizaram, nos Ășltimos meses, as medidas de prevenção contra a covid-19. Como consequĂȘncia, leva-se hoje no Brasil uma vida semelhante Ă  observada em tempos prĂ©-covid, sem uso de mĂĄscaras, com grandes aglomeraçÔes normalizadas — cenas que, hĂĄ um ano, seriam inimaginĂĄveis. Na contramĂŁo dessas decisĂ”es estĂĄ parte significativa dos cientistas brasileiros, como a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo.

“Nunca foi tĂŁo importante manter hĂĄbitos nĂŁo-farmacolĂłgicos. O uso de mĂĄscaras em locais fechados ainda Ă© muito relevante, porque as cepas hoje circulantes com predomĂ­nio tĂȘm escape vacinal”, salienta a mĂ©dica. Dalcolmo Ă© uma das mais respeitadas lideranças da ciĂȘncia atuantes no combate Ă  pandemia. Envolveu-se diuturnamente na missĂŁo de conscientizar a população brasileira sobre a prevenção Ă  covid-19 desde os primeiros dias, quando chegou, inclusive, a prestar consultoria tĂ©cnica ao entĂŁo ministro da SaĂșde, Luiz Henrique Mandetta.

A pesquisadora destaca que, apesar de a maior parte da população agir de maneira despreocupada, o Brasil ainda nĂŁo superou a pandemia e deve preocupar-se, principalmente, com a população infantil. “Os estudos nessa população realmente demoram. Eles sĂŁo mais complexos de serem feitos, do ponto de vista Ă©tico. Mas hoje nĂłs jĂĄ temos vacinas aprovadas no Brasil”, ressalta. “É muito estranho que as famĂ­lias tenham sido inoculadas com esse vĂ­rus do medo”, provoca a mĂ©dica.

O Brasil superou a pandemia, ou a gente ainda tem um caminho pela frente?

Nós ainda não podemos considerar a pandemia da covid-19 superada no Brasil por vårias razÔes. Primeiro, estamos diante de uma doença nova, com aparecimento de novas variantes. Hoje, praticamente hå uma variante ou uma subvariante que aparece a cada duas semanas. Algumas dessas, comoa cepa BA5, que predomina no Brasil, de alta transmissão e com o que chamamos de escape vacinal. Então, o uso de måscaras em locais fechados ainda é muito relevante. A segunda razão é que, a despeito de uma boa taxa de vacinação, não alcançamos com as doses de reforço, que são as terceira e quarta doses, um percentual realmente importante na população brasileira. Em terceiro lugar, precisamos urgentemente vacinar a população pediåtrica. A despeito de as vacinas terem se mostrado extremamente protetoras nas crianças, essa hesitação vacinal por parte de muitas famílias é muito grave e contraria uma tradição muito arraigada na nossa população, que é gostar e confiar nas vacinas.

Por que isso ocorre?

A população brasileira sempre aderiu de maneira muito saudĂĄvel Ă s vacinas oferecidas pelo SUS Ă s nossas crianças, de modo que considero muito importante que a imprensa e todos nĂłs, mĂ©dicos, nos manifestemos com veemĂȘncia, instando as famĂ­lias a levarem as suas crianças para serem vacinadas e que nĂŁo deem ouvidos a essa quantidade de notĂ­cias falaciosas que tĂȘm sido disseminadas contra as vacinas nas crianças, inclusive por alguns mĂ©dicos, o que eu considero um desserviço enorme Ă  nossa população jĂĄ tĂŁo sofrida e amedrontada.

Existe a chance de a gente ter alguma variante mais forte ainda das jĂĄ conhecidas?

A probabilidade Ă© pequena, porque as variantes e subvariantes nĂŁo tĂȘm, atĂ© o momento, demonstrado uma mortalidade maior. E, se alguĂ©m duvidava do efeito protetor contra formas graves, hospitalizaçÔes e mortes pela covid-19 por força da aplicação das vacinas, essa dĂșvida caiu por terra. Os dados falam por si. A curva de diminuição Ă© tĂŁo dramĂĄtica, os hospitais se esvaziaram, o nĂșmero de mortes que jĂĄ chegou a mais de 3 mil pessoas por dia, diminuiu muito, embora ainda seja um nĂșmero relevante, porque cada vida humana conta. Quem estĂĄ internado hoje ou, eventualmente, morrendo ou sĂŁo pessoas nĂŁo vacinadas, ou portadoras de uma condição clĂ­nica muito desfavorĂĄvel do ponto de vista imunolĂłgico.

Muitos pais ficaram com medo de vacinar as crianças alegando que os estudos não eram conclusivos, que não se sabia exatamente os efeitos da vacina. Ao mesmo tempo, não se sabe exatamente quais são os efeitos, a longo prazo, da covid nas crianças.

O Brasil teve um dos piores desempenhos e uma das mais altas letalidades pela covid-19 em população pediĂĄtrica. NĂłs tivemos quase 3 mil Ăłbitos em crianças abaixo de cinco anos de idade, o que Ă© absolutamente impressionante. As crianças precisam ser protegidas pelas vacinas. Os estudos nessa população realmente demoram. Eles sĂŁo mais complexos de serem feitos, do ponto de vista Ă©tico, mas jĂĄ temos vacinas aprovadas no Brasil, tanto a da Pfizer quanto recentemente a Corona Vac para a população entre 3 e 5 anos de idade. É muito estranho que essas famĂ­lias tenham sido inoculadas com esse vĂ­rus do medo, diante de uma um programa de vacinação tĂŁo incorporado Ă  nossa cultura. Eu nunca vi pais e mĂŁes se perguntarem o que tinha numa vacina chamada pentavalente, que a gente aplica nos bebĂȘs abaixo de um ano de idade. EntĂŁo, Ă© um desserviço atribuir Ă s vacinas efeitos nocivos que absolutamente elas nĂŁo tĂȘm. O que nĂŁo sabemos atĂ© agora, isso sim, Ă© quais serĂŁo os efeitos a mĂ©dio e longo prazos que a covid-19 poderĂĄ causar nessa população pediĂĄtrica, como jĂĄ sabemos que ela causa na população adulta, por exemplo, com a chamada sĂ­ndrome da covid longa. Hoje, o maior desafio da medicina Ă© lidar com essas pessoas que precisam de reabilitação, muitas vezes complexa, para ganharem de volta o mĂ­nimo de normalidade em suas vidas.

Os efeitos neurolĂłgicos ainda estĂŁo sendo estudados.

NeurolĂłgicos, respiratĂłrios, cardiovasculares e, inclusive, psiquiĂĄtricos. O nĂșmero de pessoas que precisam de assistĂȘncia psicolĂłgica e psiquiĂĄtrica pelo trauma de terem ficado internados por um longo tempo, em confinamento, Ă© grande. O vĂ­rus afeta o sistema nervoso central, o que pode ocasionar mudança de comportamento, um quadro neurolĂłgico prolongado, neuropatias perifĂ©ricas prolongadas. Tudo isso sĂŁo efeitos que hoje nĂłs estamos lidando nos serviços de reabilitação pĂłs-covid.

Esses efeitos ainda serão sentidos por décadas?

Não podemos dizer por quanto tempo, nem se eles serão indeléveis. Não sabemos, porque ainda não temos o necessårio recuo histórico para essa anålise. Então, só o tempo dirå se eles são indeléveis ou temporårios.

Apesar dos constantes cortes na saĂșde pĂșblica, o SUS foi essencial para o combate da pandemia. Como a senhora vĂȘ a falta de valorização da saĂșde no paĂ­s?

Em 13 de março de 2020, dei minha primeira entrevista pĂșblica e, naquele momento, disse, convicta, que nĂłs tĂ­nhamos duas armas para enfrentar a tsunami que estava chegando ao Brasil. A primeira e mais nobre delas era o SUS. Sem o SUS, a tragĂ©dia teria sido muito maior. A segunda seria o distanciamento fĂ­sico e social, que era uma arma absolutamente fundamental em se tratando de uma virose aguda de transmissĂŁo respiratĂłria. Por conta de todas as fragilidades, subfinanciamento, carĂȘncia de recursos humanos, enfim, tivemos uma operacionalização que muitas vezes deixou a desejar. Mas, sem o SUS, a tragĂ©dia teria sido muito pior.

Houve falta de sincronia entre o poder pĂșblico e as demandas de saĂșde? Porque a gente viu atraso na vacinação, diversos percalços que parecem uma certa negligĂȘncia…

Desde o inĂ­cio, ficou claro que, contra esse tipo de doença, com alta capacidade de transmissĂŁo, a arma seriam as vacinas, porque virose aguda se resolve com vacina, tradicionalmente. E o Brasil viveu um paradoxo. Foi o paĂ­s que desenvolveu estudos de fase trĂȘs para vacinas de grande qualidade, como foi com a CoronaVac, com a Pfizer, com a Janssen e com a AstraZeneca. Foi o paĂ­s que mais colocou voluntĂĄrios nos estudos de fase trĂȘs, e viveu a contradição de ter um embate entre uma retĂłrica paradoxal de algumas autoridades e a necessidade Ăłbvia de vacinar a população. NĂłs poderĂ­amos ter começado a vacinar antes do que efetivamente começamos. Esse embate retĂłrico entre a ciĂȘncia brasileira e o discurso oficial, sem dĂșvida, nĂŁo foi positivo no resultado.

A Procuradoria Geral da RepĂșblica desqualificou as investigaçÔes da CPI da covid. NĂŁo houve responsabilização. Por que a saĂșde segue sendo negligenciada, mesmo com todas as evidĂȘncias?

Eu nĂŁo sei se nĂŁo haverĂĄ responsabilização. Sem dĂșvida nenhuma, caberĂĄ Ă  sociedade brasileira ter a consciĂȘncia cĂ­vica do que Ă© necessĂĄrio e reivindicar da maneira adequada. Politicamente, eu nĂŁo saberia dizer em que isso vai resultar. Agora, sem dĂșvida nenhuma, mais do que a responsabilização retrĂłgrada daquilo que nĂŁo aconteceu, temos que ter um olhar pra frente. É como conduzir o problema daqui pra frente num momento difĂ­cil, num ano eleitoral. Onde as tensĂ”es obviamente tendem a se acirrar, e nĂłs precisamos ter a serenidade, a eficiĂȘncia que os serviços de saĂșde naturalmente exigem nesse momento.

O debate eleitoral tem se concentrado na economia. Aparentemente, a saĂșde pĂșblica estĂĄ relegada a segundo plano.

O que Ă© um equĂ­voco, porque saĂșde pĂșblica e economia sĂŁo basicamente a mesma coisa. Quando vocĂȘ investe em saĂșde vocĂȘ estĂĄ fazendo um investimento nobre em economia, porque as pessoas adoecerem menos nas fases mais produtivas de suas vidas, trabalharem, produzirem, estudarem, produzirem conhecimento tĂ©cnico e cientĂ­fico, Ă© absolutamente fundamental. O equĂ­voco estĂĄ na maneira de olhar. Investir em saĂșde e educação nĂŁo Ă© gastar. É olhar o dia de amanhĂŁ, o futuro do paĂ­s, as novas geraçÔes.

Eu acho que o Brasil estĂĄ vivendo um momento extremamente dramĂĄtico, com vĂĄrias contradiçÔes. Uma população que envelhece. NĂłs hoje temos uma população acima de 60 anos no Brasil que jĂĄ representa um nĂșmero muito importante. NĂłs precisamos cuidar dessas pessoas, ter uma visĂŁo para as doenças crĂŽnicas que comprometem as pessoas de mais idade. Inseri-las socialmente de uma maneira adequada. Isso exige uma saĂșde pĂșblica muito bem conduzida e com muita eficiĂȘncia. Outras questĂ”es fundamentais, como saneamento bĂĄsico, estĂŁo diretamente relacionadas Ă  economia. EntĂŁo, olhar isso de maneira dicotomizada nĂŁo me parece correto.

Por quanto tempo o Brasil precisarå de reforço na vacinação contra a covid-19? E por quanto tempo a doença permanecerå nas nossas vidas?

SĂŁo duas questĂ”es aĂ­. Primeiro, haverĂĄ, sem dĂșvida, uma nova leva de vacinas de segunda geração. Algumas jĂĄ estĂŁo sendo fabricadas com a proteĂ­na spike, da cepa Omicron, e nĂŁo mais com as cepas originais, com a qual foram formuladas todas as vacinas que nĂłs usamos atĂ© o momento. Acho que nĂłs ainda precisaremos receber uma dose, pelo menos, de vacina, com as vacinas de segunda geração quando forem liberadas. O vĂ­rus SARS-CoV-2 nĂŁo deve desaparecer das nossas vidas, ele deverĂĄ permanecer num comportamento epidemiolĂłgico endĂȘmico. Ou seja, vamos ter casos de vez em quando. O vĂ­rus jĂĄ faz parte do diagnĂłstico diferencial das viroses respiratĂłrias.

A senhora participou, na semana passada, do encontro da SBPC na UnB. Como estĂĄ a situação da ciĂȘncia no Brasil?

Nunca foi tĂŁo necessĂĄrio que governantes e autoridades se sensibilizassem para o fato de que investimento em ciĂȘncia, tecnologia e inovação Ă© um investimento mais nobre. Enquanto isso for equivocadamente olhado como gasto, e nĂŁo como um olhar para o nosso amanhĂŁ, estaremos perdurando no que eu chamaria de um erro de visĂŁo de paĂ­s. Foi muito simbĂłlica essa SBPC presencial realizada nas dependĂȘncias da UnB nesse momento. Acho que, para a universidade, que jĂĄ sofreu tanto nas Ășltimas dĂ©cadas, no Brasil, isso representa muito. Espero que essas discussĂ”es possam aumentar o nĂ­vel de consciĂȘncia dos jovens ali presentes.

A OMS definiu como preocupante o avanço da varíola dos macacos no Brasil. Como estå a doença no mundo?

É um outro nĂ­vel, outra doença. Mas de qualquer maneira, acho que a OMS fez um alerta correto e oportuno. Hoje, alguns paĂ­ses se ressentem de nĂŁo ter mantido estoques adequados de vacinas, como nĂŁo temos quantidades suficiente se precisarmos de uma vacinação em maior Ăąmbito, de algumas populaçÔes ou grupos de risco. Acho que nĂłs precisaremos, sim, vacinar alguns grupos de população com a vacina da varĂ­ola, e o Brasil seguramente Ă© um paĂ­s que tem condiçÔes pra fabricas a vacina. Isso depende de vencer alguns entraves tĂ©cnicos, como, por exemplo, ter o vĂ­rus original para que a vacina seja produzida. O Butantan e a Fiocruz sĂŁo instituiçÔes pĂșblicas perfeitamente qualificadas para fabricar a vacina da varĂ­ola.

Quais são os principais sintomas dessa doença pouco conhecida no Brasil? Que cuidados devem ser adotados?

SĂŁo sintomas de uma de uma doença geral. Ela chama a atenção quando existe a suspeita epidemiolĂłgica de que tenha havido contato com alguĂ©m sabidamente doente. Quem teve contato deve ser observado, antes mesmo do aparecimento das lesĂ”es cutĂąneas. Como o perĂ­odo de incubação Ă© relativamente longo, de trĂȘs a quatro semanas, a pessoa tem que saber se teve contato com alguĂ©m doente ou esteve num ambiente onde houve outros casos. O diagnĂłstico precoce vai levar ao isolamento. O isolamento deve ser de quatro semanas, que Ă© o perĂ­odo em que podem aparecer lesĂ”es cutĂąneas, que sĂŁo altamente contagiosas. A maior parte dos casos nĂŁo tem sido grave, sĂŁo muito poucas mortes atĂ© o momento. É uma doença que, eventualmente, pode ser controlada por vacina, se aumentar o nĂșmero de casos ou declarada essa necessidade.

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