Está lá nas páginas da Revista El Gráfico, da Argentina: 9 de abril de 1979, segunda-feira. No famoso edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace, Diego Maradona é recebido por Pelé. Foi o primeiro encontro dos dois maiores jogadores de futebol de todos os tempos. E houve a participação direta do duelo Flamengo x Atlético-MG, que se repete neste sábado, no Maracanã, no mês de aniversário dos gênios da bola.
O clássico confronto, que já definiu títulos nacionais e com polêmicas, teve um capítulo inicial da rivalidade justamente no dia que o Rei foi convocado a jogar pelo Flamengo em amistoso beneficente contra o Galo. Para um Maracanã de 140 mil pagantes, em 6 de abril de 79, o Flamengo goleou o Atlético por 5 a 1.
E graças ao jogo Flamengo x Atlético, cuja renda foi destinada a famílias vítimas de enchente, o compromissado Edson Arantes do Nascimento precisou reservar a estadia mais alongada no Rio de Janeiro em sua agenda, que era abarrotada de compromissos em Santos mas, principalmente, em Nova York. Pelé havia se aposentado do futebol em 1977, em jogo de despedida Santos x Cosmos.
Diego Maradona, então com 18 anos, foi um dos vários telespectadores do duelo. Assistiu à partida transmitida para a TV argentina naquela sexta-feira. E chegou a comentar o fato diretamente para Pelé, no encontro inicial regado a conselhos do velho Rei, e também ao som do seu violão. A reunião terminou com Maradona ganhando a medalha que Pelé recebeu do Cosmos na sua despedida.
“Muito obrigado, eu vou levá-lo toda a minha vida. Eu assisti ao seu jogo na sexta-feira na TV, e juro que estava muito animado. Meu desejo de conhecê-lo aumentou” (disse Maradona a Pelé, se referindo ao Flamengo x Galo de 79)
“El Diez” já era a estrela do Argentinos Juniors, e o jogador mais valorizado do futebol argentino recém-campeão do mundo em 1978. Dieguito foi cortado por César Luis Menotti na lista final da seleção, e perdeu o Mundial. “Conhecer Pelé foi como a Copa que não tive”, disse Maradona, ao Gráfico.
O jornal da Argentina foi quem armou o encontro. Menotti, curiosamente, havia sido companheiro de Pelé no Santos em 1969. E foi o treinador do Huracán no amistoso do Peixe em 1973, o último jogo de Pelé em terras argentinas. Adivinhe quem estava no Parque Patrícios? Maradona.
O mesmo Huracán havia sido o adversário do Argentinos Juniors de Diego em 8 de abril, véspera do encontro com Pelé. El Bicho venceu por 3 a 1 em sua casa. Maradona precisou driblar o presidente do Argentinos, já que saiu da partida e foi direto para o Aeroporto de Ezeiza no domingo à noite, para desembarcar no Rio, e amanhecer pronto para encontrar Pelé.
“Nós, que gostamos de futebol, queremos ver jogadores excelentes, e temos que deixar Maradona ser Maradona, não o compare com nada. Ele mostrará o lindo futebol que tem” – disse Pelé, em Buenos Aires, no mesmo 1979
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Página do jornal O Globo após o duelo Flamengo (e Pelé) x Atlético em 1979 — Foto: Reprodução/O Globo
Esta história da reunião dos mágicos camisas 10, com 20 anos de diferença, foi retratada na série “Maradona: em busca de um sonho”, com o ator Douglas Silva no papel de Pelé. As cenas reproduzem alguns conselhos do Rei para o jovem Diego.
– Eu sabia que ele era um deus como jogador, agora sei que também é como pessoa. Ele não é Pelé à toa. Quantos meninos como eu queriam vê-lo, tocá-lo, trocar um par de palavras, e eu tive o privilégio de que até tenha me dado conselhos. Eu vi que Pelé vinha em minha direção e não podia acreditar – afirmou Maradona.
A relação de Pelé e Maradona com Atlético e Flamengo têm outros capítulos. Ainda em 1979, por exemplo, Maradona atuou com a seleção argentina na Copa América, e enfrentou o Brasil de Zico no Maracanã. Ambos posaram para fotos. Na despedida de Paulo César Carpegiani do futebol, como jogador do Flamengo, houve um amistoso com o Boca Juniors no Rio.
Zico e Maradona em Flamengo 2×0 Boca de 1981 — Foto: O Globo
Em 1985, Maradona voltou ao Maracanã para participar de outro jogo festivo, diante do retorno de Zico ao Flamengo após passagem pela Udinese (onde foi rival do 10 argentino que defendia o Napoli). Em 1991, o Fla enfrentou o Boca na Bombonera pela Libertadores, e os jogadores entraram com a seguinte faixa: “Maradona, Flamengo te ama”, como solidariedade à punição imposta pela Fifa ao jogador, pelo doping de cocaína no mesmo ano.
Já com o Atlético, Maradona não teve tantos capítulos. O Galo chegou a utilizar a imagem do jogador em um short no jogo contra o Botafogo, em 2020, logo após a morte de Diego. Além disso, Maradona ganhou a camisa 10 de Ronaldinho usada em 2013, quando esteve presente no Mineirão para assistir ao jogo Argentina 1×0 Irã na Copa do Mundo de 2014.
Em relação a Pelé, o Rei do Futebol chegou a se declarar torcedor do Atlético na infância, em entrevista para a Revista Placar de 1999, já que seu pai, Dondinho, atuou em um amistoso pelo Galo em 1940, alguns meses antes de Pelé nascer em Três Corações.
Ao longo de 40 anos de relacionamento, com rixas, Pelé e Maradona foram da amizade para a inimizade, oscilando entre um lado e outro, com mais momentos de ternura e respeito mútuo até a morte do argentino, em 25 de novembro de 2020. Já o clássico Atlético x Flamengo passou a ser em clima de rivalidade acirrada na década de 1980, e, mais recentemente, na disputa da Supercopa do Brasil e oitavas de final da Copa do Brasil de 2022.
Atlético jogou contra o Botafogo estampando rosto de Maradona (falecido no mesmo dia) no calção — Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

