Apesar dos avanços na defesa dos direitos das mulheres, a violĂȘncia ainda Ă© um grave problema social. Segundo dados do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica (FBSP), em seu Ășltimo anuĂĄrio divulgado em 2022, no Acre, 231,7 mulheres foram vĂtimas de violĂȘncia fĂsica praticada no Ăąmbito familiar em 2021, nĂșmero acima da mĂ©dia nacional. AlĂ©m disso, a taxa de feminicĂdio marcou 2,9 mil casos no mesmo ano, nĂșmero alto em relação Ă mĂ©dia do paĂs, que Ă© de 1,3 mil.Â
AlĂ©m dos altos Ăndices de feminicĂdios no Acre, o maior do paĂs, o documento tambĂ©m apresenta dados de homicĂdios contra a mulher, casos que, de acordo com a Lei n° 13.104/2015, nĂŁo sĂŁo considerados feminicĂdio por nĂŁo apresentar violĂȘncia domĂ©stica e familiar, discriminação Ă condição a mulher e menosprezo. Segundo esses dados, houve 6,4 mil casos de homicĂdios de mulheres em 2021 no territĂłrio acreano.Â
A procuradora de justiça do Acre, PatrĂcia RĂȘgo, destaca que Ă© preciso desconstruir o machismo estrutural, combater a desigualdade de gĂȘnero e desnaturalizar essa violĂȘncia, por meio de polĂticas pĂșblicas, em educação, saĂșde, assistĂȘncia social e segurança pĂșblica.
Tipos de violĂȘncia contra a mulher
Configura-se violĂȘncia contra a mulher atos das mais diversas naturezas, em que, por vezes, a vĂtima nĂŁo percebe que estĂĄ vivenciando um ciclo de agressĂ”es. A violĂȘncia fĂsica Ă© qualquer conduta que ofenda a integridade corporal ou a saĂșde da mulher. As violĂȘncias domĂ©stica, familiar e psicolĂłgica sĂŁo aquelas que causam danos emocionais e baixa autoestima, prejudicando e atrapalhando o pleno desenvolvimento da mulher, degradando-a e controlando suas açÔes, comportamentos, crenças e decisĂ”es.
Existe ainda a violĂȘncia sexual, que se trata de qualquer conduta que haja constrangimento e seja difĂcil de manter, presenciar ou participar da relação sexual mediante a intimidação, ameaça, coação ou uso da força. AlĂ©m disso, o estupro que consiste em obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causem desconforto ou repulsa e/ou impeçam o uso de mĂ©todos contraceptivos e outros, tambĂ©m Ă© uma forma de violĂȘncia sexual.
Por outro lado, a violĂȘncia patrimonial Ă© entendida como uma conduta que configura retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econĂŽmicos. JĂĄ a violĂȘncia moral Ă© considerada qualquer conduta que configure calĂșnia, difamação ou injĂșria, tais como: acusar a mulher de traição; fazer crĂticas mentirosas; expor a vida Ăntima; rebaixar a mulher por meio de xingamentos e/ou desvalorizar a maneira como se vestem.
Os abusos contra a mulher ocorrem de diversas formas, nas mais diversas esferas, seja em local pĂșblico ou privado. Ouvir frases como: âusa roupa curta porque querâ, âlugar de mulher Ă© na cozinhaâ e âbatom vermelho Ă© coisa de vagabundaâ, sĂŁo representaçÔes cotidianas que se repetem em um looping sem fim, sem deixar de ser um estereĂłtipo de gĂȘnero e uma mentalidade limitada que precisa ser combatida.
Proteção e DenĂșncias
Um dos meios utilizados para apoiar a vĂtima Ă© a Central de Atendimento Ă Mulher (disque 180), um serviço 24h criado para combater a violĂȘncia contra a mulher, alĂ©m de orientar e encaminhar as vĂtimas para os serviços especializados da rede de atendimento, sendo possĂvel tambĂ©m, se informar sobre os direitos da mulher, registrar denĂșncias, informaçÔes sobre leis e campanhas, e a rede de atendimento e acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade.

Foto: Divulgação
O MinistĂ©rio PĂșblico do Acre (MPAC) presta atendimento humanizado Ă s vĂtimas de violĂȘncia domĂ©stica e familiar contra a mulher por meio do Centro de Atendimento Ă VĂtima (CAV), atravĂ©s do WhatsApp (68) 99993-4701 e o aplicativo BotĂŁo da Vida. O atendimento Ă© realizado por uma equipe interdisciplinar, formada por profissionais das ĂĄreas de Enfermagem, Psicologia, Serviço Social e Direito. O processo inicia-se quando a vĂtima procura o CAV, ou Ă© por ele identificada, e termina quando o processo penal Ă© concluĂdo e a vĂtima recebe os benefĂcios da reparação civil, enfrenta conscientemente o trauma psicolĂłgico e Ă© reinserida socialmente.
O CAV Ă© um ĂłrgĂŁo auxiliar do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre, criado a partir de um projeto de Lei n° 65/2015, que cria o Ato Nacional dos Direitos das VĂtimas de Crimes, responsĂĄvel por atender, acompanhar e acolher vĂtimas de tentativa de feminicĂdio, de violĂȘncia sexual, domĂ©stica e familiar contra mulheres maiores de 18 anos de idade, quanto seus familiares por meio de uma equipe multidisciplinar.

Foto: Reprodução
PatrĂcia RĂȘgo explica que âa vĂtima tem direito Ă informação, a uma rede de proteção, ter conhecimento das etapas, ser informada do processo do rĂ©u. Ela tem que ser ouvida adequadamente nesse processo, em todas as etapas, em todos os locais perante as autoridades pĂșblicas em que ela se apresentar, ela nĂŁo pode ser revitimizadaâ.
As portas de entrada do Centro de Atendimento Ă VĂtima (CAV) se dĂŁo por busca ativa, quando o caso toma conhecimento atravĂ©s de jornais, redes sociais ou etc. A equipe multidisciplinar vai ao encontro das vĂtimas por busca espontĂąnea, quando a prĂłpria vĂtima ou familiares procuram o centro para atendimento e encaminhamentos internos (Setores do MPAC) ou externos(Sistema de Justiça, Rede de Atendimento, Sociedade Civil e etc.).
AlĂ©m do 180, hĂĄ outros canais possĂveis para denĂșncias, como ir diretamente Ă Delegacia Especial de Atendimento Ă Mulher (Deam) para registrar um boletim de ocorrĂȘncia ou ligar para o telefone (68) 3224-6496, assim como, realizar a denĂșncia por meio do aplicativo Direitos Humanos Brasil e na pĂĄgina da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), MinistĂ©rio da Mulher, da FamĂlia e dos Direitos Humanos (MMFDH). O atendimento tambĂ©m pode ser feito atravĂ©s do Telegram e/ou pelo Provita, programa Federal que visa proteger vĂtimas e testemunhas de crimes, retirando-as do local e alocando-as em outro estado.
A Secretaria de Estado de AssistĂȘncia Social da Mulher e dos Direitos Humanos (SEAMD), tem açÔes planejadas para os primeiros 100 dias de 2023, com o objetivo de fortalecer institucionalmente as polĂticas de mulheres e autonomia econĂŽmica e de enfrentamento Ă violĂȘncia contra a mulher e ao feminicĂdio. AlĂ©m de contar com um fluxo de Serviços Especializados de Atendimento Ă Mulher em Situação de ViolĂȘncia em Rio Branco como a Vara da ViolĂȘncia, 13° Promotoria, NĂșcleo da Mulher/DPE e o Centro Especializado de Atendimento Ă Mulher Casa Rosa Mulher (CEAM Casa Rosa Mulher).

