No Acre, mais de 200 mulheres foram vĂ­timas de violĂȘncia domĂ©stica em um ano

Por MIRLANY SILVA, PARA O CONTILNET 20/01/2023

Apesar dos avanços na defesa dos direitos das mulheres, a violĂȘncia ainda Ă© um grave problema social. Segundo dados do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica (FBSP), em seu Ășltimo anuĂĄrio divulgado em 2022, no Acre, 231,7 mulheres foram vĂ­timas de violĂȘncia fĂ­sica praticada no Ăąmbito familiar em 2021, nĂșmero acima da mĂ©dia nacional. AlĂ©m disso, a taxa de feminicĂ­dio marcou 2,9 mil casos no mesmo ano, nĂșmero alto em relação Ă  mĂ©dia do paĂ­s, que Ă© de 1,3 mil. 

AlĂ©m dos altos Ă­ndices de feminicĂ­dios no Acre, o maior do paĂ­s, o documento tambĂ©m apresenta dados de homicĂ­dios contra a mulher, casos que, de acordo com a Lei n° 13.104/2015, nĂŁo sĂŁo considerados feminicĂ­dio por nĂŁo apresentar violĂȘncia domĂ©stica e familiar, discriminação Ă  condição a mulher e menosprezo. Segundo esses dados, houve 6,4 mil casos de homicĂ­dios de mulheres em 2021 no territĂłrio acreano. 

A procuradora de justiça do Acre, PatrĂ­cia RĂȘgo, destaca que Ă© preciso desconstruir o machismo estrutural, combater a desigualdade de gĂȘnero e desnaturalizar essa violĂȘncia, por meio de polĂ­ticas pĂșblicas, em educação, saĂșde, assistĂȘncia social e segurança pĂșblica.

Tipos de violĂȘncia contra a mulher

Configura-se violĂȘncia contra a mulher atos das mais diversas naturezas, em que, por vezes, a vĂ­tima nĂŁo percebe que estĂĄ vivenciando um ciclo de agressĂ”es. A violĂȘncia fĂ­sica Ă© qualquer conduta que ofenda a integridade corporal ou a saĂșde da mulher. As violĂȘncias domĂ©stica, familiar e psicolĂłgica sĂŁo aquelas que causam danos emocionais e baixa autoestima, prejudicando e atrapalhando o pleno desenvolvimento da mulher, degradando-a e controlando suas açÔes, comportamentos, crenças e decisĂ”es.

Existe ainda a violĂȘncia sexual, que se trata de qualquer conduta que haja constrangimento e seja difĂ­cil de manter, presenciar ou participar da relação sexual mediante a intimidação, ameaça, coação ou uso da força. AlĂ©m disso, o estupro que consiste em obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causem desconforto ou repulsa e/ou impeçam o uso de mĂ©todos contraceptivos e outros, tambĂ©m Ă© uma forma de violĂȘncia sexual.

Por outro lado, a violĂȘncia patrimonial Ă© entendida como uma conduta que configura retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econĂŽmicos. JĂĄ a violĂȘncia moral Ă© considerada qualquer conduta que configure calĂșnia, difamação ou injĂșria, tais como: acusar a mulher de traição; fazer crĂ­ticas mentirosas; expor a vida Ă­ntima; rebaixar a mulher por meio de xingamentos e/ou desvalorizar a maneira como se vestem.

Os abusos contra a mulher ocorrem de diversas formas, nas mais diversas esferas, seja em local pĂșblico ou privado. Ouvir frases como: “usa roupa curta porque quer”, “lugar de mulher Ă© na cozinha” e “batom vermelho Ă© coisa de vagabunda”, sĂŁo representaçÔes cotidianas que se repetem em um looping sem fim, sem deixar de ser um estereĂłtipo de gĂȘnero e uma mentalidade limitada que precisa ser combatida.

Proteção e DenĂșncias

Um dos meios utilizados para apoiar a vĂ­tima Ă© a Central de Atendimento Ă  Mulher (disque 180), um serviço 24h criado para combater a violĂȘncia contra a mulher, alĂ©m de orientar e encaminhar as vĂ­timas para os serviços especializados da rede de atendimento, sendo possĂ­vel tambĂ©m, se informar sobre os direitos da mulher, registrar denĂșncias, informaçÔes sobre leis e campanhas, e a rede de atendimento e acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade.

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Foto: Divulgação

O MinistĂ©rio PĂșblico do Acre (MPAC) presta atendimento humanizado Ă s vĂ­timas de violĂȘncia domĂ©stica e familiar contra a mulher por meio do Centro de Atendimento Ă  VĂ­tima (CAV), atravĂ©s do WhatsApp (68) 99993-4701 e o aplicativo BotĂŁo da Vida. O atendimento Ă© realizado por uma equipe interdisciplinar, formada por profissionais das ĂĄreas de Enfermagem, Psicologia, Serviço Social e Direito. O processo inicia-se quando a vĂ­tima procura o CAV, ou Ă© por ele identificada, e termina quando o processo penal Ă© concluĂ­do e a vĂ­tima recebe os benefĂ­cios da reparação civil, enfrenta conscientemente o trauma psicolĂłgico e Ă© reinserida socialmente.

O CAV Ă© um ĂłrgĂŁo auxiliar do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre, criado a partir de um projeto de Lei n° 65/2015, que cria o Ato Nacional dos Direitos das VĂ­timas de Crimes, responsĂĄvel por atender, acompanhar e acolher vĂ­timas de tentativa de feminicĂ­dio, de violĂȘncia sexual, domĂ©stica e familiar contra mulheres maiores de 18 anos de idade, quanto seus familiares por meio de uma equipe multidisciplinar.

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Foto: Reprodução

PatrĂ­cia RĂȘgo explica que “a vĂ­tima tem direito Ă  informação, a uma rede de proteção, ter conhecimento das etapas, ser informada do processo do rĂ©u. Ela tem que ser ouvida adequadamente nesse processo, em todas as etapas, em todos os locais perante as autoridades pĂșblicas em que ela se apresentar, ela nĂŁo pode ser revitimizada”.

As portas de entrada do Centro de Atendimento à Vítima (CAV) se dão por busca ativa, quando o caso toma conhecimento através de jornais, redes sociais ou etc. A equipe multidisciplinar vai ao encontro das vítimas por busca espontùnea, quando a própria vítima ou familiares procuram o centro para atendimento e encaminhamentos internos (Setores do MPAC) ou externos(Sistema de Justiça, Rede de Atendimento, Sociedade Civil e etc.).

AlĂ©m do 180, hĂĄ outros canais possĂ­veis para denĂșncias, como ir diretamente Ă  Delegacia Especial de Atendimento Ă  Mulher (Deam) para registrar um boletim de ocorrĂȘncia ou ligar para o telefone (68) 3224-6496, assim como, realizar a denĂșncia por meio do aplicativo Direitos Humanos Brasil e na pĂĄgina da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), MinistĂ©rio da Mulher, da FamĂ­lia e dos Direitos Humanos (MMFDH). O atendimento tambĂ©m pode ser feito atravĂ©s do Telegram e/ou pelo Provita, programa Federal que visa proteger vĂ­timas e testemunhas de crimes, retirando-as do local e alocando-as em outro estado.

A Secretaria de Estado de AssistĂȘncia Social da Mulher e dos Direitos Humanos (SEAMD), tem açÔes planejadas para os primeiros 100 dias de 2023, com o objetivo de fortalecer institucionalmente as polĂ­ticas de mulheres e autonomia econĂŽmica e de enfrentamento Ă  violĂȘncia contra a mulher e ao feminicĂ­dio. AlĂ©m de contar com um fluxo de Serviços Especializados de Atendimento Ă  Mulher em Situação de ViolĂȘncia em Rio Branco como a Vara da ViolĂȘncia, 13° Promotoria, NĂșcleo da Mulher/DPE e o Centro Especializado de Atendimento Ă  Mulher Casa Rosa Mulher (CEAM Casa Rosa Mulher).

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