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Brava Gente Acreana: relembre Pe. André Ficarelli, o construtor de igrejas

Por Emanoel Lacerda, ContilNet

Acreano de coração, o italiano Nicodemos Ficarelli chegou ao Brasil em 1949, desembarcando de navio no Rio de Janeiro. De lá, foi para São Paulo e então, em dois dias de voo num avião Douglas S3, chegou ao Acre.

Chegou aqui já como o Padre André Ficarelli. Antes disso era Nicodemos, filho de Armando Ficarelli e Laurinha Mourine Ciarreli. A família era de humildes agricultores, na Itália. Lá, viveu durante o período das Grandes Guerras Mundiais. Foi lá também que entrou para a Ordem dos Servos de Maria, passou por seminários e se formou em teologia pela Faculdade Mariano, em Roma. Antes da vinda para o Brasil, foi sacerdote em um hospital de São Peregrino, em 1948, em uma Europa que se recuperava dos horrores da guerra.

No livro Brava Gente Acreana, relembrou o início da missão da Igreja no estado do Acre. “O Acre tinha a missão de Servos de Maria. A Igreja Católica foi fundada pelos Servos de Maria, da Itália, a minha reiligão. E naquela época vinham muitos missionários para poder acompanhar o trabalho, porque a missão da Igreja no Acre começou, digamos, oficialmente, em 15 de agosto de 1920 com o Bispo Dom Próspero Bernardi, e o Frei Tiago Mattioli, muito conhecido aqui”, relatou Ficarelli.

Aqui, quando chegou, apesar de ainda não saber o idioma local, Ficarelli falava uma linguagem universal: a do trabalho. O Bispo Dom Júlio Mattioli, observando as qualidades do padre, o encaminhou para trabalhar em nada menos que a construção da Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco. O padre não só trabalhou na construção, como foi o responsável pela planta do projeto. “Fui eu que fiz a planta, porque a planta que estavam realizando me pareceu pequena, e pensando no futuro, e aqui sendo uma capital, eu achei pequena. Então eu fiz uma planta nova que é a atual, e o Bispo aceitou. As pessoas diziam: por que fazer uma igreja tão grande? As pessoas não viam o futuro”, conta Ficarelli no livro.

Sob sua tutela, ainda ficou outras várias construções da Igreja no Acre, como a construção do Colégio da Nossa Senhora das Dores, o atual Colégio Meta, o qual ele também foi o diretor. Em 1996, foi vítima de um atentado, quando um homem mentalmente debilitado tentou, com álcool e fogo, queimá-lo vivo durante uma atividade pastoral.

“Isso simplesmente mudou a minha vida completamente, porque de repente eu me encontrei no hospital, todo enfaixado, com dores tremendas. Depois do choque que tive ainda hoje eu sinto dores, então, isso de certa forma mudou a minha vida, porque depois disso não retornei porque ficaram sequelas. Vejo o meu corpo todo marcado pela queimadura, e me chocou também a maneira como o homem me assaltou atirando o álcool, sem motivo nenhum, eu nunca dei motivo.”

Apesar dos problemas enfrentados, como o isolamento na época e o governo dos militares, o Padre Ficarelli registrou seu amor pelo Acre inúmeras vezes, abraçando o idioma local e a cultura acreana. “Posso dizer que eu não me arrependi de ter vindo ao Acre, não me arrependi. Aprendi muito e me tornei muito mais, digamos, mais sensível à situação do povo, dos pobres, do sofrimento e a prática da justiça. Na Itália como é um país rico, desenvolvido, lá é cada um por si, aqui não, aqui tem muito mais fraternidade, solidariedade, e eu aprendi muitas coisas. Lá na Europa é cada um por si, por isso comecei apreciar o acreano. E eu hoje em dia realmente me sinto acreano, eu não pretendo voltar à Itália para morar.”

Ficarelli morreu em 3 de setembro de 2015, aos 93 anos, em solo acreano.

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