Dia da Mulher: 5 personagens que marcaram os jogos e precisam ser exaltadas

Por TECH TUDO 08/03/2023

Personagens mulheres estĂŁo cada vez mais presentes nos videogames. Na Ășltima dĂ©cada, Ă  luz do movimento feminista e com um maior questionamento sobre gĂȘnero no mundo, temos visto uma maior presença de mulheres no time de desenvolvimento de jogos e a ascensĂŁo de personagens femininas. Nomes como Ellie, Abby e Aloy, de The Last Of Us e Horizon Zero Dawn, respectivamente, sĂŁo exemplos de personagens que provam que estĂșdios estĂŁo desenvolvendo protagonistas opostas Ă  feminilidade passiva, hĂ©tero e padrĂŁo que atĂ© entĂŁo era marca da indĂșstria dos games.

Por mais que tenham estado sempre presentes nos jogos, historicamente, essas personagens tiveram representaçÔes marcadas pelo pouco desenvolvimento nos enredos, exercendo papéis de apoio para protagonistas homens. Mesmo quando ganharam destaque, elas ainda sofreram por caírem em estereótipos misóginos e com a sexualização de seus corpos. Hoje, felizmente, esse panorama começar a mudar. Pensando nisso, o TechTudo fez uma lista de cinco personagens mulheres que são exemplos em termos de representatividade e que precisam ser exaltadas.

Em The Last of Us Part II, Abby Ă© uma das protagonistas — Foto: Divulgação/Sony

Em The Last of Us Part II, Abby Ă© uma das protagonistas — Foto: Divulgação/Sony

A representação das personagens na história

As personagens femininas jĂĄ assumem papĂ©is nos games hĂĄ muito tempo. Historicamente falando, as primeiras apariçÔes surgiram ainda na dĂ©cada de 1980, como uma tentativa de atrair mais mulheres para trabalhar nessa indĂșstria. A pioneira foi a Ms. Pac Mac, uma “versĂŁo feminina” do icĂŽnico personagem que contava com batom e lacinho na cabeça.

Entre as humanas, Samus Aran, protagonista da sĂ©rie Metroid, foi o grande destaque do perĂ­odo. Vale ressaltar, no entanto, que escondida debaixo de uma armadura, houve muito mistĂ©rio atĂ© que sua identidade fosse revelada – o que tinha relação com o fato da protagonista do game ser uma mulher.

Samus Aran Ă© aprotagonista da sĂ©rie Metroid em todos os seus jogos, mas sua identidade foi mantida sob sigilo por um tempo — Foto: Divulgação/Nintendo

Samus Aran Ă© aprotagonista da sĂ©rie Metroid em todos os seus jogos, mas sua identidade foi mantida sob sigilo por um tempo — Foto: Divulgação/Nintendo

Mesmo com esse primeiro movimento, a presença das personagens continuou restrita com o passar das dĂ©cadas. Quando elas apareciam, na maioria das vezes, era a partir de estereĂłtipos de gĂȘnero, principalmente o de “donzela em perigo”. Esses eram os casos das princesas Peach, de Super Mario Bros. (1985) e Zelda, em The Legend of Zelda (1996), por exemplo.

O panorama mudou de figura com o surgimento de uma figura marcante dos games: a arqueĂłloga britĂąnica Lara Croft. A exemplo de Samus Aran, a personagem tambĂ©m teve um tĂ­tulo para chamar de seu – a franquia Tomb Raider, que estreou em 1996. Diferentemente do que era comum na Ă©poca, Croft nĂŁo era mais uma donzela em perigo, e sim uma personagem fria que nĂŁo hesitava na hora de passar por cima dos inimigos.

Aclamado por pĂșblico e crĂ­tica, o Tomb Raider de 1996 foi o primeiro da sĂ©rie — Foto: Reprodução/Steam

Aclamado por pĂșblico e crĂ­tica, o Tomb Raider de 1996 foi o primeiro da sĂ©rie — Foto: Reprodução/Steam

Entretanto, o que poderia ser uma vitĂłria para a representação, na verdade, se tornou um “momento transitĂłrio”. Isso porque, se antes as personagens femininas em games eram usadas para atrair mais profissionais mulheres para a ĂĄrea como uma “estratĂ©gia de marketing”, com a chegada de Lara, elas se tornaram sex symbols.

A arqueĂłloga marcou o inĂ­cio de uma nova fase da representação feminina nos jogos – uma em que seus corpos passaram a ser extremamente sexualizados. NĂŁo Ă  toa, todo o design da personagem foi feito para passar a ideia de ser uma assassina perigosa, mas “sexy”. E esse modelo de representação passou a ser bem visto pela mĂ­dia da Ă©poca, uma vez que ele gerava audiĂȘncia e dialogava diretamente com o pĂșblico masculino, maioria entre os consumidores de jogos atĂ© entĂŁo.

Com seios exageramente grandes, roupas curtas e aspecto de assassina perigosa, a sina da sexualização de Lara Croft perdurou ao longo dos anos e apareceu na sequĂȘncia Tomb Raider Chronicles (2000) — Foto: Divulgação/Eidos Interactive

Com seios exageramente grandes, roupas curtas e aspecto de assassina perigosa, a sina da sexualização de Lara Croft perdurou ao longo dos anos e apareceu na sequĂȘncia Tomb Raider Chronicles (2000) — Foto: Divulgação/Eidos Interactive

A consequĂȘncia disso sĂŁo dĂ©cadas de representaçÔes onde os corpos tĂȘm grande destaque e o desenvolvimento das personagens quase nĂŁo acontece – isso Ă©, quando elas aparecem. AtĂ© mesmo em franquias renomadas, como God of War, a presença das mulheres estava comumente atrelada Ă  nudez, ao suporte para os personagens masculinos ou mesmo Ă  necessidade constante de salvamento, como aconteceu com Ashley em Resident Evil 4. Raras eram as que fugiam desses arquĂ©tipos. Contudo, recentemente, esse panorama vem mudando.

Por que essas representaçÔes importam?

Precisamos considerar que, assim como outros produtos de entretenimento, os jogos estabelecem relaçÔes de projeção e identificação com seus consumidores. Afinal, tudo o que vemos nas telas como enredo, trazemos para a nossa vida de alguma forma – seja como aprendizado, inspiração ou lição.

Por isso, a representatividade de mulheres em games, feitas de forma realista, sĂŁo essenciais. Ao evocarem a experiĂȘncia feminina no contexto de cada tĂ­tulo de maneira consciente, proporcionam conforto para que meninas se insiram no universo dos jogos, tanto como players quanto como desenvolvedoras, por exemplo. Nesse sentido, vale destacar que, segundo dados da Pesquisa Game Brasil, as mulheres jĂĄ sĂŁo maioria no mundo gamer (53%). No entanto, 59% delas ainda sente necessidade de esconder seu gĂȘnero durante partidas online para evitar assĂ©dio, de acordo com a Reach3 Insights.

As representaçÔes mais atuais de Lara Croft, com mais desenvolvimento emocional, sĂŁo importantes para inspirar meninas e mulheres  — Foto: Divulgação/Crystal Dynamics

As representaçÔes mais atuais de Lara Croft, com mais desenvolvimento emocional, sĂŁo importantes para inspirar meninas e mulheres — Foto: Divulgação/Crystal Dynamics

Esse movimento tambĂ©m faz com que os jogadores vejam a gameplay, e, entĂŁo, o mundo Ă  sua volta, por uma nova perspectiva: gradualmente, mais distantes das amarras da objetificação, da sexualização e de ideais sexistas. Isto Ă© especialmente importante ao considerar que o ambiente gamer, ainda “dominado” pelo pĂșblico masculino, Ă© conhecido pelo comportamento tĂłxico em relação Ă s mulheres e minorias, como pessoas LGBTQIA+.

Quando os assuntos sĂŁo os estĂșdios de games e a forma com que eles vĂȘm representando as mulheres, felizmente, as mudanças sĂŁo notĂĄveis. Isso porque, nos games mais atuais, hĂĄ personagens como:

Sadie Adler, de Red Dead Redemption 2

Introduzida no segundo jogo da franquia de faroeste da Rockstar, Sadie Ă© uma das principais personagens femininas da indĂșstria. Na trama do game, ela Ă© apresentada como a viĂșva de Jake Adler, e busca a todo custo conseguir vingança contra os assassinos do marido. Assim, apĂłs cruzar com a gangue de Van Der Linde, ela decide se juntar a eles, transformando-se em uma das principais figuras do grupo. Aqui, vale dizer que mesmo com sua aproximação aos membros, como o protagonista Arthur Morgan, em nenhum momento ela Ă© desrespeitada ou sexualizada por eles.

A histĂłria da personagem Ă© muito bem desenvolvida durante o game, de forma que Ă© possĂ­vel acompanhar ativamente a sua evolução. Assim, ela se distancia da representação estigmatizada de mulheres em jogos, sendo alguĂ©m implacĂĄvel, destemida, leal e, principalmente, independente. Para alĂ©m da personalidade, tambĂ©m cabe destacar a aparĂȘncia de Sadie, que nĂŁo Ă© vista com roupas que a enquadram em estereĂłtipos de “donzela” ou “femme fatale” (em tradução, mulher fatal).

Em Red Dead 2, Sadie Adler rouba a cena toda vez que aparece — Foto: Divulgação/Rockstar

Em Red Dead 2, Sadie Adler rouba a cena toda vez que aparece — Foto: Divulgação/Rockstar

Aloy, de Horizon Zero Dawn e Forbidden West

A franquia Horizon, ambientada em um futuro distĂłpico, Ă© encabeçada pela heroĂ­na Aloy, que busca respostas sobre seu passado. Quando ela descobre quem realmente Ă©, percebe ser a Ășnica capaz de salvar a humanidade e o planeta, dominado por mĂĄquinas hostis em forma de animais, da extinção. Ao longo de toda a gameplay, acompanhamos uma protagonista curiosa, carismĂĄtica e que aprende mais sobre si e o mundo junto do jogador.

O que mais chama a atenção em Aloy, de forma geral, é o seu senso de justiça e responsabilidade, traços que são comumente vistos em personagens homens (especialmente os que também precisam salvar o mundo). Além disso, mesmo recebendo a ajuda de muitos amigos pelo caminho, ela é alguém com extrema autonomia, capaz de salvar a si e a outros em diversas ocasiÔes e sem grande dificuldade.

Em Horizon Forbidden West, a protagonista Aloy Ă© marcada pelo seu senso de justiça — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

Em Horizon Forbidden West, a protagonista Aloy Ă© marcada pelo seu senso de justiça — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

Chloe Price e Max Caulfield, de Life is Strange

Amigas de personalidades completamente opostas, Chloe e Max sĂŁo as duas principais personagens do jogo indie da Square Enix. Enquanto a primeira Ă© uma jovem autĂȘntica e durona, a segunda Ă© mais introvertida e observadora, embora ambas sejam muito valentes. Juntas, elas lidam com a descoberta e as consequĂȘncias dos poderes de viagem no tempo de Max, de forma que tentam resolver mistĂ©rios do passado e impedir tragĂ©dias do futuro.

O desenvolvimento das personagens ao longo da trama chama especial atenção por exemplificar, de forma profunda, a descoberta da identidade pessoal, principalmente enquanto mulher. O game ainda deixa esse processo mais complexo ao fazĂȘ-las lidar, ao mesmo tempo, com questĂ”es de saĂșde mental, assĂ©dio, bullying e o cumprimento dos papĂ©is de gĂȘnero na interiorana cidade de Arcadia Bay.

Assim, Life is Strange traz, por meio de suas protagonistas, um vislumbre poderoso do universo feminino, suas problemĂĄticas e desdobramentos – algo que pouquĂ­ssimos jogos conseguiram fazer em mais de 80 anos de indĂșstria.

Chloe e Max sĂŁo melhores amigas de infĂąncia, mas tambĂ©m podem ser interesse romĂąntico dependendo das escolhas do jogador — Foto: Divulgação/Square Enix

Chloe e Max sĂŁo melhores amigas de infĂąncia, mas tambĂ©m podem ser interesse romĂąntico dependendo das escolhas do jogador — Foto: Divulgação/Square Enix

A protagonista de Hellblade: Senua’s Sacrifice Ă© uma jovem guerreira celta em uma jornada contra os seus prĂłprios demĂŽnios. ApĂłs presenciar um evento traumĂĄtico, Senua desenvolve psicose, uma doença reproduzida com muito cuidado e responsabilidade pela equipe da desenvolvedora Ninja Theory. Senua ouve vozes, enxerga coisas que nĂŁo estĂŁo lĂĄ e acredita precisar ir atĂ© Hell, reino nĂłrdico dos mortos, para resgatar seu falecido marido Dillion e trazĂȘ-lo de volta Ă  vida.

A construção de Senua como personagem oferece diversas inversÔes em relação aos arquétipos das personagens femininas. Em primeiro lugar, ela subverte a ideia da donzela em perigo por ter que ir ela mesma atrås de seu marido. Mas, o fato de ser uma guerreira nessa posição não a transforma em uma matadora fria e sem sentimentos. Por conta de seu transtorno, Senua é uma personagem profundamente conectada aos seus medos e que precisa, urgentemente, aprender a acreditar em si. Toda a jornada até Hell é, na verdade, uma alegoria para o seu desenvolvimento pessoal, o que envolve aceitar a psicose como parte dela, e não mais enxergå-la como uma fraqueza.

Hellblade: Senua's Sacrifice conta a história de uma guerreira com psicose tentando se aceitar no mundo — Foto: Divulgação/Xbox

Hellblade: Senua’s Sacrifice conta a histĂłria de uma guerreira com psicose tentando se aceitar no mundo — Foto: Divulgação/Xbox

Ellie e Abby, de The Last of Us

The Last of Us Ă© uma franquia de games cuja representação de personagens femininas Ă© muito positiva. A começar pelo fato de que existe uma equivalĂȘncia entre os papĂ©is dos homens e das mulheres na sĂ©rie. Joel, por exemplo, Ă© um contrabandista tĂŁo perigoso quanto Tess. Tommy lidera o grupo de Jackson ao lado de sua esposa, Maria. JĂĄ Marlene Ă© a lĂ­der dos Vagalumes, a milĂ­cia mais importante do game. Vale ressaltar, inclusive, que ela Ă© uma mulher preta, algo ainda mais raro de se encontrar nos jogos eletrĂŽnicos, ainda mais assumindo um papel de tamanha importĂąncia.

Abby e Ellie em The Last of Us Part II tĂȘm suas prĂłprias histĂłrias e nĂŁo sĂŁo usadas para o desenvolvimento de personagens masculinos — Foto: Divulgação/Naughty Dog

Abby e Ellie em The Last of Us Part II tĂȘm suas prĂłprias histĂłrias e nĂŁo sĂŁo usadas para o desenvolvimento de personagens masculinos — Foto: Divulgação/Naughty Dog

AlĂ©m disso, em The Last of Us, essas personagens nĂŁo sĂŁo pontos de partida e nem de chegada para o desenvolvimento dos personagens masculinos – todas elas tĂȘm a sua prĂłpria histĂłria. No segundo game, The Last of Us Parte II, Ă© a ação de Abby que faz com que Ellie embarque em uma jornada de vingança. Da mesma forma, a morte de um personagem masculino ao final do primeiro jogo traz Abby a uma posição de protagonismo na sequĂȘncia.

Outro ponto que vale destacar em relação Ă  Ellie Ă© que a personagem Ă© a primeira a protagonizar um romance LGBTQIA+ em um AAA de forma explĂ­cita. Como o pĂșblico dos jogos eletrĂŽnicos ainda Ă© muito resistente a esse tipo de representação, o relacionamento entre Dina e Ellie Ă© um passo muito importante. Quanto a Abby, destaca-se a sua fisionomia: em vez de sexualizada, a personagem Ă© musculosa como uma fisiculturista, alĂ©m de usar roupas masculinas durante a campanha e se opor Ă  ideia de feminilidade.

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