HĂĄ 40 anos, Nabor JĂșnior tomava posse como governador apĂłs 20 anos de ditadura

Por TiĂŁo Maia, ContilNet 15/03/2023 Atualizado: hĂĄ 3 anos

HĂĄ 40 anos, em 15 de março de 1983, uma terça-feira, tomava posse como governador do Acre o taracauense Nabor Teles da Rocha JĂșnior, ao lado da vice Iolanda Ferreira Fleming. Ele tinha 52 anos de idade e era o primeiro governador eleito pelo voto direto depois de 20 anos, em que quatro governadores seguidos foram “eleitos” de forma indireta pela Assembleia Legislativa, durante a ditadura militar que se instalou no paĂ­s e que, em 1962, no Acre, derrubou o primeiro governador constitucional do Estado, JosĂ© Augusto de AraĂșjo.

AraĂșjo foi substituĂ­do no governo pelo capitĂŁo do ExĂ©rcito Edgar Pedreira de Cerqueira, entĂŁo comandado da 4ÂȘ Companhia de Fronteira, do ExĂ©rcito, em Rio Branco. Em seguida vieram os governadores indiretos Jorge Kalume, Francisco Wanderlei Dantas, Geraldo Mesquita e Joaquim Macedo, todos com quatro anos de mandatos e pertencentes Ă  Arena (Aliança Renovadora Nacional) e depois ao PDS (Partido da Democracia Social), que davam sustentação polĂ­tica Ă  ditadura militar, sob forte oposição do MDB de Ulysses GuimarĂŁes, do qual, no Acre, Nabor JĂșnior era um de seus seguidores.

Nabor JĂșnior, ex-seringalista e comerciante em TarauacĂĄ, entrou para a polĂ­tica em 1962, com a elevação do entĂŁo territĂłrio do Acre Ă  condição de Estado, como deputado estadual constituinte. Elaborada a primeira constituição estadual, Nabor JĂșnior continuou na Assembleia Legislativa por mais dois mandatos, saindo candidato e sendo eleito e reeleito deputado federal pelo MDB. Em 1982, colocou seu nome Ă  disposição como candidato a governador. “Foi uma campanha cĂ­vica”, lembrou Nabor JĂșnior ao publicar um livro de memĂłrias, em 2021. Ele estĂĄ com 92 anos de idade, lĂșcido e morando em BrasĂ­lia.

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Nabor Junior com Geraldo Fleming, Osmir Lima, AluĂ­zio Bezerra, Zila Bezerra e outros polĂ­ticos aliados do seu governo

Ao lado de Iolanda Fleming, que vinha da Assembleia Legislativa como uma forte deputada estadual e ex-vereadora de Rio Branco, a qual passara a ser conhecida como presidente da ComissĂŁo Parlamentar de InquĂ©rito (CPI) que apurou desvios de recursos pĂșblicos na extinta Eletroacre, empresa fornecedora de energia elĂ©trica entĂŁo controlada pelo governo estadual na administração Joaquim Macedo.

Ela integrou a chapa que tambĂ©m tinha o mĂ©dico MĂĄrio Maia como candidato ao Senado e o entĂŁo deputado federal AluĂ­zio Bezerra como candidatos Senado. Acreano de Rio Branco, MĂĄrio chegou a ser eleito deputado federal pelo extinto Estado da Guanabara, no Rio, mas tambĂ©m seria cassado pela ditadura militar e, apĂłs reconquistar a cidadania com a Lei da Anistia, voltou ao Acre para ajudar Nabor JĂșnior e o MDB a derrotar a ditadura militar.

É que os militares, sob a orientação do sinistro ministro Golbery do Couto e Silva, chefe da agĂȘncia central do SNI (Serviço Nacional de InformaçÔes), orientava o PDS, que havia substituĂ­do Ă  Arena, em todo o paĂ­s a resistir e enfrentar os candidatos do MDB e dar Ă  ditadura alguma aparĂȘncia de legalidade em caso de vitĂłrias de seus candidatos. Com o apoio do entĂŁo governador Joaquim Macedo, pelo menos aparentemente, a ditadura havia convocado um velho conhecido para enfrentar Nabor, MĂĄrio Maia e AluĂ­zio Bezerra e seu “movimento cĂ­vico”: o senador Jorge Kalume, que havia conquistado cadeira no Senado em 1978 pelo voto numa eleição de votação questionada e denĂșncias de fraudes com urnas vindas dos seringais de Manuel Urbano. O entĂŁo candidato a senador do MDB, Alberto Zaire, e seus aliados, jĂĄ comemoravam a vitĂłria quando, de repente, a juĂ­za eleitoral em Sena Madureira, Eva Evangelista de AraĂșjo Souza, apresentou os boletins eleitorais das urnas de Manuel Urbano com os votos dando vitĂłria a Kalume. De tĂŁo decepcionado, Zaire abandonou a polĂ­tica e morreu logo depois do episĂłdio.

Candidato a governador, Kalume tinha como vice o entĂŁo deputado estadual Walter Prado, um jovem de TarauacĂĄ que ficara conhecido como jogador de futebol e traços de beleza que enfeitiçavam as moiçolas casadoiras. O candidato ao Senado da chapa era Said Farhat, ex-prefeito de BrasilĂ©ia, acreano de Rio Branco, de tradicional famĂ­lia sĂ­rio-libanesa, que se tornou jornalista e publicitĂĄrio influente no eixo Rio e SĂŁo Paulo e que chegara a ministro da Comunicação Social do governo JoĂŁo Figueiredo, o Ășltimo presidente do ciclo de generais dirigindo os destinos do paĂ­s.

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Ex-governador Nabor Junior mora em BrasĂ­lia

TĂŁo ligada Ă  ditadura e aos militares, Said Farhat fez uma campanha emblemĂĄtica utilizando o nome de Figueiredo, se apresentando como “o amigo do JoĂŁo”. A oposição a Farhat, no entanto, era feita no seio de sua prĂłpria famĂ­lia, cujo sobrinho, Abrahim Farhat, o “Lhe”, tambĂ©m era candidato ao Senado pelo PT e fazia campanha combatendo o tio dizendo que o candidato “amigo do JoĂŁo” era “ladrĂŁo”.

Nabor JĂșnior toma posse trazendo muitas esperanças a um Estado atingido em cheio pela ditadura militar. Trazia a maioria de deputados federais e estaduais e fez um governo, como ele prĂłprio definiu, de participação, loteando secretarias para os aliados. PolĂ­ticos ligados a partidos clandestinos, como os comunistas, que ainda nĂŁo podiam existir estavam filiados ao MDB e tinham grande influĂȘncia num governo que em tese tinha viĂ©s conservador, por conta do passado modesto de seringalista do governador.

Embora tenha feito um governo sem qualquer tipo de escĂąndalos ou denĂșncias de corrupção, o governo Nabor JĂșnior viveu algumas crises, principalmente causada por seus aliados, como o entĂŁo senador AluĂ­zio Bezerra (eleito junto com MĂĄrio Maia), ligado aos chamados setores progressistas, entre eles os comunistas.

Um dos indicados por Bezerra, o engenheiro goiano Rubem Branquinho, nomeado SecretĂĄrio de Transportes, foi o epicentro das principais crises no Governo. Ambicioso, ele tencionava suceder ao governador nas eleiçÔes seguintes e se movimentava muito ao ponto de os adversĂĄrios de Nabor JĂșnior, como o empresĂĄrio Narciso Mendes de Assis, que era deputado estadual do PDS, terem se articulado para apresentar uma CPI contra Branquinho. Com maioria na Assembleia, a CPI acabou nĂŁo acontecendo e Nabor concluiu seu Governo antes de completar o mandato, renunciando em favor de sua vice Iolanda para ser candidato e eleito ao Senado.
Vitorioso, Nabor JĂșnior ainda conquistou mais um mandato de senador e sĂł encerrou a carreira polĂ­tica em 2002, quando perdeu a disputa para o entĂŁo candidato ao Senado da Frente Popular, Geraldo Mesquita JĂșnior, que fez uma campanha sĂłrdida contra o antigo lĂ­der do MDB. O slogan de Mesquita e da prĂłpria Frente Popular era “Nabor Nunca Mais”.

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Nabor Junior com sua esposa, dona Darcy (jĂĄ falecida)/Foto: Altino Machado

Derrotado, Nabor se recolheu em BrasĂ­lia muito magoado com aquela campanha do “Nabor Nunca Mais”. Ele acaba de ficar viĂșvo, com o falecimento de dona Darcy Rocha, no inĂ­cio do ano, sua companheira por mais de 60 anos.

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