“Que se faça o bem e não se olha a quem”; confira o artigo de Jackson Viana

Por Jackson Viana, ContilNet 27/03/2023 Ă s 11:52 Atualizado: hĂĄ 3 anos

AlguĂ©m jĂĄ se perguntou de onde partem os fotĂłgrafos que registram recortes “espontĂąneos” de personalidades pĂșblicas entregando sacolĂ”es e ajudando famĂ­lias? De onde saem tantos paparazzis que, de maneira “despercebida”, registram a bondade de figurinhas caricatas, especialmente da polĂ­tica acreana, para que postem em suas redes sociais?

Faço esse questionamento visto que Ă© impensĂĄvel que muitas poses sejam encomendadas e que, de fato, esses profissionais estejam propositalmente contratados para fazer os registros. Quem costuma prestar-se ao bem, nĂŁo precisa encomendar fotografia ao fazĂȘ-lo. Assim imagino.

NĂŁo se trata de objeção a registros de redes sociais. Abro parĂȘntese para dizer do fundamental papel que o fotĂłgrafo, seja ele amador ou profissional, desempenha para a sociedade, e, na atual era digital, sua presença Ă© indispensĂĄvel para o bem da informação.

TambĂ©m nĂŁo se trata da obrigação que as autoridades instituĂ­das, sejam elas governadores, prefeitos ou demais parlamentares, tĂȘm de informar Ă  população sobre suas agendas e sobre o trabalho que desenvolvem de interesse pĂșblico. Quando alguĂ©m investido em cargo pĂșblico presta assistĂȘncia Ă  sociedade a partir de orçamento de Estado, age em nome do povo a que representa, e isso precisa ser informado atĂ© mesmo por prestação pĂșblica de contas.

PorĂ©m, se eu e vocĂȘ, enquanto cidadĂŁos, utilizamo-nos de nossas prĂłprias expensas para agir em solidariedade, a ninguĂ©m Ă© devida a satisfação. A menos que isso seja do nosso interesse. Mas, afinal, qual interesse?

É fato que para o cidadĂŁo que em necessidade recebe a ajuda de alguĂ©m, o importante Ă© que sua urgĂȘncia foi atendida e pouco lhe importa a vaidade de quem pratica. Disso, nĂłs jĂĄ sabemos e nĂŁo se discute. A observação que se faz Ă© em razĂŁo do oportunismo daqueles que ao dar com uma mĂŁo, tentam tirar com a outra.

Ora, não sejamos inoportunos. Investir em capital político às custas da tragédia de milhares de famílias deveria ser crime inafiançåvel, por ser repugnante, do ponto de vista humano, moral e, até mesmo, religioso.

Para os leitores da Bíblia, encontram em Mateus 6:3 “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. Por essa ótica, trazendo para a atualidade, poderia a mão esquerda se ver exposta no Instagram?

Para os cĂ©ticos, a frase Ă© do escritor AntĂŽnio ErmĂ­rio de Moraes: “caridade com propaganda nĂŁo Ă© caridade, Ă© comĂ©rcio”. Convenhamos que, salvas as exceçÔes, esse Ă© o bem da verdade.

A desculpa esfarrapada de que o registro da boa ação Ă© um “incentivo” para outros replicarem, nĂŁo encontra respaldo na lĂłgica. Se o prĂłprio estado de necessidade dos nossos irmĂŁos, retratado em centenas de matĂ©rias de longĂ­nquo alcance, nĂŁo servir de “incentivo” para solidariedade de muitos, nĂŁo serĂĄ a minha pose para a lente de uma cĂąmera que vai.

SĂł existe uma definição para quem, alegando agir em solidariedade, busca holofotes para si e para sua benevolĂȘncia: oportunismo claro. Deixemos nossas vaidades para quando a dor de tantas famĂ­lias estiver abrandada, e saiamos de casa para fazer o bem quando o bem maior que se almeja nĂŁo seja, por ego, o nosso prĂłprio.

Espero que o nosso povo, tĂŁo sofrido, saiba separar o joio do trigo, e que dĂȘ vazante, junto com as ĂĄguas do Rio Acre, ao capital polĂ­tico de todos os que hoje tentam tirar proveito de sua necessidade.

“Que se faça o bem e não se olha a quem”; confira o artigo de Jackson Viana

– Jackson Viana Ă© Escritor, Poeta, autor de trĂȘs livros, presidente-fundador da Academia Juvenil Acreana de Letras (AJAL), Embaixador da RegiĂŁo Norte na Brazil Conference at Harvard & MIT e Embaixador Mapa Educação 2023.

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