AlguĂ©m jĂĄ se perguntou de onde partem os fotĂłgrafos que registram recortes âespontĂąneosâ de personalidades pĂșblicas entregando sacolĂ”es e ajudando famĂlias? De onde saem tantos paparazzis que, de maneira âdespercebidaâ, registram a bondade de figurinhas caricatas, especialmente da polĂtica acreana, para que postem em suas redes sociais?
Faço esse questionamento visto que Ă© impensĂĄvel que muitas poses sejam encomendadas e que, de fato, esses profissionais estejam propositalmente contratados para fazer os registros. Quem costuma prestar-se ao bem, nĂŁo precisa encomendar fotografia ao fazĂȘ-lo. Assim imagino.
NĂŁo se trata de objeção a registros de redes sociais. Abro parĂȘntese para dizer do fundamental papel que o fotĂłgrafo, seja ele amador ou profissional, desempenha para a sociedade, e, na atual era digital, sua presença Ă© indispensĂĄvel para o bem da informação.
TambĂ©m nĂŁo se trata da obrigação que as autoridades instituĂdas, sejam elas governadores, prefeitos ou demais parlamentares, tĂȘm de informar Ă população sobre suas agendas e sobre o trabalho que desenvolvem de interesse pĂșblico. Quando alguĂ©m investido em cargo pĂșblico presta assistĂȘncia Ă sociedade a partir de orçamento de Estado, age em nome do povo a que representa, e isso precisa ser informado atĂ© mesmo por prestação pĂșblica de contas.
PorĂ©m, se eu e vocĂȘ, enquanto cidadĂŁos, utilizamo-nos de nossas prĂłprias expensas para agir em solidariedade, a ninguĂ©m Ă© devida a satisfação. A menos que isso seja do nosso interesse. Mas, afinal, qual interesse?
Ă fato que para o cidadĂŁo que em necessidade recebe a ajuda de alguĂ©m, o importante Ă© que sua urgĂȘncia foi atendida e pouco lhe importa a vaidade de quem pratica. Disso, nĂłs jĂĄ sabemos e nĂŁo se discute. A observação que se faz Ă© em razĂŁo do oportunismo daqueles que ao dar com uma mĂŁo, tentam tirar com a outra.
Ora, nĂŁo sejamos inoportunos. Investir em capital polĂtico Ă s custas da tragĂ©dia de milhares de famĂlias deveria ser crime inafiançåvel, por ser repugnante, do ponto de vista humano, moral e, atĂ© mesmo, religioso.
Para os leitores da BĂblia, encontram em Mateus 6:3 âMas, quando tu deres esmola, nĂŁo saiba a tua mĂŁo esquerda o que faz a tua direitaâ. Por essa Ăłtica, trazendo para a atualidade, poderia a mĂŁo esquerda se ver exposta no Instagram?
Para os cĂ©ticos, a frase Ă© do escritor AntĂŽnio ErmĂrio de Moraes: âcaridade com propaganda nĂŁo Ă© caridade, Ă© comĂ©rcioâ. Convenhamos que, salvas as exceçÔes, esse Ă© o bem da verdade.
A desculpa esfarrapada de que o registro da boa ação Ă© um âincentivoâ para outros replicarem, nĂŁo encontra respaldo na lĂłgica. Se o prĂłprio estado de necessidade dos nossos irmĂŁos, retratado em centenas de matĂ©rias de longĂnquo alcance, nĂŁo servir de âincentivoâ para solidariedade de muitos, nĂŁo serĂĄ a minha pose para a lente de uma cĂąmera que vai.
SĂł existe uma definição para quem, alegando agir em solidariedade, busca holofotes para si e para sua benevolĂȘncia: oportunismo claro. Deixemos nossas vaidades para quando a dor de tantas famĂlias estiver abrandada, e saiamos de casa para fazer o bem quando o bem maior que se almeja nĂŁo seja, por ego, o nosso prĂłprio.
Espero que o nosso povo, tĂŁo sofrido, saiba separar o joio do trigo, e que dĂȘ vazante, junto com as ĂĄguas do Rio Acre, ao capital polĂtico de todos os que hoje tentam tirar proveito de sua necessidade.
– Jackson Viana Ă© Escritor, Poeta, autor de trĂȘs livros, presidente-fundador da Academia Juvenil Acreana de Letras (AJAL), Embaixador da RegiĂŁo Norte na Brazil Conference at Harvard & MIT e Embaixador Mapa Educação 2023.

