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Rota do desmatamento em Humaitá, no Amazonas Michael Dantas/AFP
A cada cinco segundos no ano passado, o planeta perdeu uma área de floresta tropical virgem equivalente a um campo de futebol, e cerca de 43% desta destruição foi registrada apenas no Brasil — resultado da catastrófica política ambiental do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os prejuízos nas matas brasileiras e bolivianas juntas representam mais da metade do total, segundo um estudo publicado nesta terça-feira, que chama atenção para a situação na Bacia Amazônica.
De acordo com o levantamento realizado pelo World Resources Institute, uma organização de pesquisa, o mundo perdeu 41 mil km² de florestas tropicais primárias no ano passado, o equivalente a uma Suíça ou uma Holanda inteira. O aumento entre 2021 e 2022 foi de 9,7%, transformando o ano passado no quarto pior das últimas duas décadas. No caso brasileiro, o incremento foi ainda maior, chegando a 15%.
Desmatamento na Amazônia
O balanço anual foi o primeiro desde que 145 países firmaram em novembro de 2021 durante a COP26, a cúpula climática da ONU que aconteceu na cidade escocesa de Glasgow, a Declaração sobre Florestas e Uso da Terra. Pelo documento juridicamente não vinculante, as nações se comprometem a zerar o desmate até 2030, uma realidade distante frente ao ritmo atual.
— Desde a virada do século, nós observamos uma hemorragia em alguns dos ecossistemas florestais mais importantes do mundo, apesar dos esforços para reverter a tendência — disse Mikaela Weisse, diretora da Global Forest Watch, braço do WRI dedicado a monitorar o desmatamento. — Estamos perdendo uma de nossas ferramentas mais eficazes para combater a mudança climática, proteger a biodiversidade e proteger a saúde e os meios de subsistência de milhões de pessoas.
O relatório, feito em colaboração com a Universidade de Maryland, documentou perda de cobertura vegetal nos trópicos em decorrência do desmate, incêndios e outras causas. A destruição do ano passado resultou em 2,7 gigatoneladas de dióxido de carbono despejadas na atmosfera, quantia que equivale às emissões anuais dos combustíveis fósseis queimados pela Índia, país de 1,4 bilhão de habitantes que recentemente passou a China como nação mais populosa do planeta.
O cenário na Amazônia em 2022 foi o pior desde 2024, segundo uma análise dos dados do WRI feita pela organização Amazon Conservation. A floresta como um todo teve 19,8 mil km² desmatados, um aumento de 21% em comparação com o ano anterior. Os epicentros da destruição foram ao redor de rodovias na Amazônia brasileira — em particular a Transamazônica e as BR 364, 319 e 163, no Amazonas, no Pará, na Rondônia e no Acre —, na fronteira da soja da mata boliviana e perto de áreas protegidas na floresta colombiana.
Cientistas alertam que o desmatamento da Amazônia pode ter vastas consequências para o planeta. Ela retém sozinha quase 90 mil toneladas de CO2, o que representa o dobro das emissões anuais do planeta.
Uma abordagem coletiva para o problema deve ser debatida em agosto na Cúpula da Amazônia, em Belém (PA), a primeira a reunir os líderes da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, os países detentores da floresta. O desejo de realizar a conferência havia sido expressado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda no ano passado, pouco após o segundo turno, durante sua ida à COP27, a cúpula ambiental da ONU no balneário egípcio de Sharm el-Sheikh. O evento também deve servir de teste para a COP30, que a capital paraense sediará em 2025.
Cenário brasileiro
De acordo com o estudo do WRI, a Amazônia Brasileira perdeu 17,7 mil km² de mata primária em 2022, um aumento de 15% em comparação com 2021. Quando leva-se em conta a destruição não relacionada a incêndios florestais, o incremento foi de 20%. Os estados do Amazonas e do Acre viram algumas de suas piores taxas históricas — no maior estado brasileiro, a perda de floresta quase dobrou em três anos.
O desmatamento é historicamente o maior responsável pelas emissões de gases-estufa do Brasil. Só no ano passado, causou o despejo de 1,3 gigatoneladas de CO2 na atmosfera, o equivalente a duas vezes e meia as emissões de combustíveis fósseis no país
Segundo o preciso Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os dados oficiais observados pelo governo brasileiro, houve 11.568 km² desmatados na Amazônia Legal entre agosto de 2021 e julho de 2022, o ano fiscal observado. Ambas estatísticas, contudo, retratam a dimensão da herança negativa deixada pelo governo Bolsonaro.
Desde antes da posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz do combate ao desmatamento uma prioridade, e a promessa de zerar o desmate ilegal é repetida com frequência em fóruns internacionais. Ações concretas como a retomada do revitalizado Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e do Conselho Nacional do Meio Ambiente buscam reparar o desmonte causado pelo governo de Jair Bolsonaro.
Entre janeiro e maio deste ano, o Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter) do Inpe capturou 1.986 km² de área desmatada, uma redução de 31% em relação ao mesmo período do ano anterior. Para efeito de comparação, o município do Rio de Janeiro tem 1.200 km².
A questão ambiental é um dos pilares da política externa petista, que busca reposicionar o Brasil na diplomacia climática. Em demonstração de boa vontade com Lula e seus esforços, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou durante sua visita ao Brasil no início do mês que o bloco europeu doará 20 milhões de euros ao Fundo Amazônia.
Em maio, durante uma visita de Lula a Londres, os britânicos anunciaram uma contribuição de 80 milhões de libras à iniciativa. Gerida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, ela busca captar doações para ações de preservação, monitoramento e combate ao devastamento, além da conservação e do desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal.
Dias antes do anúncio de Londres, o presidente americano, Joe Biden, havia anunciado que solicitaria ao Congresso a aprovação de US$ 500 milhões ao longo de cinco anos para o fundo — a Câmara controlada pelos republicanos, contudo, pode ser um entrave. As doações somam-se às contribuições retomadas e ampliadas de Noruega e Alemanha, as parceiras originais da iniciativa criada em 2008, mas ficaram paralisadas de 2019 ao início deste ano devido a mudanças unilaterais no comando do fundo feitas pelo governo Bolsonaro.
No resto do mundo
A situação da Bolívia, vicelíder no desmatamento na Amazônia e terceira colocada no ranking mundial da motosserra, também é significativa: perda de floresta tropical foi equivalente a quase 4 mil km², um aumento de 32% na comparação com 2021. O aumento foi o pior do mundo, e deve-se ao menos em parte a políticas públicas que encorajam agricultores a destruírem áreas de cobertura vegetal para garantir propriedades. O país foi um dos poucos que não assinou o pacto de Glasgow.
A segunda nação no ranking do desmate é a República Democrática do Congo, responsável por 13% das perdas. Lá, os principais motores do desmatamento são a agricultura de subsistência e a produção em pequena escala de carvão vegetal, fonte importante de energia onde só 19% da população tem acesso à eletricidade, segundo dados do Banco Mundial.
A perspectiva é de piora, após o governo organizar leilões para novas licenças de exploração de petróleo e gás, e informou que deve suspender a moratória sobre novas concessões no setor de madeira. Em Gana, país que perdeu a maior proporção de florestas primárias do ano passado, as limpezas florestais de pequena escala para a produção de cacau foram fontes significativas de desmatamento.
Na lista dos 10 países que perderam mais áreas de florestas também aparecem Indonésia (5%), Peru (3,9%), Colômbia (3,1%), Laos (2,3%), Camarões (1,9%), Papua Nova Guiné (1,8%) e Malásia (1,7%). O restante do mundo combinado representou pouco menos de 15% das florestas perdidas em 2022.
Notícias positivas, por sua vez, vieram do Sudeste Asiático, lar da terceira maior área de floresta tropical do planeta: em países como Indonésia e Malásia, as taxas de desmate ficaram perto das menores taxas históricas. (Com AFP e New York Times)

