Entenda como o governo irå reforçar o caixa em R$ 168 bilhÔes em 2024

Voto de desempate do governo no Carf renderå R$ 54,7 bilhÔes

Por AgĂȘncia Brasil 02/09/2023

Enviado ao Congresso na Ășltima quinta-feira (31), o projeto do Orçamento de 2024 materializou o desafio proposto pelo novo arcabouço fiscal. O governo precisarĂĄ reforçar o caixa em R$ 168 bilhĂ”es para encerrar o prĂłximo ano com superĂĄvit primĂĄrio de R$ 2,84 bilhĂ”es, conforme estabelecido na meta fiscal. Isso partindo de um dĂ©ficit que, segundo a previsĂŁo oficial mais recente, deverĂĄ fechar 2023 em R$ 145,4 bilhĂ”es para este ano.ebcebc

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BrasĂ­lia, (DF) – 28/08/2023 Entrevista coletiva dos ministros do Brasil, e da Argentina, Fernando Haddad, e Economia da Argentina, Sergio Massa. Foto Valter Campanato/EBC.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reconheceu que a meta Ă© ambiciosa. “NĂłs nĂŁo estamos negando o desafio. NĂŁo estamos negando a dificuldade. O que nĂłs estamos afirmando Ă© o nosso compromisso da ĂĄrea econĂŽmica em obter o melhor resultado possĂ­vel, obviamente, que levando em consideração a opiniĂŁo do Congresso Nacional, que Ă© quem dĂĄ a Ășltima palavra sobre esse tema”, declarou Haddad em entrevista coletiva ao lado da ministra do Planejamento, Simone Tebet, para explicar o projeto de lei do Orçamento de 2024.

Os R$ 168 bilhĂ”es extras haviam sido anunciados pela ministra do Planejamento, Simone Tebet, na Ășltima quarta-feira (30). Ela esclareceu que o montante se refere Ă s receitas brutas. Ao descontar as transferĂȘncias obrigatĂłrias para estados e municĂ­pios, a receita lĂ­quida cai para R$ 124 bilhĂ”es.

O governo pretende tirar esse dinheiro de medidas que revertam desoneraçÔes concedidas nos Ășltimos anos e tributando a camada mais rica da população e setores nĂŁo regulamentados, como as apostas esportivas. O esforço Ă© necessĂĄrio para dar conta do aumento de gastos de R$ 129 bilhĂ”es no prĂłximo ano, dos quais boa parte se deve ao restabelecimento dos pisos constitucionais com saĂșde e educação e com a recomposição de polĂ­ticas pĂșblicas que deixaram de ser executadas nos Ășltimos anos.

Detalhamento

A maior parte das receitas virĂĄ da restauração do voto de desempate do governo no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Aprovada no Senado na Ășltima quarta-feira, a proposta permitirĂĄ ao governo arrecadar R$ 54,7 bilhĂ”es, segundo as estimativas do Orçamento de 2024. Em segundo lugar, estĂŁo R$ 42,1 bilhĂ”es de transaçÔes tributĂĄrias, renegociaçÔes especiais de dĂ­vidas de contribuintes com a Receita e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, introduzida no projeto do Carf.

Em terceiro lugar, estĂĄ a regulamentação de uma decisĂŁo do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que proibiu que empresas abatam incentivos estaduais para gastos de custeio do pagamento do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro LĂ­quido. Segundo o Orçamento, o governo pretende arrecadar R$ 35,3 bilhĂ”es com a medida, embora no inĂ­cio do ano se tenha falado em potencial de arrecadação de R$ 90 bilhĂ”es a R$ 130 bilhĂ”es por ano. Em quarto, vĂȘm R$ 20 bilhĂ”es com a tributação dos super-ricos, dos quais R$ 13,3 bilhĂ”es para a antecipação de Imposto de Renda sobre fundos exclusivos e R$ 7 bilhĂ”es com a taxação de investimentos em offshores.

Em quinto estĂĄ o projeto de lei que pretende extinguir os juros sobre capital prĂłprio, modalidade de distribuição de parte dos lucros das empresas aos acionistas. Enviada na Ășltima quinta-feira ao Congresso, a proposta poderĂĄ elevar a arrecadação em mais R$ 10 bilhĂ”es.

O governo também quer reforçar o caixa com R$ 2,8 bilhÔes com o combate à sonegação no comércio eletrÎnico e com R$ 700 milhÔes da regulamentação e da taxação de apostas esportivas. Inicialmente prevista para render até R$ 15 bilhÔes, a medida renderå menos de R$ 1 bilhão após o projeto do Orçamento revisar os cålculos.

Faltam R$ 2,1 bilhÔes para cumprir a meta de pequeno superåvit primårio. Esse dinheiro pode ser obtido por outras medidas de aumento da tributação, como a reoneração do diesel, ou de combate à sonegação. Também é possível reduzir a necessidade de receitas por meio da revisão de gastos, como o aperfeiçoamento do cadastro do Bolsa Família e o pente-fino em curso no Tribunal de Contas da União (TCU) em aposentadorias e pensÔes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Congresso

Essas medidas representam um desafio para o governo. Isso porque o Congresso, atĂ© agora, aprovou apenas o projeto do Carf e das transaçÔes tributĂĄrias. Ao apresentar o Orçamento, Haddad reconheceu que o aumento de arrecadação cria dificuldades para o parlamento. “NĂŁo sĂŁo medidas fĂĄceis para o Congresso deliberar. Que mĂ©rito para o Congresso! Confio na equipe econĂŽmica, nĂŁo nego o desafio, mas penso que se nĂłs nos comprometermos com resultados consistentes, vamos obter melhores resultados econĂŽmicos”, comentou.

Durante a entrevista coletiva na Ășltima quinta-feira, a ministra Simone Tebet tambĂ©m reconheceu as dificuldades em zerar o dĂ©ficit primĂĄrio, resultado negativo nas contas do governo sem os juros da dĂ­vida pĂșblica. Ela, no entanto, comentou que as projeçÔes da Receita Federal sempre sĂŁo conservadoras e que o desempenho da arrecadação pode superar as estimativas mĂ­nimas.

Cartas na manga

O secretĂĄrio do Tesouro Nacional, RogĂ©rio Ceron, disse que a equipe econĂŽmica tem uma “carta na manga” de atĂ© R$ 71 bilhĂ”es que poderĂĄ compensar eventuais frustraçÔes de receita. “É comum se ouvir, ‘ah, nĂŁo vai ser a meta?’ Com mais R$ 70 bilhĂ”es, tudo o mais constante, tem esse adicional que precisa ser relembrado sempre”, declarou Ceron na noite de quinta-feira ao detalhar o Orçamento de 2024.

Dos R$ 71 bilhÔes, R$ 22 bilhÔes devem-se ao empoçamento de recursos, quando os ministérios não conseguem gastar verbas empenhadas (autorizadas) por dificuldades de execução. O problema ocorre principalmente com investimentos e emendas parlamentares impositivas, que dependem de contratos e de licitaçÔes.

HĂĄ mais R$ 20 bilhĂ”es nĂŁo contabilizados no Orçamento de uma lei jĂĄ sancionada que altera a definição de preços de transferĂȘncia, preços de importaçÔes e exportaçÔes dentro de um mesmo grupo empresarial que tradicionalmente trazem brechas para a diminuição de lucros e o pagamento de menos tributos. Existem ainda R$ 29 bilhĂ”es da margem de tolerĂąncia do novo arcabouço fiscal, que permite um superĂĄvit ou dĂ©ficit primĂĄrio de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB).

O secretĂĄrio mencionou outras possĂ­veis fontes de receita nĂŁo incluĂ­das no Orçamento. Ceron citou a alienação de recebĂ­veis da dĂ­vida ativa, que permitiria ao governo “alugar” a terceiros direitos a receber de dĂ­vidas de contribuintes com a PGFN e antecipar o recebimento dos recursos, e a antecipação de parte dos recebĂ­veis da PPSA, estatal que vende a parte da UniĂŁo do petrĂłleo extraĂ­do da camada prĂ©-sal.

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