© Marcello Casal JrAgência Brasil
“Eu passei duas semanas de muito nervosismo na espera do resultado e, por fim, estava lá meu nome, uma mistura de felicidade e ansiedade que nada pode descrever”. Foi um longo processo, que envolveu desde o preparo, a inscrição e o levantamento de documentos para a obtenção de visto para que a estudante Giulia Borim pudesse finalmente ingressar na Universidade de Coimbra, em Portugal, usando a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mas, segundo ela, todo o planejamento valeu a pena.

“Pode ter certeza que vale muito a pena. Viver essa experiĂŞncia, independentemente da ansiedade, foi uma das melhores escolhas que fiz. Depois de muitos e muitos documentos, chega o grande dia de viajar e começar a aventura mais louca e incrĂvel de todas”, conta a estudante, que está no terceiro ano do curso de engenharia civil na universidade portuguesa.
Localizada na cidade de Coimbra, em Portugal, a universidade Ă© a instituição de ensino superior mais antiga do paĂs e uma das mais prestigiadas da Europa. Em 2013, foi incluĂda na lista do PatrimĂ´nio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a CiĂŞncia e a Cultura (Unesco). Foi tambĂ©m a primeira universidade estrangeira a firmar convĂŞnio com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais AnĂsio Teixeira (Inep), para o uso das notas do Enem no processo seletivo. Atualmente essa lista conta com 51 universidades portuguesas. A relação completa está disponĂvel na página do Inep.
Cada uma delas tem uma exigĂŞncia especĂfica em relação Ă Â nota que deve ser obtida nas provas e em relação aos requisitos necessários para os novos alunos. O estudante deve se informar o que Ă© necessário para ingressar na universidade que deseja. O ensino nĂŁo Ă© gratuito, mas Ă© possĂvel buscar bolsas de estudo para ajudar nos custos.
Quem passou e está passando pela experiência de estudar fora recomenda: é importante planejar e se preparar para as provas, para obter bom desempenho.
Giulia Ă© de Campinas (SP) e cursou o terceiro ano do ensino mĂ©dio em meio Ă Â pandemia. “Isso dificultou muitas coisas, porĂ©m consegui conciliar tudo e estudar em casa sozinha mesmo. Devido Ă minha condição financeira na Ă©poca, nĂŁo pude pagar cursinho, entĂŁo achei no Youtube um cursinho gratuito, de professores da cidade de SĂŁo Carlos (SP), que queriam ajudar os alunos na pandemia e me inscrevi. Fui aceita e estudei por um ano inteiro todos os dias – dias de semana e fins de semana -, fazendo resumos e assistindo Ă s aulas do cursinho. Minha mĂ©dia diária de estudo era de 11 horas nos dias de semana”, conta a estudante.
Uma estratégia usada por ela foi colar post-its nos locais onde mais ia na casa, com as fórmulas, datas e informações importantes. “Ou seja, sempre que ia à cozinha fazer um café,eu lia as datas das guerras, por exemplo”.
Ela tambĂ©m recomenda cuidado com o corpo.  “AlĂ©m de estudar, tambĂ©m considero muito importante cuidar da mente e do corpo, eu treinava todos os dias uma hora, dentro de casa mesmo, com vĂdeos do Youtube tambĂ©m, alternando entre dança, musculação, entre outros. Ter esse escape me ajudou muito, se vocĂŞ tem algum hobby, nĂŁo o abandone pelo Enem, ele vai te ajudar, acredite”.
Um sonho realizado
Para o estudante Mateus Nishiyama, estudar fora do paĂs era um sonho. “Sempre tive muto interesse de abrir esses horizontes, de descobrir um lugar novo, cultura nova, ter essa experiĂŞncia de morar e estudar fora do paĂs”. Nishiyama nasceu no JapĂŁo e viveu no paĂs atĂ© os 4 anos de idade. Como a famĂlia Ă© metade brasileira, ele mudou-se para Aquidauana (MS), onde estudou atĂ© ser aprovado na Universidade de Coimbra, no curso de relações internacionais.
Assim como Giulia Borim, Nishiyama fez o Enem em meio Ă Â pandemia, em 2021. Ele tambĂ©m buscou, na internet, a complementação para os estudos. Cursou o ensino mĂ©dio no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul e, para se preparar para o Enem, buscou um curso de redação, prova que considera o diferencial no Enem. Apesar de toda a ansiedade no preparo, ele conta que a vontade de estudar fora foi o que o motivou. “De certo modo, Ă© um combustĂvel para ajudar nesse caminho, que nem sempre Ă© fácil, sempre tem esse momento de ansiedade, de dĂşvida”, diz.
Ele tambĂ©m recomenda muito planejamento. “Seja o planejamento com o estudo, seja do que quer fazer, seja o planejamento financeiro para quando for mudar. Tudo parte de um planejamento e isso Ă© muito importante para que consiga se colocar na realidade a respeito das oportunidades e possibilidades. O que quer fazer, o que pode fazer e quais sĂŁo as suas opções. Acho que isso Ă© muito importante, principalmente quando vai mudar para outro paĂs.  Saber, de forma mais prática, qual custo de vida para se mudar, quais as opções de curso, quais os documentos que preciso”.
Os estudantes contam que tiveram muito apoio da universidade em todas as dúvidas no processo seletivo e também no processo de adaptação, quando chegaram em Coimbra.
Planejamento
Estudar fora do paĂs, de acordo com a especialista em estudos internacionais da Fundação Estudar, Beatriz Alvarenga, exige um planejamento de longo prazo. “Meu sonho Ă© que um aluno do 9ÂŞ ano soubesse que pode pensar em fazer graduação fora. NĂŁo precisa decidir para qual universidade quer ir, mas precisa saber que há essa possibilidade”.
Beatriz explica que muitas das instituições de ensino, sobretudo as de lĂngua inglesa, analisam uma sĂ©rie de aspectos do aluno na hora da admissĂŁo na graduação. Contam, por exemplo, as atividades extra classe que ele realizou ao longo do perĂodo escolar, se ganhou ou nĂŁo algum prĂŞmio. As notas no Enem, naquelas que aceitam o exame, e o desempenho em todo o ensino mĂ©dio sĂŁo apenas alguns dos aspectos analisados. Assim, quanto antes o estudante começar a se preparar, mais chances tem de ser aceito.
Além disso, como as universidades são pagas, é preciso um planejamento financeiro, além de dominar o idioma. “Primeiro, saber que essa possiblidade existe, entender as possibilidades concretamente, quanto custa para onde quero ir, qual idioma, se não tiver indo para Portugal. O dinheiro necessário, quanto custa? Se não tenho, existem bolsas?”, diz Alvarenga. É preciso também levar em consideração aspectos emocionais: “Tem o desafio do autoconhecimento, que a gente não trabalha como deveria. Entender para onde quer ir e entender que é onde vai morar pelo próximos três, quatro anos. Isso é fundamental para a saúde mental enquanto tiver fazendo graduação”.
Ela explica que o convĂŞnio das universidades portuguesas com o Inep ajuda na hora da seleção. AlĂ©m de a lĂngua nĂŁo ser uma barreira, o processo seletivo tende a ser mais simples, considerando basicamente o desempenho no Enem. A questĂŁo do custo, no entanto, ainda é uma barreira, já que Portugal nĂŁo tem a oferta de bolsas como uma polĂtica, assim como o governo brasileiro. O estudante precisa entĂŁo verificar se a universidade na qual deseja estudar oferece bolsas ou buscar bolsas por conta prĂłpria.
A Fundação Estudar está com dois processos seletivos abertos, o programa LĂderes Estudar e o Tech Fellow, voltado para a área de tecnologia. As inscrições podem ser feitas atĂ© abril de 2024, e o estudante precisa ser aprovado atĂ© maio na instituição que deseja cursar. As bolsas chegam a atĂ© 95% dos custos. “Ainda assim, nĂŁo Ă© de graça. Depende de o jovem encontrar bolsas externas, nĂŁo Ă© simples encontrar para fazer graduação”, diz.
Além das universidades que têm convênio com o Inep, outras instituições no mundo aceitam o Enem como parte do processo seletivo. São elas:
Na Irlanda, a University College Dublin e o National College of Ireland.
No Reino Unido, a Universidade de Kingston, a Universidade de Glasgow e a de Birkbeck.
Nos Estados Unidos, a New York University e a Northeastern University.
No Canadá, a Universidade de Toronto.

