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Nanismo, drogas e religião: a vida de Nelson Ned, um dos cantores brasileiros mais populares no exterior

Por BBC

A entrevista durou quarenta minutos e ocorreu no município de Cotia, a 34 quilômetros da capital paulista. De um lado, estava o jornalista André Barcinski. Do outro, o cantor Nelson Ned.

“Demorei um tempão para localizá-lo”, relata Barcinski à BBC News Brasil.

“Na época, era difícil achar o Nelson. O cara andava sumido, muita gente achava que já tinha morrido. Marcamos a conversa num sítio, que eu pensava ser dele, pois todo mundo me dizia que seus álbuns tinham vendido um absurdo. Depois, soube que estava vivendo às custas da família.”

Era dezembro de 2012, e quatro anos haviam se passado desde que o cantor abandonara os palcos em caráter definitivo.

Praticamente cego e locomovendo-se numa cadeira de rodas, ele expressaria ao jornalista o desejo de ser lembrado como um homem romântico, intenso e amoroso.

Foi a última entrevista de sua vida.

“O Nelson já não tinha muita capacidade de concentração”, afirma Barcinski.

“Aos poucos, ele foi se esquecendo das coisas, dizendo frases desconexas, e a gente encerrou nossa conversa. Uma irmã já havia me avisado que ele vinha sofrendo com problemas neurológicos.”

Tamanha vulnerabilidade não condizia com as memórias que o jornalista carregava desde os anos 1970.

“A exemplo de todo mundo que foi criança na época, lembro do Nelson graças aos programas de auditório. Era uma presença visualmente impactante, aquela voz enorme saindo de um corpo tão pequeno. Ele se tornou famoso num tempo em que pessoas com nanismo tinham uma vida de clausura, escondidas pelos pais.”

As filhas do cantor, que também têm nanismo, falaram com a reportagem.

“Lá em casa sempre tinha um monte de artista”, lembra a atriz Verônica Ned.

“Eu aprendi a nadar com o Chacrinha, e nossa faxineira era apaixonada pelo Raul Gil. Para a gente, isso tudo era muito natural.”

Numa viagem a Miami, Verônica e a irmã perceberiam que o pai era um astro.

“O povo não deixava a gente andar”, recorda-se a fonoaudióloga Monalisa Ned.

“Os latinos da cidade gritavam, em espanhol, ‘saca una foto!’. Quando entramos no hotel, as camareiras enlouqueceram, apertando nosso rosto, dando uns tapas brutos, chamando a gente de ‘Ned’s babies’. E meu pai dava risada, dizendo que era famoso pra caramba.”

Até meados da década de 1980, Nelson Ned foi um dos cantores brasileiros mais populares do planeta, abarrotando qualquer estádio ou aeroporto em que pusesse os pés.

Singles de sua autoria eram uma presença constante nas paradas do continente americano, da Península Ibérica e da África lusófona. Ignorado pelas novas gerações, ele figura ainda hoje entre os maiores vendedores de discos na história do mercado fonográfico nacional.

Passados onze anos do fatídico encontro em Cotia, Barcinski publicou em novembro do ano passado o livro Tudo Passará – A Vida de Nelson Ned, o Pequeno Gigante da Canção (Companhia das Letras).

“Esse cara é tudo que um biógrafo pode querer. Sempre foi uma pessoa de extremos — o extremo da riqueza e da penúria, o extremo da libertinagem e da caretice, um sujeito capaz de amar e odiar com o mesmo fervor. Acho um personagem incrível, daqueles casos mais estranhos que a ficção”, diz o jornalista.

‘Um show de noventa centímetros’

Nelson Ned D’Ávila Pinto nasceu em Ubá, interior de Minas Gerais, no dia 2 de março de 1947. A mãe era soprano e multi-instrumentista; os tios tocavam flauta e violino. Regularmente, a família promovia saraus de música clássica.

“Era meio que um ritual”, lembra Verônica. “Meu avô assistia ao Jornal Nacional e desligava a TV. Depois, minha avó se sentava em frente ao piano, com todo mundo em volta, e tocava até as dez da noite. Quando a gente viajava para o sítio, ela ficava no acordeon. Quase todo dia rolava essa seresta.”

Nelson foi o primeiro membro da família a nascer com deficiência. Ele sofria de displasia espondiloepifisária, um tipo raro de nanismo, causado por mutações genéticas.

“Meu pai tinha uma caixa toráxica enorme e um pulmão bem forte”, explica Monalisa.

“Nossa tendência é sofrer uma escoliose, uma curvatura acentuada na coluna, mas isso não aconteceu com ele, talvez por ter praticado natação durante a juventude. Aí a musculatura acabou formando uma espécie de colete, e creio que isso tenha favorecido o canto, naquele estilo tenorzão que todo mundo conhece.”

Desde pequeno, Nelson chamava a atenção. Aos três anos, teve sua estreia na Hora do Guri, programa radiofônico que lançava artistas mirins em Ubá.

Em 1961, já morando na capital mineira, apresentou-se no Show de Prêmios DDE, atração veiculada pela TV Itacolomi, canal 4 de Belo Horizonte.

A convite da mesma emissora, interpretaria sucessos de Elvis Presley e Chubby Checker no Cirquinho do Bolão, espetáculo infantil patrocinado pela Lacta.

A fábrica de chocolates o empregava também como animador de rua — ele cantava numa Kombi cheia de bombons, percorrendo todas as escolas da cidade.

Dois anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro. Ali, foi acolhido por Silvio Santos, Hebe Camargo e Chacrinha.

“Num primeiro momento, a relação dele com a mídia era bastante cordial”, observa Barcinski.

“A imprensa estava satisfeita por ter descoberto um menino talentoso, e ainda por cima ‘anão’, como se dizia na época. As matérias continham várias piadas duvidosas com a altura dele, algo impensável nos dias de hoje.”

“Mas, apesar disso, eram simpáticas ao Nelson, retratado sempre como um garoto batalhador, um jovem superando o nanismo através da música.”

Em março de 1963, a revista O Cruzeiro publicou uma reportagem de duas páginas a seu respeito.

“Ele recebe cumprimentos olhando para cima”, dizia o texto. “Sob os refletores, mostra o verdadeiro tamanho do seu talento de gente grande.”

A matéria continha uma manchete sensacionalista, reaproveitada no ano seguinte como título do primeiro álbum do cantor: Um Show de Noventa Centímetros.

Na capa do LP, Nelson aparece ereto, junto a uma fita métrica, vestindo smoking sob a luz de um holofote azul. Sua verdadeira altura, intencionalmente omitida pelos executivos da gravadora Polydor, era de 1,12 m.

“Eu senti como era pesado o meu corpo pequeno”, diria ele sobre essa estratégia de marketing. “Eu não tinha cor, forma física, era apenas uma sombra branca para os produtores. Um simples anãozinho grotesco.”

O disco, com doze temas românticos, mostrou-se um fracasso de vendas, e o cantor foi dispensado pela gravadora.

‘Tudo passará’

Nos anos seguintes, Nelson Ned estreitaria laços com Chacrinha.

“Ele foi como um pai para mim”, disse. “Um homem respeitador, carinhoso, que acreditou no meu talento.”

De tempos em tempos, o apresentador convidava Nelson para acompanhá-lo nas gravações de seu programa, veiculado pela TV Excelsior, em São Paulo.

Nessas viagens, o artista conheceria as boates da cidade, realizando shows durante a noite; ao amanhecer, visitava gravadoras numa tentativa de emplacar seu trabalho.

Assim, conheceu Leonardo Schultz, maestro que o levaria à capital portenha em 1968, como atração do Festival Buenos Aires de la Canción. Nelson mostrou a ele uma música ainda inédita a ser apresentada no evento: Tudo Passará.

Schultz apossou-se da obra, negando créditos ao brasileiro.

Pouco depois, a balada ganhou uma gravação em espanhol, na voz do britânico Matt Monro, um dos cantores favoritos de Frank Sinatra. Versões em inglês, francês, turco, búlgaro, além de instrumentais, se sucederiam nos meses seguintes — todas citando Schultz como autor.

Nelson, porém, já havia registrado a música e ajuizou um processo de plágio contra o maestro — em 1975, um tribunal de Buenos Aires daria ganho de causa ao artista brasileiro.

O veredito determinou o pagamento de 8 mil dólares como indenização, mais 200 mil pelos royalties retidos.

Genival Melo, empresário do cantor, declarou à imprensa em fevereiro de 1969: “Nossa surpresa maior foi quando vimos aqui em São Paulo, lançado pela CBS, um disco de Carlos José, vertido do espanhol, sob o título Tudo Passará. Não era outra, senão a canção de Nelson Ned. Isso é o cúmulo, pois a música é brasileira.”

Dois meses depois, por influência de Genival, a Copacabana Discos lançou um compacto com a faixa, agora na voz de Nelson.

Já em maio, essa versão lideraria paradas radiofônicas por todo o país, às vezes superando os Beatles e Roberto Carlos. Imediatamente, a gravadora anunciou o segundo álbum do artista mineiro — também intitulado Tudo Passará.

Ao posar para a capa do LP, Nelson exigiu uma fotografia que ressaltasse sua estatura. Na imagem, ele aparece sentado, balançando as pernas sobre um imponente contrabaixo, com partituras ao fundo. O cantor assinava nove músicas do disco.

“São composições autobiográficas”, afirma Barcinski.

“Nas entrelinhas, percebemos que abordam a vida de um homem rechaçado por ser pequeno. É um álbum muito triste e pesado, sobre as angústias de alguém que não corresponde a certos padrões sociais.”

Todas as letras foram escritas na primeira pessoa. Além da faixa-título, inspirada no relacionamento de Nelson com uma prostituta, o disco trazia Camarim, registro confessional de sua existência solitária, e Tamanho não é Documento, em que o artista discorre explicitamente sobre nanismo.

“Você vive sempre a brincar comigo / Pode judiar de mim, que eu nem ligo / Sou pequeno, mas meu coração é grande / Bem maior do que o seu / Que já não cabe mais ninguém / Tamanho não é documento / Pelo menos tenho sentimento / Mas isso é coisa que você não tem.”

O ‘cantor do povão’

A partir de 1970, emissoras portuguesas levariam músicas do álbum às colônias lusófonas da África. No ano seguinte, Nelson Ned realizou uma turnê por Angola e Moçambique.

“É difícil entender como ele se tornou uma celebridade por lá”, explica Barcinski.

“Ainda não existia televisão nesses países, e os jornais locais não publicaram nenhuma reportagem sobre o Nelson. O mais provável é que tenha sido um fenômeno puramente radiofônico. Os africanos ouviam sua obra e se apaixonavam, talvez pelo fato de serem músicas sobre pessoas mal tratadas, que sofriam humilhações na vida.”

Nelson desembarcou em Luanda, capital angolana, em 16 de abril de 1971. Na pista do aeroporto, foi cercado por uma multidão de fãs incrédulos — nenhum deles sabia que o astro tinha nanismo.

Para confirmar a própria identidade, subiu nas costas de seu empresário e cantou Tudo Passará — o público, então, o acompanhou em uníssono. Foi a primeira vez que uma plateia estrangeira demonstrou idolatria por ele.

“Essa é uma das características que levam o Nelson a ser tão popular lá fora”, analisa Barcinski.

“Ele fala sempre pela perspectiva dos excluídos. Em suas músicas, indivíduos buscam algo, mas isso gera frustrações e cenas de intenso drama.”

“A sensibilidade dele sempre foi muito latina, desbragada, romântica, com forte inclinação ao bolero. Quando ele canta, a gente consegue visualizar claramente um monte de marmanjos aos prantos, enchendo a cara de tequila numa boate do México.”

Na terra dos mariachis, o brasileiro era um fenômeno: em 1984, o programa Globo Repórter noticiou que seus discos estavam entre os mais vendidos pelas lojas mexicanas, perdendo apenas para Michael Jackson e Silvia Tapia, uma cantora pop local.

O cartunista Henfil, que à época residia nos EUA, escreveu: “Nelson Ned é um dos mais importantes cantores do povão porto-riquenho nos EUA”.

O mineiro tinha 23 anos quando visitou Nova York pela primeira vez, a convite do Festival da Canção Latino-Americana. Sua apresentação, transmitida ao vivo para todo o continente, renderia a ele comparações com o francês Charles Aznavour.

Após o evento, a gravadora americana United Artists lançou Canción Popular, primeiro álbum de Nelson Ned em espanhol — e seu passaporte para o mercado internacional.

Em Iñapari, na fronteira da Bolívia com o Peru, o Jornal do Brasil testemunharia: “Os soldados, nessa cidade pacata, tranquila, quase parada, perguntam se temos discos de Roberto Carlos e Nelson Ned. Permanecem o dia inteiro, com uma velha vitrola movida a pilha, ouvindo dois compactos desses cantores.”

Em 1973, o cantor aterrissou na Colômbia, apresentando-se para 80 mil pessoas em uma arena de Bogotá.

No ano seguinte, realizou 72 shows em cassinos mexicanos e 22 espetáculos em Miami.

Meses depois, lotaria, por duas noites consecutivas, o Carnegie Hall — a mais importante casa de Nova York, em cujo palco João Gilberto e Tom Jobim haviam se revelado aos americanos.

O país dos rótulos

Ligado à bossa nova e casado com Elis Regina, o músico Ronaldo Bôscoli foi o maior detrator público de Nelson Ned, a quem se referia como um “anãozinho ridículo”. O astro não tardou a se manifestar.

“Esse senhor Bôscoli é personalidade fraca. Apesar de ser um compositor, ele aparece mesmo é através do nome de sua mulher. Do que se esquece é que as letras que faço são viris, ao contrário das dele, que são afeminadas. Eu jamais faria um troço parecido com O Barquinho ou Lobo Bobo”, disse Ned.

A relação de Nelson com a imprensa já não era mais a mesma. O tom paternalista das primeiras reportagens cedera espaço a uma avalanche de ataques à sua obra: dizia-se que o repertório era brega e que as letras primavam pelo mau gosto; os arranjos seriam cafonas, e a voz, excessivamente sentimental.

Como todos os cantores românticos de sua época, foi acusado de escapismo e alienação.

“Com alguma diplomacia, o Nelson talvez assegurasse seu lugar na história da música brasileira”, afirma Barcinski.

“Mas ele nunca foi um tipo apaziguador. Quando voltava dos EUA ou do México, esfregava o próprio sucesso na cara dos críticos.”

“Ele muitas vezes exagerava, mas não deixa de ser incrível que um jovem supostamente bronco, nascido no interior de Minas Gerais, tenha peitado todo o status quo da mídia brasileira. Suas entrevistas eram de uma violência enorme.”

Definindo o Brasil como o “país dos rótulos”, Nelson Ned partiu para o ataque: “O artista popular da minha linha não tem que se preocupar com a imprensa. Quem tem que se preocupar com a imprensa é Djavan, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, porque eles vivem da imprensa. Nós, não.”

“Somos cantores de rádio AM, somos homens do povo. Eu venho das massas populares, não fui criado nas elites de Ipanema ou do Leblon, nem represento essa bandeira esquerdizante, indefinida sexualmente. Eu represento o homem brasileiro, a passionalidade latino-americana e toda a virilidade que existe no bolero e na balada.”

Sobre os medalhões da MPB, enfileirava termos pouco amigáveis: “esquerdalha”, “manipuladores do poder”, “exploradores do pobre”, “cantores da desgraça alheia”, “cafetões da miséria brasileira”.

“Os metalúrgicos do PT gostam mesmo é de Nelson Ned, Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo e Ângela Maria.”

Politicamente, mostrava-se conservador, tendo se recusado por toda a vida a fazer shows em Cuba.

“Não canto para ditadores”, disse.

No entanto, fez turnês por diversos países com regimes autoritários de direita — a Argentina de Jorge Rafael Videla, o Haiti de Jean-Claude Duvalier, a Espanha de Francisco Franco e a África do Sul nos anos do apartheid.

Ao mesmo tempo, criticava Augusto Pinochet, defendia as Diretas Já e mantinha forte laços de amizade com o escritor colombiano Gabriel García Márquez — um fã confesso de sua música e apoiador declarado de Fidel Castro.

“Nelson se definia como um homem de centro”, observa Barcinski. “Hoje, em meio a tanta polarização, seria obviamente jogado na vala dos direitistas. Mas suas letras e declarações públicas não condiziam com essa imagem estereotipada de sujeito reacionário. Ele sempre defendeu os direitos das minorias.”

Para surpresa de muitos, o cantor abraçava pautas LGBT e denunciava o racismo da sociedade brasileira.

“Sou uma pessoa que aposta no amor e em todas as suas consequências”, disse.

“Inclusive tenho músicas com letras ambíguas, que insinuam o bissexualismo. Acontece que nossa cultura é discriminativa — preto na cozinha, cego na esquina, anão no circo, gay no picadeiro. Ou no banco dos réus, onde a TFP (Tradição, Família e Propriedade, organização civil tradicionalista de direita que apoiou a ditadura militar) é o maior carrasco.”

Segundo Monalisa, o pai antipatizava com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Mas, em costumes, era muito de esquerda”, diz. “Ele sempre respeitou os funcionários, era a favor de todos os direitos trabalhistas. Um conservador geralmente não dá a mínima para as pessoas, nunca pensa em lavar a própria louça, acha absurdo um empregado tirar licença porque quebrou o pé.”

‘Nedlândia’

As filhas garantem que tiveram uma infância suave, apesar da infidelidade paterna. Nelson Ned Junior, o irmão mais velho, nasceu em 1971, e Verônica, em 1973. Monalisa é fruto de uma relação extraconjugal, e veio ao mundo no mesmo ano que o primogênito.

A família morava numa luxuosa mansão no Alto da Boa Vista, zona sul de São Paulo.

“Meu pai era muito lúdico e contava histórias para a gente”, lembra Monalisa.

“Ele vivia falando coisas sobre a Nedlândia, um reino feliz onde só tinha cidadãos pequenos como nós quatro. Meu pai era o rei, eu e a Verônica éramos as princesas, e meu irmão, o príncipe. Pessoas grandes não entravam na Nedlândia, a não ser como bobos da corte, para nos servir. E a gente se achava, por ter um país só nosso.”

A estratégia de Nelson proporcionaria autoestima às crianças.

“Eu nem lembrava que tinha nanismo”, relata Verônica. “A menos que alguém colocasse objetos numa prateleira muito alta. De resto, a gente tinha uma vida normal. Ninguém ficava parado, pensando nisso. A gente foi viver.”

Contudo, as meninas dificilmente viam outras pessoas na mesma condição.

“Hoje, percebo que ficavam todos bem escondidos”, diz Monalisa.

Nelson se ausentava oito meses por ano. Longe da esposa e dos filhos, emendava shows internacionais com orgias em suítes de hotel. No final dos anos 1970, seu casamento ruiu.

“A separação dos meus pais até que foi tranquila”, afirma Verônica. “Mas quando chegamos à adolescência, tudo piorou. Foi quando ele se tornou um cara bêbado e drogado, superagressivo. A gente passava inúmeros perrengues, ia pra cama sem saber se acordaria viva. A vontade dele era de escurecer a casa na bala.”

Nelson vinha sofrendo dores nas costas, provocadas pelas sucessivas viagens de carro e avião. Para aplacá-las, automedicava-se com morfina — substância que lhe causaria sérios problemas oculares. Em 1976, perdeu a visão do olho direito; logo depois, viciou-se em cocaína.

Cada vez mais obcecado por armas, mantinha em sua residência uma pistola Beretta, um revólver calibre 38 e um Colt 45 banhado a ouro, que ganhara de Arturo Durazo Moreno — guarda-costas do então presidente mexicano, José López Portillo, e chefe do Departamento de Polícia na capital do país.

O vínculo com governistas de centro-direita permitiria a Moreno ser nomeado general cinco estrelas, ainda que nunca tivesse seguido carreira militar — sua fortuna multimilionária provinha basicamente do narcotráfico, além de sequestros e assassinatos por encomenda.

Em 1978, ele assistiu a um show de Nelson Ned na Cidade do México, enviando uma frota de carros oficiais para buscá-lo num resort. Dali, iriam para uma confraternização na sua casa de campo — uma enorme propriedade com lagos, hipódromo e uma réplica da discoteca nova-iorquina Studio 54.

Na Colômbia, a situação não era muito diferente. Traficantes locais despachavam aeronaves para São Paulo, a bordo das quais o brasileiro se dirigia a mansões particulares.

Quando não cantava em festas do crime organizado, Nelson fazia shows em boates gerenciadas pelos cartéis de Cali e Medellín — Pablo Escobar esteve presente em muitos desses eventos.

Tais excessos se intensificariam a partir de 1980, quando o artista conheceu Cida Rodrigues, a segunda esposa, morta em 2018. O casal saía todas as noites e voltava apenas pela manhã, ambos sob efeito de uísque e cocaína.

Durante a ressaca, irrompiam as brigas: Cida punha as roupas do marido no chão e ameaçava queimá-las; Nelson disparava contra o teto da sala.

Num sábado, 9 de abril de 1988, os filhos acordaram com um estampido. “Encontrei o patrão chorando”, diria Manoel Antônio Ramos, o motorista da família. “Havia manchas de sangue no hall de entrada e no caminho para a porta.”

O jornal O Globo anunciaria em sua capa: “Nelson Ned tenta matar a mulher com tiro no peito”.

Últimos boleros

Nelson chegou ao noticiário policial num período de intensas transformações do mercado fonográfico.

Naquele momento, o rádio brasileiro encontrava-se dividido: de um lado estavam as emissoras FM, com som estéreo e programação jovem, focada em pop rock; do outro, o AM, com sinal mais abrangente e ênfase no forró, sertanejo e música romântica.

Aos 40 anos, o cantor saía de moda e revelava desconforto com a crescente apatia do público.

“Não quero passar a imagem de ressentido, mas é estranho o que acontece”, declarou ao Jornal do Brasil.

“Toco nas FMs de Nova York, de Miami, do México, de tudo que é grande capital. Menos nas FMs brasileiras. Aqui, me chamam de brega e boicotam. Ora, são as mesmas rádios que tocam Julio Iglesias e Fábio Jr.”

Já em casa, mostrava-se aberto ao gosto musical dos rebentos. O quarto de Nelson Ned Junior era forrado com pôsteres do Iron Maiden, AC/DC e outros grupos ligados ao heavy metal; Verônica e Monalisa preferiam Menudo.

Quando a boy band porto-riquenha veio ao país, em 1985, Nelson promoveu um encontro das filhas com os rapazes, instalando-as no mesmo hotel que eles.

E, ao avistar Gene Simmons e Paul Stanley no Gallery, extinta casa noturna frequentada por ricaços paulistanos, ordenou a seu motorista que buscasse Junior — era a chance de o primogênito conhecer pessoalmente os integrantes da banda Kiss.

“Lá pelos dezessete anos, entrei numa fase meio rock and roll e não curtia o som do meu pai”, lembra Monalisa.

“Eu achava muito lento, melancólico, música de velho. A gente estava numa outra vibe, ouvindo Blitz, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, que eram mais a cara da nossa geração, e ele super entendia.”

“Mas de domingo, ele escutava só o que tinha vontade, aí era Frank Sinatra e Tony Bennett o dia todo. A gente sempre achou legal, era a onda do nosso pai, e estava tudo certo”, acrescenta Verônica.

Em 1993, Nelson produziu um álbum inteiramente dedicado ao bolero. Lançado pela gravadora independente Movieplay, El Romántico de América continha versões para dezoito clássicos do gênero, como Perfume de GardeniaCuando Tu Me Quieras e Perfídia.

O repertório homenageava Javier Solís, Lucho Gatica, Trio Los Panchos e outros artistas hispânicos que marcaram sua adolescência.

“Não sei por que ele gravou El Romántico de América”, afirma Barcinski.

“Imagino que tenha sido uma tentativa de recuperar suas vendagens no mercado latino. É um disco que está ‘pau a pau’ com qualquer obra-prima mexicana.”

“Você escuta e acha que foi produzido em Guadalajara. Mas, para nosso espanto, as gravações ocorreram aqui em São Paulo, num estúdio da Vila Mariana, com arranjadores, maestros, um coral e instrumentistas brasileiros, todos escolhidos pelo Nelson.”

O cantor, no entanto, havia engordado muito. Sem fôlego, mal conseguia permanecer em pé. Sua respiração estava comprometida, e pela primeira vez sentiu a voz falhar. Em frente aos colegas, teve uma crise de choro.

Outros problemas se sucederam durante as gravações. Nelson cheirava cocaína ininterruptamente, e as desavenças com Cida persistiam.

“Minha casa, uma mansão, era a antessala do inferno”, disse ele. “Toda noite havia brigas. Meus vizinhos não dormiam, chamavam a radiopatrulha, eu saía bêbado e insultava os policiais.”

Salmos

Os filhos já não residiam no Alto da Boa Vista — expulsos pelo pai em meio a um surto de agressividade, espalharam-se por três endereços diferentes.

Entristecidos, buscavam consolo no cristianismo. Hoje, Monalisa e Verônica são evangélicas.

Por indicação da filha caçula, Nelson leria os Salmos da Bíblia, sentindo-se tocado por um versículo que dizia: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto”. Foi o início de sua conversão religiosa.

“Isso salvou a vida dele, e toda a nossa família”, declara Verônica. “A gente vivia sempre num medo terrível, mas com aquela ponta de esperança. Nossa meta era salvá-lo, pois meu pai tinha apenas três caminhos — cadeia, hospício ou cemitério. A gente orava para ficar em paz, e por entender que a palavra de Deus faria essa transformação.”

Naquele mesmo ano, Nelson Ned assinou contrato com a Line Records, selo gospel da Igreja Universal, lançando o álbum Jesus Está Vivo. Entre as doze canções que integravam o LP, quatro eram de sua autoria: além da faixa-título, compôs Quando eu Falo de JesusJesus é a Saída e Para ti, Senhor Jesus.

O cantor nunca mais gravou um disco não religioso.

“Muita gente acha que meu pai renegou a própria obra, mas isso não é verdade”, alega Monalisa. “O problema é que ele sempre cantou o que vivia, e de repente se viu evangélico, apaixonado por Deus, e só conseguia escrever músicas sobre esse outro tipo de amor, que é o amor de Jesus.”

Apesar da mudança, Nelson orgulhava-se de todo o seu repertório.

“Nos shows, ele ainda cantava os antigos sucessos”, afirma Verônica. “Nunca houve empecilhos, porque não tem ‘putaria’ nessas músicas, é só dor de corno. E dor de corno, todo mundo sente.”

Nelson, agora, apresentava-se em cultos e templos, ganhando cachês inferiores e vendendo menos discos.

Boates e casas noturnas evitavam contratá-lo para shows, pois viam nas igrejas uma concorrência desleal.

Para economizar o dinheiro das passagens aéreas, o cantor viajava somente de carro, atravessando longas estradas na companhia de seu motorista. As orquestras e músicos de apoio foram substituídos por bases pré-gravadas, que ele mesmo carregava em CDs. Quase não recebia propostas no exterior.

Saudades de si mesmo

Certa noite, Cida avisou às enteadas que o marido não estava bem.

“Quando entrei no quarto, vi meu pai caído ao lado da cama”, relata Monalisa. “Ele não me respondia, nem se levantava. A gente ligou para uma ambulância e ele foi embora, sem plano de saúde. Depois desse dia, nunca mais voltou a ser o mesmo.”

Nelson tivera um derrame cerebral — após um mês de internação, o AVC o deixaria com a fala prejudicada e sequelas permanentes no lado esquerdo do corpo.

Sua última apresentação ocorreu em São Paulo, no dia 26 de abril de 2008, durante o evento Virada Cultural.

Às 19h daquele sábado, visivelmente fragilizado, o artista subiu num palco, esforçando-se para cantar seus clássicos à plateia que se aglomerava no Largo do Arouche.

Dali em diante, sua única fonte de renda seriam os royalties das músicas que compusera ao longo das décadas de 1970 e 80 — uma verba insuficiente para as despesas básicas da casa.

Ao visitá-lo, familiares se assustavam com os arranhões e hematomas que apareciam em sua pele. Um dia, a irmã de Nelson o resgatou — alegando que o levaria para um passeio, buscou o cantor no Alto da Boa Vista, para nunca mais voltar.

Em programas vespertinos da TV aberta, Cida acusou a família de sequestro. Em 2012, um incêndio destruiu a mansão, reduzindo a cinzas os Discos de Ouro que Nelson Ned ganhara ao longo da carreira.

Dois anos depois, Verônica visitou o pai numa clínica de repouso. As enfermeiras tentavam reanimá-lo — ele havia sofrido um desmaio, agravado por um quadro de pneumonia. A ambulância o levou para um hospital público de Cotia (SP), onde morreria nas primeiras horas de um domingo, 5 de janeiro de 2014.

As filhas consideram que esse foi o desfecho de um caminho vitorioso.

“Meu pai levou pontapés e sofreu dores de amor”, reflete Monalisa. “Mas também foi uma criança querida e um homem resiliente, mesmo na doença. Ainda acordo com frases dele ecoando dentro da minha cabeça. No fim da vida, ele sempre me perguntava se eu era uma pessoa feliz. E isso é muito bonitinho, sabe?”

Para Verônica, o percurso de Nelson Ned deve ser narrado integralmente, sem omissões.

“Acho importante falar sobre drogas, violência e alcoolismo”, diz. “Querendo ou não, foi a história dele, é impossível mudar esse fato. E não acho que meu pai tenha morrido feliz, porque ele sentia saudades de si mesmo, da própria essência.”

“Mas com certeza, ele partiu em paz. Eu sei para onde ele foi. E acredito que lá, esteja muito melhor do que todos nós aqui.”

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