“Brainrot”, vocĂȘ tem isso? Conheça esse efeito colateral da vida digital

Termo descreve a "deterioração mental" causada por consumir grandes quantidades de conteĂșdo de baixo valor, como memes e vĂ­deos sem sentido

Por CNN Brasil 28/06/2024

A internet estĂĄ cada vez mais maluca. Na verdade, nĂŁo a internet, porque ela sempre foi. Mas, a cada dia que passa, eu me surpreendo com o que as pessoas andam fazendo online, principalmente os jovens.

Se vocĂȘ Ă© millennial, como eu, e tinha uma certa esperança que a prĂłxima geração seria melhor e daria conta de um monte de coisas que nĂŁo conseguimos, bem
 nascer e crescer imerso em redes sociais parece que nĂŁo estĂĄ fazendo muito bem, pelo menos na construção de gosto e o que se escolhe consumir online.

brainrot

“Brainrot” pode afetar negativamente as habilidades cognitivas das pessoas/Foto: Unsplash/Taylor Deas-Melesh

Entender minimamente a GenZ (Geração Z) e a Geração Alpha tem consumido boa parte do tempo das minhas pesquisas online. Sacar os movimentos e tentar entrar na cabeça dos jovens é interessante e surpreendente, jå que os valores e gostos são completamente diferentes. E olha que pra muita coisa eu sou mais Z que Y.

Mas vamos para o que interessa. VocĂȘ jĂĄ ouviu ou viu, em algum lugar, termos como:

  • Skibidi Toilet
  • Level Five Gyat
  • Rizz
  • Fanum Tax
  • Only in Ohio
  • Sigma Looksmaxxing
  • Grimace Shake

Parece erro, palavras sem sentido, mas eles tĂȘm aparecido com frequĂȘncia em uma sĂ©rie de conteĂșdos virais, mais especificamente memes, e que tĂȘm sido atribuĂ­dos ao tal do “brainrot”. Se vocĂȘ perguntar para o Google Tradutor, nĂŁo vai conseguir nada. JĂĄ para o ChatGPT, ele traz uma luz. Olha sĂł:

ChatGPT oferece definição de termos que tĂȘm sido atribuĂ­dos ao "brainrot"

ChatGPT oferece definição de termos que tĂȘm sido atribuĂ­dos ao “brainrot”/Foto: Reprodução/ChatGPT

Acho que, com isso, vocĂȘ jĂĄ consegue ir sacando o que Ă© “brainrot”. Apesar desse termo ser antigo (usado desde 2004), Ă© agora que ele estĂĄ bombando em redes sociais muito usadas por jovens da GenZ, como o TikTok.

E nĂŁo Ă© pouco dizer que esses jovens internautas estĂŁo obcecados com a tal “brain rot” ou “brainrot”. Tanto que a prĂłpria viralização do termo explica muito o que estamos vivendo nos tempos atuais: “doomscrolling“, essa rolagem infinita nos nossos feeds, e tambĂ©m nosso estado online crĂŽnico.

Traduzido por “podridĂŁo cerebral”, “apodrecimento do cĂ©rebro” ou atĂ© “cĂ©rebro apodrecido”, o termo, ou condição, descreve a “deterioração mental” causada por consumir grandes quantidades de conteĂșdo de baixo valor, como memes e vĂ­deos sem sentido, que podem afetar negativamente as habilidades cognitivas e a capacidade de pensar criticamente.

Longe de ser um termo mĂ©dico ou cientĂ­fico, Ă© simplesmente um efeito colateral do nosso comportamento online, principalmente em redes sociais, frequentemente motivado por um desejo compulsivo de se manter atualizado, principalmente com eventos negativos, mesmo quando isso pode ser emocionalmente desgastante ou prejudicial para a saĂșde mental.

Basicamente, estamos gastando mais tempo e literalmente nos entregando e absorvendo grandes quantidades de informaçÔes irrelevantes e de baixa qualidade.

Sem entrar nas questĂ”es neurodegenerativas, nĂŁo precisamos de muito para entendermos que, ao consumirmos conteĂșdos piores, ficaremos piores. Ou seja, nossos cĂ©rebros vĂŁo trabalhar com o que recebem. Se consumimos porcarias, vamos pensar em porcarias. Simples assim.

E tem muita gente online falando que jĂĄ estĂĄ com “brainrot” sĂł de ter recebido ou passado por certos conteĂșdos, justamente porque estĂŁo muitos expostos a eles. E assim como os “slops” causam uma certa confusĂŁo mental, os conteĂșdos associados ao brainrot tambĂ©m, desassociando imagens ou conceitos de seus contextos reais.

Um exemplo Ă© a imagem de um soldado da Segunda Guerra Mundial com um olhar atordoado, que faz parte da pintura de Tom Lea “That 2,000 Yard Stare“, que Ă© usado em muitos conteĂșdos memĂ©ticos, e que TikTokers dizem ser brainrot.

Popularização e perigos

Fazendo uma pesquisa råpida no Google Trends, percebemos que tivemos uma procura maior do termo em 2005 e 2010, mas, a partir da segunda metade de 2023 até agora, o termo explodiu. E é interessante notar que esses picos estão muito associados à cultura gamer e a jogos que contribuíram com seu uso ao longo da década de 2010.

Inclusive, “brainrot” Ă© uma doença que os jogadores podem contrair no jogo de “2011 The Elder Scrolls V: Skyrim“. Em 2007, ano que muita gente considera o surgimento do termo, ele aparece em posts no X, nos quais os usuĂĄrios descreviam reality shows de namoro, videogames e certos comportamentos, como brainrot.

Um artigo recente do NYT, Jessica Roy relata como alguns usuĂĄrios do TikTok atĂ© começaram a criar parĂłdias de pessoas que parecem “ter” essa condição, ajudando, assim, na popularização, ridicularização e adoção do termo. E, apesar de nĂŁo ser um elogio falar que alguĂ©m tem brainrot, algumas pessoas demonstram um leve orgulho ao admitir a condição.

Em um quiz recente do BuzzFeed, dava atĂ© pra saber se “o seu cĂ©rebro estĂĄ 1000% cozido”. Outra leva de vĂ­deos fala que quanto mais gĂ­rias da internet uma pessoa usa, mais brainrot ela tem.

E apesar do humor que tudo isso traz, existe um lado bem ruim. Sabe quando a gente fica obcecado por algo e vĂȘ aquilo em todo lugar, ou quando gostamos tanto de um personagem ou uma celebridade e começamos a ficar parecidos com elas? Bem, consumir conteĂșdos de baixa qualidade pode nos deixar menos preparados a certaz situaçÔes e “menos inteligentes”, como colocam os jovens com brainrot. Muitos compartilham nas redes seu medo de ficaram “burros”.

Há muitos pesquisadores que estão se debruçando nesse tema, como o neurocientista Michel Desmurget, que tem um livro bastante controverso, assim como outros que se adentram nesse tema, “A fábrica de cretinos digitais: Os perigos das telas para nossas crianças”.

Esse medo de ficarmos piores cognitivamente Ă© real, porque somos o que comemos e consumimos. A “Geração Touch” e as “crianças de iPad” certamente carregam consequĂȘncias disso, tanto pela tela e o aumento de miopia, muita quantidade de luz azul, que traz alteraçÔes no sono, e por aĂ­ vai, atĂ© o que Ă© visto, assistido e lido.

Em toda a histĂłria da humanidade, acompanhamos as consequĂȘncias boas e ruins das mais diversas tecnologias que foram sendo introduzidas nas nossas vidas, e se tratando de internet, hoje e sempre, independente da tecnologia em si, sabemos que “gostamos” de certos conteĂșdos justamente pelo modo como nosso prĂłprio cĂ©rebro funciona.

Nem vou entrar nessa discussĂŁo, porque isso daria um outro texto, mas, no caso dos memes, eles sĂŁo divertidos, rola uma conexĂŁo emocional positiva com eles, e isso dĂĄ uma ajudinha na disponibilidade de dopamina no nosso cĂ©rebro. É entretenimento puro e viciante.

Por isso mesmo, existem muitos pesquisadores interessados no assunto, tanto que, nos Estados Unidos, diversas instituiçÔes de saĂșde jĂĄ estĂŁo estudando isso como um distĂșrbio. No artigo no NYT, Ă© citada a pesquisa do Hospital Infantil de Boston, que chama essa condição de “Uso ProblemĂĄtico de MĂ­dia Interativa”. E ela mostra que, conforme passamos muito tempo online, mudamos nossa percepção do espaço fĂ­sico para o online, e isso tem consequĂȘncias.

E a GenAI nessa histĂłria?

Brainrot estĂĄ na moda hoje em dia, assim como a GenAI (inteligĂȘncia artificial generativa). Mas serĂĄ que a IA estĂĄ ajudando a nos levar a um estado de brainrot generalizado?

Se o uso preguiçoso da GenAI pode nos fazer desenvolver menos algumas habilidades ao longo do tempo, nĂŁo hĂĄ dĂșvida. É como foi com a nossa memĂłria, tanto que hoje nĂŁo guardamos o nĂșmero do celular de quase ninguĂ©m. Claro que nesse cas,o Ă© reversĂ­vel, podemos treinar e melhorar, graças a neuroplasticidade cerebral.

Mas, assim como a internet estĂĄ se “slopificando”, ou seja, sendo tomada por conteĂșdos sem valor sendo gerados sinteticamente, nĂłs tambĂ©m poderemos acabar nos deparando cada vez mais com esse conteĂșdo, e (por que nĂŁo?) aumentando o brainrot, assim como nos enganando cada vez mais por conteĂșdos falsos. As consequĂȘncias de longo prazo nĂŁo sabemos, e muito estudo ainda serĂĄ feito, mas, com certeza, uma coisa pode alimentar a outra.

Deveríamos nos preocupar com o “brainrot”?

Em certo sentido, sim, embora devamos ser cautelosos ao soar o alarme sobre o que impulsiona ou leva ao “brainrot”. É muito fácil referir-se a praticamente qualquer coisa como causadora de “brainrot”, se formos pensar.

A cultura da internet sempre traz questĂ”es e termos interessantĂ­ssimos que podem nos fazer pensar e desenvolver muitas teorias e conceitos. Brainrot ainda Ă© uma expressĂŁo que carece de rigor cientĂ­fico, principalmente para descrever ou quantificar a saĂșde mental real. Mesmo assim, nĂŁo significa que devemos ignorar ou minimizar as preocupaçÔes que estĂŁo no cerne desse termo.

Texto escrito por Rita Wu

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