Em junho, em homenagem Ă s revoluçÔes levantadas por corpos LGBTQIAPN+ ao longo das dĂ©cadas, Ă© comemorado o mĂȘs do orgulho. Um dos acreanos que ganhou notoriedade por seu trabalho em prol da comunidade Ă© Lucas Dias, procurador regional dos Direitos do CidadĂŁo, responsĂĄvel pela ação civil pĂșblica que obrigou a ser incluĂdo no Censo 2022, questĂ”es de gĂȘnero e orientação sexual.

Procurador Regional do MPF/AC, Lucas Dias/Foto: Reprodução Redes Sociais
A ação ajuizada em março de 2022 na Justiça Federal do Acre contra o Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂstica (IBGE) ganhou repercussĂŁo nacional. Morando no Acre desde 2020, Lucas fala ao ContilNet para este domingo (16) sobre seu trabalho para a garantia de direitos destes cidadĂŁos e os desafios enfrentados em sua atividade:
âĂ um ofĂcio em que a gente fica responsĂĄvel pela proteção de direitos humanos no estado do Acre. O Brasil Ă© o paĂs que mais mata pessoas LGBT+ no mundo hĂĄ 15 anos consecutivos e eu tenho percebido que essa violĂȘncia tambĂ©m se manifesta no Acre, principalmente atravĂ©s das mĂdias sociais, esses ataques Ă comunidade LGBT+â, diz o entrevistado.
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Lucas coordena um grupo de trabalho, o grupo de trabalho LGBT+, dentro do MinistĂ©rio PĂșblico Federal (MPF) hĂĄ quatro anos. Sobre a decisĂŁo no IBGE, na Ă©poca, o MPF explicou que a falta de identificação da população LGBTQIAPN+ impede a criação de polĂticas pĂșblicas adequadas.Â

O Brasil continua sendo responsĂĄvel pela morte violenta de uma pessoa LGBTQIAP+ a cada 34 horas/Foto: Unsplash
âEssa Ă© uma demanda do movimento social desde os anos 80. Eu ajuizei ação cĂvil pĂșblica e ganhei a liminar para que fosse feita a inclusĂŁo, mas essa liminar foi derrubada pelo tribunal porque o IBGE nĂŁo tinha capacidade tĂ©cnica para fazer issoâ, explica Lucas.
Para o procurador, esse Ă© um caso que mostra a LGBTfobia institucional e a necessidade de uma instituição como o MinistĂ©rio PĂșblico Federal âfazer essas provocaçÔes e tentar de alguma forma alcançar transformaçÔes sociaisâ.
Lutas para mudar
O Brasil continua sendo responsĂĄvel pela morte violenta de uma pessoa LGBTQIAP+ a cada 34 horas, como apontado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) em 2023. Ou seja, problemas como esse precisam ser falados e debatidos em ambientes abertos como este ĂłrgĂŁo.

Congresso Nacional iluminado no Dia Internacional contra a LGBTFobia/Foto: Reprodução/Twitter @ErikakHilton
Recentemente, o MPF-AC conseguiu mais uma decisão sobre a modificação do RG Nacional. A nova carteira de identidade terå campo unificado para o nome.
âExiste uma violação de direito das pessoas trans muito evidente nesse formato. No Acre, nĂłs temos atuado para garantir a empregabilidade das pessoas LGBTQIA +. Temos instituiçÔes parceiras, e o prĂłprio Governo do Estado acatou uma recomendação que nĂłs fizemos no ano passadoâ, revela o entrevistado
Ele tambĂ©m trabalha com o bullying escolar, para que o MinistĂ©rio da Educação inclua uma postura antirracista e anti-homofĂłbica nas escolas. AlĂ©m da construção do primeiro ambulatĂłrio trans no Acre. E solicitou ao MinistĂ©rio da Justiça a inclusĂŁo dos dados de violĂȘncia contra LGBT+ no Brasil e no estado do Acre.
MĂȘs do orgulho
âEssa Ă© uma pauta que precisa ser constantemente lembrada e nĂŁo sĂł no mĂȘs do orgulho. Essa pauta precisa ser uma agenda permanente nas empresas e nos ĂłrgĂŁos pĂșblicos. Enfim, essas pessoas precisam efetivamente combater o preconceito dentro das instituiçÔes, sobretudoâ, declara Lucas Dias sobre as campanhas do mĂȘs do orgulho.

âEssa Ă© uma pauta que precisa ser constantemente lembrada e nĂŁo sĂł no mĂȘs do orgulho”, diz o procurador/Foto: Reprodução
Para Lucas, Ă© necessĂĄrio lembrar dessa data durante o ano inteiro para dar visibilidade Ă causa da comunidade.
Ao fim da entrevista, Lucas Dias cita a escritora, editora e professora estadunidense, Toni Morrison, criadora do livro âO olho mais azulâ, um estudo sobre raça, gĂȘnero e beleza:Â
âEste Ă© exatamente o tempo no qual os artistas devem trabalhar. NĂŁo hĂĄ tempo para desespero, nĂŁo hĂĄ lugar para auto piedade, nĂŁo hĂĄ necessidade para o silĂȘncio, nĂŁo hĂĄ espaço para o medo. NĂłs falamos, nĂłs escrevemos, nĂłs nos expressamos. Ă assim que as civilizaçÔes se curamâ, conclui.
Denuncie
Delegacias: Disque 190 â as delegacias devem atender todas as vĂtimas de homofobia e Ă© necessĂĄrio registrar um Boletim de OcorrĂȘncia.
Disque direitos humanos: Disque 100 â O atendimento acontece tambĂ©m via telefone.
A ligação é gratuita e funciona em todo território brasileiro, 24 horas por dia, sete dias por semana.

