O Fantástico deste domingo (18) revelou detalhes exclusivos da investigação do caso de um mĂ©dico do interior de SĂŁo Paulo que se tornou “dono” de parte da Floresta AmazĂ´nica e faturou R$ 800 milhões.
Durante dez dias, o programa percorreu terras para mostrar como ele conseguiu fraudar documentos e adquirir uma área do tamanho do Distrito Federal. Veja no vĂdeo acima.

Reprodução
O investigado é o médico e empresário Ricardo Stoppe Júnior. Ele é de Araçatuba, no interior de São Paulo. Segundo a investigação, há pelo menos 20 anos se tornou um dos maiores grileiros de terras no Norte do Brasil.
De acordo com o relatado pela investigação ao Fantástico, ele lucrou R$ 180 milhões com projetos de créditos de carbono e mais R$ 600 milhões com extração ilegal de madeira.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/h/a/pimGWlRnCUZBUWQMixUw/globo-canal-4-20240818-2000-frame-245703.jpeg)
Ricardo Stoppe Júnior — Foto: Reprodução/TV Globo
O esquema
A PolĂcia Federal diz que Ricardo armou um esquema de fraudes de documentos que o tornou proprietário, de papel passado, de mais de 500 mil hectares de áreas da AmazĂ´nia. Grande parte das terras, que tĂŞm o tamanho do Distrito Federal, pertence Ă UniĂŁo. Mas, ao mudar o passado, ele e seus sĂłcios conseguiram alterar o que os documentos oficiais diziam.
“Houve fraude. Uma mesma pessoa forjou essas duas folhas e inseriu de forma fraudulenta nos livros”, afirma JoĂŁo Pedro Alves Batista, perito criminal da PolĂcia Federal.
A perĂcia da PolĂcia Federal analisou dois livros de registros de imĂłveis rurais que tĂŞm quase 100 anos e comprovou como a organização de Ricardo StĂ´ppe JĂşnior montava processos criminosos de apropriação de terras. A quadrilha conseguiu inserir folhas falsas no livro de registros.
Segundo a investigação, tudo com pagamento de propina para que funcionários de cartórios da região e do Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, atestassem a operação, o que dava a aparência de ser uma documentação legal.
As negociações foram feitas por telefone.
“Doutor, Ă© o seguinte, eu tinha dado lá aqueles cem que o senhor mandou. Ele quer mais cem mil pra entregar o documento. Falou que o secretário tá p…, nĂŁo queria mais dar”, diz um áudio.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/R/L/Te1Z5ZRVO8JeoFRBb88w/globo-canal-4-20240818-2000-frame-248648.jpeg)
Conversa de Ricardo Stoppe com integrante da quadrilha — Foto: Reprodução/TV Globo
A polĂcia nega que Ricardo seja dono legĂtimo de algum pedaço de terra na AmazĂ´nia.
“SĂŁo todas terras da UniĂŁo. É uma grilagem que começou em torno de 2004”, ressalta o agente da PolĂcia Federal, Wilker Goular.
Segundo a PF, documentos indicam que o grupo forjou uma negociação comprando terras de uma famĂlia poderosa da regiĂŁo no passado, dona inclusive de um casarĂŁo que foi sede do governo do Amazonas.
Os investigadores dizem que enfrentaram muitas dificuldades por causa da falta de transparência nos processos de regularização de terras e porque as fraudes foram montadas com a participação de órgãos oficiais.
PrisĂŁo e restabelecimento de posses
Ricardo Stoppe Junior foi preso em junho deste ano. Mas as operações de busca e apreensĂŁo contra ele e os sĂłcios continuam. No mĂŞs passado, o Fantástico acompanhou a PolĂcia Federal e o ICMBio até Lábrea, no interior do estado do Amazonas, outra regiĂŁo em que o grupo atuou e que ainda Ă© ocupada e visitada por pessoas ligadas ao mĂ©dico.
Parte da área, onde há rios e cachoeiras, foi transformada na Floresta Nacional do Iquiri em 2008, mas Ricardo Stoppe ainda resolveu enfrentar a União pedindo uma indenização de R$ 100 milhões porque afirmou que ele seria o dono das terras. O processo foi suspenso pela Justiça.
Os fiscais foram até lá restabelecer a posse da floresta e voltaram a instalar a placa que é insistentemente arrancada pelos grileiros. Nela, o aviso: é uma área de proteção especial do estado.
A PolĂcia Federal identificou pelo menos 50 integrantes da organização. Os chefes do grupo, como Ricardo Stoppe JĂşnior e seus sĂłcios, serĂŁo indiciados por desmatamento, corrupção de servidores pĂşblicos, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
“A gente já pediu bloqueio e bloqueamos todas as matrĂculas fraudadas dessa organização criminosa e vamos pedir a restituição desse patrimĂ´nio para a UniĂŁo”, diz o delegado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/z/5/D8zcvXQG6swsoB7GenQw/globo-canal-4-20240818-2000-frame-245900.jpeg)
O ‘Dono da AmazĂ´nia’ — Foto: Reprodução/TV Globo
O que dizem os citados?
Em nota ao Fantástico, a defesa de Ricardo Stoppe JĂşnior disse que o mĂ©dico Ă© absolutamente inocente, que perĂcias tĂ©cnicas e contábeis vĂŁo esclarecer todas as acusações e que a prisĂŁo de Stoppe JĂşnior Ă© desnecessária, já que ele Ă© rĂ©u primário, sem antecedentes criminais.
A equipe do programa esteve nos endereços de Sâmara de Farias Silva, a oficial de cartório afastada, mas não conseguiu contato com ela.
O INCRA declarou tambĂ©m por nota que presta apoio total Ă Justiça, que passou a encaminhar os tĂtulos de terra duvidosos para análise de ĂłrgĂŁos, como o MinistĂ©rio PĂşblico Federal e a PolĂcia Federal, e que está investigando a conduta dos servidores envolvidos.
Já as empresas Moss e Verras declaram que, ao tomar conhecimento dos fatos, encerraram suas reações comerciais com as partes investigadas.
