Primeiros dias de outubro registram nĂșmero de queimadas maior do que os primeiros seis meses de 2024 em RO

Mesmo apĂłs chuvas, o estado somou 635 focos de incĂȘndio atĂ© o dia 09 de outubro, aponta o "Programa Queimadas", do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

Por G1 14/10/2024

Entre janeiro e 09 de outubro deste ano, RondĂŽnia registrou 9.979 focos de incĂȘndios, de acordo com dados do “Programa Queimadas” do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Um aumento de mais de 34% em relação ao ano todo de 2023, quando 7.417 focos foram registrados.

Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que a Ășltima chuva significativa observada no estado foi no dia 08 de outubro, na regiĂŁo central do Norte do estado, com acumulados em torno de 25 a 30mm/h. Apesar disso, o cenĂĄrio crĂ­tico de queimadas ainda Ă© uma realidade no estado.

Primeiros dias de outubro registram nĂșmero de queimadas maior do que os primeiros seis meses de 2024 em RO

IncĂȘndio em RondĂŽnia — Foto: Secom/Divulgação

Somente nos primeiros nove dias de outubro foram 635 focos registrados pelo Inpe. Esse nĂșmero Ă© maior do que o registrado nos seis primeiros meses deste ano, quando juntos somaram 465 focos de incĂȘndio. No cenĂĄrio nacional, RondĂŽnia ocupa a oitava posição entre os estados com maior nĂșmero de focos de queimadas do paĂ­s em 2024.

Fumaça e os prejuĂ­zos Ă  saĂșde

Quem tem problemas respiratĂłrios sofre ainda mais com tudo isso. É o caso da Isabelly Oliveira, ela tem 23 anos e foi diagnosticada com asma 5 anos atrĂĄs. Diante da cortina de fumaça que cobriu o cĂ©u do estado, ela sentiu de perto os impactos.

“Me impactou muito nas atividades do dia a dia, como sair de casa para ir trabalhar, academia e jogar basquete. Coisas que antes eram ‘normais’ me deixavam mais cansada com dor de cabeça e ardĂȘncia nos olhos. Era difĂ­cil atĂ© para dirigir, como eu tenho asma tive que fazer mais uso da bombinha e inalação pelo menos trĂȘs vezes ao dia, alĂ©m de incluir umidificador nos lugares onde fico mais tempo, como o trabalho e em casa”, relatou.

A dona Maria do Perpetuo Socorro Santana de Castro, de 66 anos de idade, teve que voltar a um hĂĄbito antigo, muito comum no tempo da pandemia de Covid-19: a mĂĄscara.

“Deixei de ir aos meus compromissos na igreja, passeios com a famĂ­lia e atividades ao ar livre. E quando tinha que sair usava mĂĄscara para me proteger. Tenho bronquite asmĂĄtica e com a fumaça minha saĂșde agravou, tive sangramento no nariz e cheguei atĂ© a ficar internada”, conta.

De acordo com o MinistĂ©rio da SaĂșde, a fumaça das queimadas contĂ©m gases tĂłxicos e partĂ­culas de fuligem que podem causar diversas doenças respiratĂłrias e pulmonares. A mĂ©dica pneumologista, Ana Carolina Terra, explica como a exposição Ă  fumaça pode ser tĂłxica para a saĂșde, principalmente para os mais vulnerĂĄveis como idosos, crianças e pessoas com problemas respiratĂłrios.

“Estamos falando de liberação de monĂłxido de carbono e outros diversos compostos quĂ­micos que ficam suspensos no ar, o que pode causar uma sĂ©rie de enfermidades. Quem jĂĄ tem doenças cardiopulmonares e pulmonares, como rinite, sinusite, bronquite, asma, entre outras, deve redobrar o cuidado. Para evitar complicaçÔes alguns cuidados incluem umidificar o ar, evitar a exposição a fumaça, hidratação, alĂ©m do uso de mĂĄscara quando estiver em exposição, isso pode colaborar diretamente na melhor qualidade do ar e saĂșde respiratĂłria”.

Outros impactos

Se para os seres humanos as sequelas sĂŁo grandes, para os animais a situação nĂŁo Ă© diferente. Em meio Ă s queimadas eles fogem em busca sobreviver, mas muitos nĂŁo conseguem. Dados do monitoramento do Corpo de Bombeiros Militar de RondĂŽnia, entre junho, quando os focos de queimadas foram intensificados no estado, atĂ© o dia 08 de outubro, apontam que ao menos 423 animais foram mortos em meio a incĂȘndios florestais. O biĂłlogo, FlĂĄvio Terassini fala sobre o impacto das queimadas para a biodiversidade.

“Imagine a quantidade de insetos, aves, mamĂ­feros, herbĂ­voros, enfim, a infinidade de animais que acabam sendo prejudicados durante os incĂȘndios florestais que acabam morrendo. A gente acompanha como essa frequĂȘncia das queimadas estĂĄ cada vez mais se prolongando, isso tende a ter uma perda maior, com isso infelizmente a gente tem espĂ©cies deixando de existir”, afirma o biĂłlogo.

Animais afetados por incĂȘndios — Foto: Reprodução

Animais afetados por incĂȘndios — Foto: Reprodução

As queimadas tambĂ©m afetam diretamente a agropecuĂĄria, reduzindo a oferta de alimentos como carne, grĂŁos e derivados. A saca de açĂșcar, por exemplo, sofreu uma queda significativa de produção devido Ă  queima de plantaçÔes de cana.

De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂ­stica (IBGE), os preços jĂĄ estĂŁo subindo: o leite aumentou atĂ© 32,1% entre julho e agosto, o cafĂ© subiu 4,02% e a carne bovina tambĂ©m foi impactada pelas queimadas. Veja:

  • Arroz: +30,13%
  • Tomate: +19,58%
  • Alface: +15,51%
  • Ovo: -8,09%
  • Batata: +69,90%
  • Carnes: +2,84%
  • Linguiça: -1,43%
  • FeijĂŁo: -17,45%
  • Leite: +32,1%
  • MamĂŁo: +17,58%
  • Banana: +11,37%
  • Queijo: +5,41%
  • CafĂ©: +4,02%
  • AçĂșcar: +3,70%
  • Carnes: +2,84%

O economista, Otacílio Moreira Carvalho, explica que em RondÎnia houve redução de estimativa da produção na safra 2024, estimada em 2,5 milhÔes de sacas, 16,4% menor do que a obtida na safra de 2023.

“Isso se dĂĄ pela mudanças da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na metodologia de apuração da ĂĄrea plantada com cafĂ©, devido ao ajuste nas estimativas de ĂĄrea total, em razĂŁo do trabalho de mapeamento do parque cafeeiro que a referida instituição vem fazendo no estado. Mas cabe destacar que condiçÔes climĂĄticas desfavorĂĄveis tambĂ©m contribuĂ­ram para essa queda na produção. Como a safra Ă© de um ano para o outro, em razĂŁo da forte estiagem que passa o estado e o paĂ­s, o grande problema serĂĄ para a safra 2024/2025, onde estĂĄ ocorrendo um atraso no plantio de grĂŁos, em especial a soja, e isso poderĂĄ trazer queda na produção em 2025 ”, disse.

O que estĂĄ sendo feito?

Para enfrentar, monitorar e prevenir os incĂȘndios criminosos no estado, o MinistĂ©rio PĂșblico de RondĂŽnia (MPRO) deflagrou a Operação TemporĂŁ, um movimento que visa combater crimes ambientais em ĂĄreas de reserva como o parque estadual GuajarĂĄ-Mirim e a Estação EcolĂłgica Soldado da Borracha e em outras regiĂ”es do estado tomadas pelo fogo.

A Operação foi deliberada pela Força Tarefa de Combate aos IncĂȘndios Florestais, criada para atender uma solicitação do MPRO, apĂłs reuniĂ”es com diversas instituiçÔes ambientais e forças de segurança do estado.

A missão é composta por agentes do Ibama, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Militar Ambiental, Comando de Fronteira do Exército, Secretaria de Desenvolvimento Ambiental, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros Militar e Politec com o apoio de mais de 300 agentes.

AtravĂ©s dos canais de denĂșncias do MPRO como o BalcĂŁo Virtual ou ligando para o nĂșmero 127, a população pode contribuir para reduzir os crimes ambientais.

Operação Temporã — Foto: MP-RO

Operação Temporã — Foto: MP-RO

De acordo com o promotor de justiça do MPRO e coordenador do grupo de atuação especial do meio ambiente, o Gaema, Pablo Hernandez Viscardi, o principal objetivo é atuar com medidas preventivas para que este cenårio não se repita nos próximos anos.

“Desde o começo de agosto, quando a gente detectou que os focos de incĂȘndio aumentaram significamente no estado de RondĂŽnia, nĂłs percebemos que atĂ© entĂŁo todo o planejamento que tinha sido produzido estava sendo insuficiente por conta da situação extrema que estĂĄvamos vivenciando. Foi aĂ­ que surgiu, junto aos demais ĂłrgĂŁos de combate Ă  queimadas e incĂȘndios, a força-tarefa chamada Operação TemporĂŁ. Creio que agora hĂĄ de fato uma polĂ­tica pĂșblica de combate, embora tardia, mas que existiu e que sirva de lição para que no ano que vem a gente comece a planejar e executar as açÔes desde fevereiro. Principalmente, para que a gente previna o inĂ­cio dos focos de incĂȘndio, a nossa atuação precisa ser preventiva e Ă© para isso que o MPRO vai lutar ano que vem, uma atuação efetiva preventiva”, destacou.

Outras açÔes de combate

Combate a queimadas em Rondînia — Foto: Secom/ Divulgação

Combate a queimadas em Rondînia — Foto: Secom/ Divulgação

No final do mĂȘs de agosto, o Governo do Estado decretou a suspensĂŁo do uso do fogo para combater queimadas. O Decreto nÂș 29.428 afirma a suspensĂŁo do uso do fogo em todo o estado por um perĂ­odo de 90 dias. AlĂ©m disso, a contratação de mais 126 brigadistas temporĂĄrios foi incluĂ­da nas açÔes.

O combate aos incĂȘndios florestais tambĂ©m foi reforçado com dois aviĂ”es Air Tractor, cada aeronave possui capacidade de 2 mil litros de ĂĄgua e suporte de quatro lançamentos por hora em uma distĂąncia de atĂ© 80 quilĂŽmetros. Com um total de 800 horas contratadas, as novas aeronaves jĂĄ estĂŁo atuando para a diminuição dos danos causados pelos incĂȘndios florestais criminosos em RondĂŽnia.

Durante este perĂ­odo crĂ­tico, o cĂ©u azul de RondĂŽnia foi ‘apagado’ pelo cinza das fumaças. Confira algumas imagens de antes x depois em pontos da cidade de Porto Velho, capital de RondĂŽnia.

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