“Caiu olhando para mim”: a cronologia da morte de estudante pela PM

“Caiu olhando para mim”: a cronologia da morte de estudante pela PM

Por MetrĂłpoles 25/11/2024 Ă s 08:31

“Ele me fez reconhecer quem eu sou”, revelou a jovem que estava junto com o estudante Marco AurĂ©lio Cardenas Acosta, de 22 anos, quando ele foi baleado Ă  queima-roupa por um policial militar dentro de um hotel na Vila Mariana, zona sul de SĂŁo Paulo, na Ășltima quarta-feira (20/11). Gabi Morena, como Ă© conhecida Gabriele, de 21, relatou ao MetrĂłpoles como foi o dia da morte de Marco.

A jovem estava em um bar com suas amigas quando viu o estudante, tambĂ©m conhecido como “Bilau” e Boy da VM, passar com seus amigos. HĂĄ dois anos sendo “mais do que amigos”, eles costumavam se encontrar e sair juntos com frequĂȘncia.

“Caiu olhando para mim”: a cronologia da morte de estudante pela PM

Reprodução

No dia em que Marco foi baleado, Gabriele notou que ele estava bĂȘbado. “Quando ele bebia, eu nĂŁo gostava de ficar perto dele, porque ele ficava diferente, nĂŁo ficava agressivo, ele nĂŁo era uma pessoa ruim. Mas ele ficava diferente, e eu sentia”, admitiu. Ela contou que o estudante gostava muito de beber gin. “Ele sĂł bebia gin, ele nĂŁo bebia mais nada, ele nĂŁo usava drogas. Foi sĂł isso que ele tomou nesse dia”, revelou.

Ela contou que voltou para sua casa por volta de 1h e mandou mensagem para Marco, perguntando se ele ainda estava na rua. O estudante havia chamado Gabriele para ir ao Hotel Flor da Vila Mariana, local onde o jovem foi morto pelo PM. Segundo ela, os dois costumavam frequentar o estabelecimento, tanto que o recepcionista nem pedia mais o documento deles. Eles marcaram de se encontrar ainda naquela madrugada, por volta de 2h. Gabriele pediu um carro de aplicativo, e eles foram para lĂĄ.

Veja a conversa:

Gabriele Elias detalhou como era sua relação com Marco Aurélio Cardenas Acosta. Ela estava no hotel quando o estudante de medicina foi morto - Metrópoles

Conversa entre Gabi e Marco – Arquivo pessoal

“Quando chegamos lá, a gente pagou uma hora e subiu. Só que ele estava falando umas asneiras para mim, estava me tratando com certo desrespeito”, explicou Gabriele sobre o motivo pelo qual tentou sair do quarto do hotel (veja abaixo). “Ele jogou o travesseiro do hotel pela janela. Quando ele foi tentar jogar minha garrafinha de água, eu peguei o celular para gravar, e ele parou. Nessa hora, eu tentei abrir a porta de novo, e ele me deu um empurrão”, revelou.

“A agressĂŁo que tanto falam Ă© esse empurrĂŁo. Mas nĂŁo tem nada a ver com a nossa discussĂŁo. Sim, ele me empurrou, eu tive que falar isso porque eu tive que falar exatamente o que aconteceu para eu [querer] sair do quarto”, relatou. Foi nesse momento que Gabriele decidiu que ia embora sem Marco.

Veja:

Ao sair do quarto, a jovem decidiu se esconder na recepção enquanto esperava seu carro de aplicativo chegar. “Eu pensei comigo mesma: ‘Eu conheço a peça, se eu for embora com ele, ele vai o caminho inteiro resmungando no meu ouvido’”, ponderou. Segundo ela, a ideia era esperar ele sair do hotel, entrar no carro e ir embora para casa.

Escondida, ela nĂŁo chegou a ver o momento em que Marco pulou a escada (veja abaixo), mas o ouviu descendo. “Quando eu falo que ele Ă© travesso, eu falo disso. Ele nĂŁo Ă© um criminoso por isso”, disse.

Veja:

No momento em que Marco saiu do hotel, ele mandou uma mensagem para Gabriele, questionando o porquĂȘ de ela ter ido embora daquele jeito. Ele nĂŁo sabia que a amiga ainda estava escondida dentro do estabelecimento quando enviou o texto. “Eu sĂł fui ver essa mensagem depois que o cara jĂĄ tinha atirado nele. Eu acho que ele tentou entrar para me avisar, mas nĂŁo deu tempo”, disse.

A Ășltima vez que Marco AurĂ©lio Cardenas Acosta havia aberto seu WhatsApp foi Ă s 2h48. Ele foi morto por volta das 2h50.

Veja a Ășltima mensagem que Gabriele recebeu de Marco:

Gabriele Elias detalhou como era sua relação com Marco Aurélio Cardenas Acosta. Ela estava no hotel quando o estudante de medicina foi morto - Metrópoles

A Ășltima vez que Marco AurĂ©lio Cardenas Acosta havia aberto seu WhatsApp foi Ă s 2h48. Ele foi morto por volta das 2h50 – Arquivo pessoal

O tiro

“Foi tudo muito rĂĄpido”, falou Gabriele sobre a sequĂȘncia de eventos. Ela lembra de ver Marco “se defendendo, tentando”, mas ele estava encurralado. Ela estava gritando, pedindo para os policiais pararem, quando o recepcionista a puxou para o lado. “Eu ouvi o barulho do disparo em menos de 5 segundos. Foi algo que traumatizou a minha vida”, revelou.

“Eu tirei ele [recepcionista] da frente e vi ele [Marco] caindo lentamente, olhando para mim. É algo que nunca vai sair da minha cabeça. Ele olhava para mim, ele não chorava, ele não esboçava nada, ele só me olhava”, contou Gabriele. “Em menos de 2 minutos, ele [policial] baleou uma pessoa que era tudo para mim.”

A jovem foi colocada em um quarto, onde teve que ficar “presa” atĂ© o socorro chegar. Segundo ela, a ambulĂąncia demorou. Enquanto esperava, ela lembra de ouvir os agentes da PolĂ­cia Militar falando que Marco era “louco” por bater na viatura (veja abaixo). “Levaram o meu menino a troco de nada”, lamentou.

Veja o momento em que Marco bateu na viatura:

Gabi foi com Marco na ambulĂąncia. De acordo com ela, “negaram colocar o oxigĂȘnio nele porque ele estava se debatendo, mas nĂŁo quiseram prender ele na maca e nĂŁo estancaram o machucado”. A jovem foi embora do hospital achando que o estudante ia apenas fazer uma cirurgia e ia sobreviver.

“Eu fiquei sabendo que ele morreu pela boca de quem atirou, horas depois de ele ter morrido”, contou Gabriele. Ela explicou que teve que perguntar aos policiais como estava sendo a cirurgia. “Ele falou: ‘[o Marco] Faleceu’, como se só eu não soubesse.”

O principal desejo da jovem neste momento era voltar no tempo. “Eu daria tudo para não ter saído de casa nesse dia, para não ter discutido com ele, para não ter ido embora”, disse.

“Eu nunca vou esquecer a carinha dele me olhando. Eu queria muito ter ajudado ele, eu queria muito poder voltar no tempo, teria deixado ele me xingar bĂȘbado mesmo, mas eu nĂŁo ia ter perdido o meu menino”, desabafou Gabi. “Ele nĂŁo deve estar feliz comigo por eu estar pĂ©ssima e destruĂ­da. Um pedaço de mim foi com ele. Eu daria tudo para ele estar aqui de volta.”

Pedido de ajuda

Às 2h59, Gabriele mandou mensagem para a cunhada de Marco AurĂ©lio. “VocĂȘ jĂĄ deve me conhecer”, diz a jovem, começando o relato do que havia acontecido. Ela afirma ter levado o estudante para o hospital e ligado para o irmĂŁo dele, Frank Cardenas, apĂłs Marco AurĂ©lio levar o tiro.

Gabriele faz um apelo para a famĂ­lia “pegar a cĂąmera” do hotel, indicando que o circuito interno do estabelecimento registrou o acontecido. “Ele estava completamente indefeso, nĂŁo revidou. VĂĄ atrĂĄs do direito de vocĂȘs”, disse, em lĂĄgrimas.

Ela ainda escreve que “o de bigodinho”, referindo-se ao policial que efetuou o disparo, jĂĄ havia enquadrado Marco AurĂ©lio anteriormente. “Acho que marcou a cara dele.”

Veja a conversa:

“Ele iluminava minha vida”

Como tudo começou

“Eu sou a Gabriele, graças ao Marco, conhecida como Gabi Morena há pouco mais de um ano. Ele que me incentivou a começar na carreira do funk, eu não assumia. Ele falava que eu era ‘fiote’ dele e eu não assumia, mas, realmente, eu comecei a cantar por conta dele, porque ele sempre gostou de cantar, e eu ajudava ele. Foi aí que surgiu a Gabi Morena. Ele me fez reconhecer quem eu sou.”

Como era o Marco como pessoa

“O boy iluminava minha vida há mais de 2 anos, todos os dias. A gente tinha brigas, sim. Como a família dele falou, ele era um anjo travesso, isso define muito. Ele era maravilhoso com tudo e com todos, um ótimo amigo, irmão, filho e companheiro. Mas ele fazia as suas travessuras.”

“Quando eu digo que ele iluminava os meus dias, Ă© porque jĂĄ aconteceu muita coisa ruim na minha vida, uma delas foi eu perder a minha irmĂŁ, este ano. Ele estava comigo, enxugando as minhas lĂĄgrimas, falando: ‘Calma, ela estĂĄ te olhando, e eu estou aqui’. Ele se preocupava se eu tomava cafĂ© da manhĂŁ e, quando eu nĂŁo tomava, ele ia atĂ© a minha porta levar. Ele se preocupava se eu almoçava, se eu jantava, se eu estava bem. Ele estava orgulhoso de mim.”

“Ele sempre foi um menino do bem, estudioso, amigo. Ele sempre ajudou muitas pessoas na rua, eu via ele ajudando moradores de rua, crianças. Ele ajudava todos. Às veze, ele só tinha R$ 5 no bolso e ele ajudava as pessoas. Eu admirava ele por isso.”

Como era o relacionamento

“A gente nunca gostou que cuidassem da nossa vida, entĂŁo a gente fingia que nĂŁo Ă©ramos nada um do outro. Mas todo mundo via e comentava o quanto a gente se gostava sĂł pelo nosso olhar. Estava na nossa cara a admiração que a gente sentia um pelo outro. A gente nĂŁo se desgrudava para nada. Vai muito alĂ©m de qualquer coisa, de algo casual, de dinheiro. Ele era o meu melhor amigo, ele se tornou alguĂ©m da minha famĂ­lia, eu contava tudo para ele. Ele era o meu diĂĄrio, e eu era o diĂĄrio dele.”

“Ele sempre voltava da faculdade com uma histĂłria nova para contar e sempre com muita alegria no rosto. Fazendo piada, Ă s vezes dando atĂ© raiva. Ele ficava cantando do meu lado, e eu falava: ‘Meu Deus, fica quieto, eu estou ficando com dor de cabeça já’. Mas eu daria tudo para ouvir ele cantando aqui comigo. Nesse momento, eu estou na rua da minha casa, e todos os cantos, todos os lados que eu olho, eu vejo ele. Eu vejo ele em todo lugar. Porque sempre que eu saĂ­a de casa, ele estava me esperando.”

“Eu nĂŁo vou mais saber o que Ă© acordar e nĂŁo ter uma mensagem dele de bom dia, perguntando se eu dormi bem
 Uma mensagem falando que estĂĄ em um hospital novo, que viu vĂĄrios bebezinhos fofinhos na ĂĄrea de pediatria
 Me levar para comer
 Eu nunca mais vou fazer nada disso com ele. Todo lugar que eu vou, eu lembro dele.”

“Quando eu ficava triste, com crises de ansiedade, ele me acalmava. Ele falava: ‘NĂŁo fica assim, vocĂȘ Ă© maravilhosa’. Ele tambĂ©m me falava: ‘SerĂĄ que a gente nunca vai dar certo?’, e eu falava: ‘É. Agora vocĂȘ se arrepende, agora Ă© tarde, perdeu’, mas eu falava isso estando com ele, eu sempre estava com ele.”

Como a família lidava com a relação

“Os pais dele nĂŁo concordavam muito [com o relacionamento do casal]. Mesmo assim, ele fugia para vir me ver. Ele passava por cima da mĂŁe, dos irmĂŁos, de todo mundo para estar comigo. E eu fazia a mesma coisa. Minha mĂŁe jĂĄ brigou tanto comigo: ‘O que vocĂȘ estĂĄ fazendo na rua com esse menino?’. Mas nĂŁo tinha jeito. Ele fazia parte da minha vida. NĂŁo tinha como. Eu nĂŁo vou falar que ele era o meu melhor amigo porque quando eu falava que a gente era sĂł amigo, ele ficava bravo. EntĂŁo, eu falo assim: ‘Ele era tudo para mim, tudo.’”

“A famĂ­lia dele se dedicou tanto, foram 5 anos. Ele tinha 22, ia se formar bem novinho. Ele tinha tudo pela frente. O sonho dele era ser pai, ele tinha potencial para arrumar uma mulher maravilhosa, nem que nĂŁo fosse eu. Tiraram isso dele. Tiraram ele da famĂ­lia, tiraram ele de mim. Uma vez ele falou que ele ia morrer cedo, ele falava: ‘SerĂĄ que eu vou viver atĂ© os 50 anos?’”.

Estudante de medicina morto pela PM

Marco Aurélio Cardenas Acosta, de 22 anos, morreu após levar um tiro à queima-roupa de um policial militar durante uma abordagem dentro do hotel na Vila Mariana.

Uma cùmera de segurança do estabelecimento registrou a ação. Pelas imagens (assista abaixo), é possível ver o momento em que Marco Aurélio entra correndo no hotel. Ele estå sem camisa. O soldado da PM Guilherme Augusto também entra, logo em seguida, e puxa o jovem pelo braço, com a arma em punho.

Veja:

O estudante consegue se desvencilhar, quando outro policial, o soldado Bruno Carvalho do Prado, aparece e lhe då um chute. O jovem segura o pé do PM, que se desequilibra e cai para trås. Nesse momento, o PM Augusto då um tiro em Marco Aurélio.

No boletim de ocorrĂȘncia (B.O.), os PMs alegaram que Marco AurĂ©lio Cardenas estaria “bastante alterado e agressivo” e teria resistido Ă  abordagem policial. AlĂ©m disso, o documento aponta que, “em determinado momento, [Marco AurĂ©lio] tentou subtrair a arma de fogo que o soldado Prado portava, quando entĂŁo o soldado Augusto efetuou um Ășnico disparo, a fim de impedi-lo”.

As imagens do circuito interno do hotel mostram, no entanto, que o PM Augusto atirou apĂłs o soldado Prado dar um chute no estudante, ter a perna segurada por ele e cair para trĂĄs, desequilibrado. No vĂ­deo (assista acima), nĂŁo Ă© possĂ­vel ver Marco AurĂ©lio tentando pegar a arma do agente – ao contrĂĄrio do que foi narrado na delegacia.

Segundo a Secretaria da Segurança PĂșblica (SSP), antes do momento registrado no hotel, o estudante “golpeou a viatura policial e tentou fugir”. A pasta tambĂ©m informou que os PMs prestaram depoimento, foram indiciados em inquĂ©rito e permanecerĂŁo afastados das atividades operacionais atĂ© a conclusĂŁo das apuraçÔes – as polĂ­cias Militar e Civil apuram o caso.

AlĂ©m disso, a SSP afirmou que as imagens registradas pelas cĂąmeras corporais serĂŁo anexadas aos inquĂ©ritos conduzidos pela Corregedoria da PolĂ­cia Militar e pelo Departamento de HomicĂ­dios e Proteção Ă  Pessoa (DHPP), apesar de a informação nĂŁo constar oficialmente no boletim de ocorrĂȘncia.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.