A Câmara dos Deputados apresentou nesta sexta-feira ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedido de desbloqueio de emendas que tiveram seu pagamento suspenso pelo ministro Flávio Dino na segunda-feira. O documento alega que nĂŁo houve descumprimento das regras vigentes quando 17 lĂderes da Casa enviaram um ofĂcio ao Executivo pedindo a liberação de R$ 4,2 bilhões das chamadas emendas de comissĂŁo. Ao bloquear a execução da verba, Dino entendeu que a medida desrespeitou regras previamente acordadas que previam a aprovação dos colegiados e a identificação dos autores de cada indicação.

Reforma Tributária – Câmara dos Deputados aprova regulamentação da reforma em plenário do Congresso. Arthur Lira e JosĂ© GuimarĂŁes. — Foto: Brenno Carvalho / AgĂŞncia O Globo
O requerimento para desbloquear os recursos foi enviado um dia após o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), se reunir com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e fazer um pronunciamento no qual afirmou que o governo deu aval para que a execução dos recursos, dividindo a responsabilidade pela iniciativa. A petição enviada ao STF também reafirma que o pedido teve a anuência do governo federal.
O documento entregue pela Câmara ao STF diz que nĂŁo há indicação de emendas sem aval das comissões, como determina a regra aprovada no mĂŞs passado pelo prĂłprio Congresso. “O ofĂcio geral encaminhado pelos senhores lĂderes ao Poder Executivo trata de indicações de emendas, nĂŁo da criação ou aprovação de novas emendas Ă revelia das Comissões”, diz a petição.
O bloqueio, contudo, foi determinado por Dino apĂłs PSOL e Novo acionarem o STF apĂłs discordarem da forma que parte das emendas foram realocadas. Dos R$ 4,2 bilhões, R$ 180 milhões sĂŁo apresentadas como “novas indicações”, sendo que 40% (R$ 73 milhões) sĂŁo direcionados ao Estado de Alagoas, reduto eleitoral do presidente de Lira.
No documento, a Câmara tambĂ©m justifica a suspensĂŁo do funcionamento das comissões temáticas da Casa no dia 12 de dezembro. Essa suspensĂŁo foi apontada por deputados como uma manobra para que os lĂderes pudessem fazer indicações das verbas sem passar pelo aval dos colegiados. A petição afirma que essa suspensĂŁo ocorreu para que os trabalhos da Casa pudessem se concentrar nas votações do plenário e, dessa forma, permitir o avanço de projetos importantes, como o pacote de corte de gastos apresentado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
AlĂ©m de suspender o pagamento dessas emendas, Dino fez crĂticas ao que considerou uma “degradação institucional” devido a denĂşncias recorrentes de desvio de verbas, como “malas de dinheiro” sendo apreendidas em operações da PolĂcia Federal, o que gerou um ciclo de denĂşncias de irregularidades.
Em seu despacho, o ministro também condicionou a liberação dos valores relativos a 2025 ao cumprimento de normas impostas em decisões anteriores para dar mais transparência.
A decisão de Dino foi provocada por uma ação apresentada pelo PSOL. A petição da Câmara afirma que a essa representação “não corresponde à verdade e revela profundo desconhecimento do processo legislativo orçamentário. Essas informações imprecisas e descontextualizadas impedem a correta apreciação e valoração dos fatos”.
Para evitar novos conflitos com o Legislativo, o governo agiu desde o inĂcio para tentar destravar as emendas. ApĂłs deputados do PSOL avisarem que iriam ao STF para suspender novamente os pagamentos, a Casa Civil divulgou um parecer nesta terça-feira no qual diz entender nĂŁo haver irregularidades na iniciativa da Câmara. A avaliação da Secretaria de Assuntos JurĂdicos (SAJ), ĂłrgĂŁo de assessoramento jurĂdico do governo, Ă© que a regra que prevĂŞ aval das comissões sĂł vale a partir de 2025.
Diante de ameaças do Congresso de travar a votação do pacote de ajustes fiscal, o governo montou no inĂcio do mĂŞs uma força-tarefa para tentar destravar o pagamento de emendas parlamentares. A preocupação no Palácio do Planalto era a que o impasse perdurasse e impedisse a aprovação das medidas necessárias para adequar o Orçamento de 2025 antes da virada do ano.
O Congresso aprovou o pacote fiscal do Ministério da Fazenda antes do recesso legislativo, porém, encerrou o ano sem aprovar a Lei Orçamentária, o que impede o governo de iniciar 2025 com o acesso total aos recursos.

