CĂ©lia Rocha, mĂ©dica e ex-diretora clĂnica do antigo Hospital Distrital, hoje conhecido como Hosmac, relembra com orgulho os anos em que esteve Ă frente da unidade, acumulando experiĂȘncia e vivĂȘncia no cuidado Ă saĂșde mental.
Durante oito anos de gestĂŁo, CĂ©lia destacou-se pelo relacionamento prĂłximo com os funcionĂĄrios e pacientes, alĂ©m de implementar prĂĄticas inovadoras para melhorar a qualidade de vida e o tratamento dos internos. Entre as iniciativas, ela cita a criação de uma horta nas dependĂȘncias do hospital, fruto de uma parceria com a Emater.
âConversamos com a diretora da Emater e recebemos assistĂȘncia tĂ©cnica para materializar essa ideia. Selecionamos pacientes em melhores condiçÔes mentais, que trabalharam na horta. Foi uma excelente praxiterapiaâ, relembra. Na horta, eram cultivadas verduras e legumes, incluindo nabo, proporcionando alimentos frescos e nutritivos. Outra ação que marcou o perĂodo foi a criação de um galinheiro. Pacientes em condiçÔes de colaborar assumiam a manutenção do espaço, fortalecendo o vĂnculo com o ambiente e promovendo uma rotina terapĂȘutica. âEles desfrutavam de uma alimentação farta e de qualidadeâ, destaca CĂ©lia.
âTĂnhamos uma despensa maravilhosa, cozinha industrial e lavanderia bem equipada. O Distrital lavava as roupas da Maternidade BĂĄrbara Heliodora e fornecia medicamentos para o Hospital de Base.â Uma farmĂĄcia com medicamentos e materiais cirĂșrgicos tambĂ©m fazia parte da estrutura. AlĂ©m disso, a assistĂȘncia mĂ©dica era conduzida com dedicação e trabalho em equipe. âNossos pacientes, quando tinham alguma intercorrĂȘncia clĂnica, eram tratados por mim mesma, com o apoio de outros profissionais especializados quando necessĂĄrio. TrabalhĂĄvamos com muita solidariedadeâ, afirma.
A parceria entre CĂ©lia Rocha e o diretor geral da Ă©poca, o psiquiatra JosĂ© Joaquim Costa JĂșnior, foi essencial para o sucesso das iniciativas.
âHavia cumplicidade. Era um tempo bom, apesar das dificuldades. Para nĂłs, foi um desafio, mas tudo era feito com prestimosidade. Era um verdadeiro manjar dos cĂ©usâ, recorda. Outra prĂĄtica relevante foi levar os pacientes com melhores condiçÔes fĂsicas e psicolĂłgicas para o GinĂĄsio Coberto, onde realizavam atividades fĂsicas. Essa medida integrava os internos Ă comunidade e promovia o bem-estar geral.
No entanto, CĂ©lia tambĂ©m lamenta o retrocesso que ocorreu apĂłs sua saĂda da direção do hospital, apontando que algumas das iniciativas deixaram de existir. Ela ressalta as dificuldades enfrentadas pelos pacientes mentais, especialmente pela rejeição de algumas famĂlias.
âDĂĄvamos alta hospitalar, mas, muitas vezes, a famĂlia nĂŁo ajudava. Alguns pacientes eram colocados para dormir embaixo da casa, sem direito a uma cama ou rede. Isso os fazia piorar e retornar ao hospital. Para muitos, o hospital era o Ășnico lugar onde recebiam assistĂȘncia e amorâ, desabafa.



