Bolsonaro sugere IA contra Moraes, mas pode ser prejudicado com resposta

O ex-presidente, que nega ter participado da trama, pode ser condenado a mais de 40 anos de prisĂŁo pelos crimes.

Por NotĂ­cias ao Minuto 22/02/2025

Jair Bolsonaro (PL) fez uma postagem nesta sexta-feira (21) propondo aos seus seguidores no X (antigo Twitter) que perguntem Ă  inteligĂȘncia artificial se juĂ­zes podem participar de delaçÔes premiadas, sugerindo erro na atuação do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, que conduziu a delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente.

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Quando a pergunta foi feita em plataformas de inteligĂȘncia artificial pela Folha, entretanto, as ferramentas trouxeram resultados que podem ir na contramĂŁo da intenção crĂ­tica de Bolsonaro. A busca por temas complexos em IAs, alertam especialistas, nĂŁo Ă© recomendada, pois pode gerar erros e incompletudes.

A postagem de Bolsonaro ocorre em contexto de intensificação de crĂ­ticas do polĂ­tico a Moraes depois de o ex-mandatĂĄrio ter sido denunciado na terça-feira (18) sob a acusação de liderar uma trama golpista para impedir a posse do presidente Lula (PT). Com a denĂșncia da PGR (Procuradoria-Geral da RepĂșblica), Bolsonaro se aproxima da possibilidade de se tornar rĂ©u na ação penal.

Ele Ă© acusado dos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrĂĄtico de Direito e de golpe de Estado, de dano qualificado pela violĂȘncia e grave ameaça contra patrimĂŽnio da UniĂŁo, deterioração de patrimĂŽnio tombado e participação em uma organização criminosa.

O ex-presidente, que nega ter participado da trama, pode ser condenado a mais de 40 anos de prisão pelos crimes. Por causa do cenårio, ele e aliados intensificaram críticas à delação de Mauro Cid e a autoridades que apuram os crimes.

Bolsonaro escreveu na rede social: “Um convite ao debate. Que tal escrever a frase: ‘O juĂ­z pode participar das audiĂȘncias realizadas durante a delação premiada?’ no ChatGPT”.

Apesar da intenção crĂ­tica de Bolsonaro implĂ­cita na sugestĂŁo de busca, uma pesquisa com a pergunta elaborada por ele, feita pela Folha no ChatGPT, trouxe como resultado que um juiz pode sim participar das audiĂȘncias, com a ressalva de que sua atuação precisa ser “cuidadosa e respeitar os princĂ­pios do devido processo legal”.

“Durante a audiĂȘncia, o juiz pode intervir para garantir que o procedimento seja conduzido de maneira justa e transparente, mas Ă© importante que sua participação nĂŁo comprometa a imparcialidade do julgamento futuro do caso”, afirmou a resposta da IA.

A mesma pergunta foi feita pela Folha ao chatbot Deepseek. De maneira similar, a ferramenta disse que juízes podem participar de delaçÔes premiadas.

“O juiz tem um papel central nesse processo, pois Ă© responsĂĄvel por garantir que os procedimentos sejam conduzidos de acordo com a lei, assegurando os direitos das partes envolvidas e a legalidade da colaboração. Durante as audiĂȘncias, o juiz ouve o depoimento do delator, avalia a relevĂąncia das informaçÔes fornecidas e decide sobre a concessĂŁo dos benefĂ­cios previstos na lei.”

Segundo Luísa Walter da Rosa, autora de livros sobre acordos penais e colaboração premiada e doutoranda em processo penal na USP, a ideia geral de que juízes podem participar de delaçÔes premiadas é correta, se for como fiscalizadores e depois que o acordo foi firmado pelas partes.

Ela explica que, depois de homologada a delação, o colaborador pode ser intimado a prestar esclarecimentos. O magistrado participa e decide em cenårios em que é preciso analisar se a colaboração precisa ou não ser rescindida, como aconteceu com Mauro Cid.

A colaboração premiada é um acordo entre investigador e investigado, no qual o segundo se compromete a ajudar na investigação em troca de benefícios negociados, como a diminuição de pena.

As respostas trazidas pelas IAs, entretanto, trouxeram incorreçÔes ou foram incompletas, ao não especificar, por exemplo, que o juiz só participa depois da homologação do acordo.

“Quanto a respeitar o devido processo legal, na verdade o juiz precisa observar o procedimento previsto na lei 12.850/2013. O devido processo legal envolve presunção de inocĂȘncia, direito ao silĂȘncio, de nĂŁo produzir prova contra si mesmo, todas garantias que o colaborador abre mĂŁo voluntariamente para firmar a colaboração premiada”, diz LuĂ­sa.

Mariza Ferro, professora de inteligĂȘncia artificial do Instituto de Computação da UFF (Universidade Federal Fluminense), alerta que tais ferramentas nĂŁo sĂŁo adequadas para a busca de temas complexos.

Ela afirma que a promessa atual desse tipo de tecnologia é entregar respostas que pareçam coerentes e semelhantes à linguagem humana, mas que não hå compromisso das plataformas em entregar a informação correta.

“O ChatGPT nĂŁo Ă© uma ferramenta de busca. É possĂ­vel receber dele resultados verdadeiros, como Ă© possĂ­vel que nĂŁo tenha nada de verdade [na resposta] ou meia verdade “, afirma.

As respostas da ferramenta tambĂ©m podem mudar a cada vez que ela for acionada e a depender de como a pergunta Ă© feita. AlĂ©m disso, inteligĂȘncias artificiais nĂŁo sĂŁo ferramentas neutras e podem apresentar vieses.

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