Brasil mantém domínio no Rainbow Six, e jogadores esperam mais reconhecimento

Brasileiros conquistam nono título internacional no FPS da Ubisoft, mas sem alcançarem a mesma popularidade de outras modalidades menos vitoriosas

Por Ge 18/02/2025

Com o título mundial da FaZe Clan no Six Invitational 2025, o Brasil conclui mais uma temporada de domínio, ao mesmo tempo em que jogadores esperam que o Rainbow Six: Siege, com nove troféus internacionais conquistados por times brasileiros, obtenha maior reconhecimento dentro da comunidade de esports. Eles acreditam que o First-Person Shooter (FPS) da Ubisoft tem menos popularidade do que merece pelos resultados em campeonatos.

De 2021 para cĂĄ, equipes brasileiras conquistaram trĂȘs tĂ­tulos mundiais, dois deles em sequĂȘncia nas Ășltimas temporadas, e cinco ediçÔes de Major, trĂȘs dos quais em 2023 e 2024. Em 2018, o primeiro trofĂ©u internacional do Brasil veio na Pro League.

Handyy, da FaZe Clan, abraça o irmĂŁo gĂȘmeo nade, da FURIA, depois de conquistar o tĂ­tulo mundial de Rainbow Six no Six Invitational 2025 — Foto: Michal Konkol/Ubisoft

Handyy, da FaZe Clan, abraça o irmĂŁo gĂȘmeo nade, da FURIA, depois de conquistar o tĂ­tulo mundial de Rainbow Six no Six Invitational 2025 — Foto: Michal Konkol/Ubisoft

DomĂ­nio brasileiro no Rainbow Six

Tamanha dominĂąncia pode ser explicada, segundo os jogadores, pelo investimento que os clubes estrangeiros de esports FaZe, Ninjas in Pyjamas (NIP) e Team Liquid iniciaram em 2018 ao contratarem elencos brasileiros, pela experiĂȘncia adquirida em campeonatos internacionais e trazida para a competição local, promovida pela Ubisoft, ao longo dos anos, pelo estilo de jogo prĂłprio criado pelo Brasil a partir desse intercĂąmbio e pela habilidade dos brasileiros em jogos de tiro.

— O Brasil demorou bastante para pegar ritmo. Antes era uma regiĂŁo qualquer. Foi mudando o ‘meta’, e o Brasil começou a ser mais criativo, a se adaptar e a pegar estilos de jogo de todas as regiĂ”es e criar o prĂłprio. A gente tem um estilo de jogo Ășnico, que acaba surpreendendo bastante os times de fora — analisa Lucas “soulz1”, da FaZe.

— Os brasileiros sĂŁo muito bons na parte de habilidade, sabem trocar tiro e se movimentar bem. A Ășnica coisa que falta Ă© ter o mental mais forte e blindado. Comparado a outras regiĂ”es, Ă© o que mais faz a diferença. Conforme os brasileiros evoluem dentro do jogo e tĂȘm o mental mais forte, desempenham cada vez melhor, que Ă© o que estĂĄ acontecendo hoje em dia — comenta Jaime “Cyber”, da FaZe, o primeiro atleta de Rainbow Six do muno a somar 2 mil abates nas principais competiçÔes.

O surgimento de novos jogadores, em torneios de acesso para a liga local, ainda estimula a competitividade e propicia uma renovação que tem mantido o Brasil em alta nos Ășltimos quatro anos, na opiniĂŁo de JoĂŁo Vitor “Jv92”, da FURIA.

— Tem muitos jogadores novos e bons, e os times se tornam mais competitivos. Os times brasileiros treinam entre si todos os dias, e todos melhoram.

PotĂȘncia, mas com visibilidade menor

Embora o Brasil seja uma potĂȘncia incontestĂĄvel, o Rainbow Six nĂŁo tem, no paĂ­s, nem de perto, a mesma visibilidade de games como Counter-Strike e Valorant, nos quais equipes brasileiras jĂĄ foram campeĂŁs mundiais, mas nĂŁo estĂŁo mais no auge. AtĂ© mesmo o League of Legends, cujos representantes do Brasil costumam ter campanhas pĂ­fias em participaçÔes internacionais, Ă© mais popular.

— O Rainbow Six deveria ser mais visto. Falta mais reconhecimento, da competição pelo menos. Um cenĂĄrio em que o Brasil reina tanto assim Ă© difĂ­cil — destaca Willian “Stk”, da Razah Company.

A explicação mais citada para essa contradição em um paĂ­s que torce muito por brasileiros e dĂĄ muita ĂȘnfase nas vitĂłrias em qualquer esporte Ă© a dificuldade de entender o Rainbow Six, nĂŁo sĂł para jogar, mas tambĂ©m para assistir, o que afasta parte do pĂșblico.

Felipe “FelipoX”, da FURIA, ressalta que o maior atrativo do FPS, de misturar tiro em primeira pessoa com tĂĄticas complexas, Ă© tambĂ©m a principal barreira para aquisição de pĂșblico consumidor.

— Um novo jogador assiste ao Rainbow Six e atĂ© acha legal de assistir, mas Ă© muito difĂ­cil de entender. A complexidade do jogo, ao mesmo tempo que Ă© algo muito bom, afasta o pĂșblico, e acaba nĂŁo tendo bases de jogadores e fĂŁs tĂŁo grandes, como outros jogos que sĂŁo mais fĂĄceis de consumir — compara o jogador, ainda lembrando que o Rainbow Six nĂŁo Ă© gratuito e precisa ser comprado.

Thiago “Handyy”, da FaZe, acredita que a sequĂȘncia de conquistas pode ajudar a diminuir a resistĂȘncia do pĂșblico brasileiro e fazer o jogo ser mais reconhecido.

— Com o passar do tempo, o Brasil ganhou tĂ­tulo atrĂĄs de tĂ­tulo, e a gente conseguiu ser mais reconhecido dentro do Rainbow Six. Eu vi muita gente que nem jogava o jogo realmente assistindo ao Six Invitational, pelo tamanho do campeonato, mas tambĂ©m pela paixĂŁo do brasileiro em ver outro brasileiro vencer.

O diretor de esports da Ubisoft para a AmĂ©rica Latina, Leandro “Montoya”, pondera que “as pessoas poderiam ouvir falar mais” de Rainbow Six e admite as dificuldades de acesso ao game, mas prefere valorizar o segmento de mercado que o FPS ocupa.

— O Siege tem o seu espaço, e a gente trabalha muito bem com a comunidade que nos suporta — enfatiza o executivo.

— A gente respeita outros jogos e os espaços que eles tĂȘm. O sucesso do League of Legends e do Counter-Strike, que vieram antes de nĂłs e ajudaram a pavimentar o cenĂĄrio de esports, auxilia quando temos de buscar as marcas e as empresas nĂŁo endĂȘmicas do mercado. Elas percebem os esports como uma grande modalidade. O Siege ocupa um espaço bem especĂ­fico, de FPS tĂĄtico. Quem se apaixona por ele nĂŁo joga outras modalidades.

Um indicativo prĂĄtico dessa desvalorização Ă© que, no PrĂȘmio eSports Brasil de 2024, apesar do sucesso brasileiro, o Rainbow Six nĂŁo ficou entre os finalistas na categoria de melhor jogo, assim como a w7m, vencedora de dois majors e do Six Invitational, nĂŁo entrou na concorrĂȘncia final para melhor organização.

O narrador AndrĂ© “meli”, a principal voz do Rainbow Six em portuguĂȘs, venceu como melhor caster, depois de anos sendo apontado como forte concorrente, e atĂ© favorito, e nĂŁo levar. Em entrevista, meli disse que o jogo “Ă s vezes Ă© deixado de escanteio”.

O diretor da Ubisoft revela que teve um “papo muito franco” com a organização do PrĂȘmio eSports Brasil.

— Eu espero que eles vejam o tamanho do Siege agora — comenta Montoya, ciente da necessidade de tentar levar o jogo para alĂ©m da sua prĂłpria comunidade.

— Espero que as pessoas venham e conheçam mais o Siege ao longo do tempo. Esse tambĂ©m Ă© o nosso trabalho, divulgar e aparecer.

O sucesso brasileiro pode ser justamente o maior atrativo para que o Rainbow Six seja mais reconhecido, como anseiam os jogadores. É algo que, admite o executivo da Ubisoft, tem que ser aproveitado ao máximo.

— É muito bom ter pelo menos uma modalidade, no caso, o Siege, que vence lĂĄ fora. É muito difĂ­cil. E a gente espera que isso continue, a gente nĂŁo sabe por quanto tempo. O cenĂĄrio flutua, Ă s vezes o ‘meta’ do game muda. Vamos surfar a onda enquanto estamos vencendo — crava o diretor de esports para a AmĂ©rica Latina.

PĂșblico brasileiro no GinĂĄsio Ibirapuera, em SĂŁo Paulo, durante o Six Invitational 2024, o campeonato mundial de Rainbow Six — Foto: Kirill Bachkirov/Ubisoft

PĂșblico brasileiro no GinĂĄsio Ibirapuera, em SĂŁo Paulo, durante o Six Invitational 2024, o campeonato mundial de Rainbow Six — Foto: Kirill Bachkirov/Ubisoft

Sucesso brasileiro em nĂșmeros

Neste ano, o Mundial de R6 teve cinco times e 30 jogadores brasileiros. AlĂ©m dos 25 integrantes de elencos totalmente brasileiros, cinco atletas do paĂ­s integraram trĂȘs equipes estrangeiras.

Desde 2018, depois de uma primeira edição com sĂł uma equipe brasileira, o nĂșmero de participantes no Six Invitational variou de quatro a seis, com o recorde de 32 jogadores do Brasil tendo ocorrido em 2022. Em 2021, haviam sido 31.

Nesses anos todos, o Brasil se manteve como o paĂ­s mais representado do mundo, sempre deixando os Estados Unidos na 2ÂȘ colocação.

Em nĂșmero de tĂ­tulos, o Brasil tem trĂȘs conquistas de Six Invitational: 2021 com a NIP, 2024 com a w7m e 2025 com a FaZe.

Em majors, os segundos campeonatos mais importantes do cenĂĄrio competitivo, sĂŁo cinco trofĂ©us para brasileiros, sendo trĂȘs da w7m, em 2023 e 2024, um da FaZe em 2021 e um da Team One tambĂ©m em 2021.

A Liquid venceu a Pro League, a série de campeonatos que antecedeu o ecossistema competitivo atual, em 2018.

No Mundial, nos majors e na Pro League, times brasileiros ficaram com 12 vices, sendo que quatro deles ocorreram em finais com dois representantes do Brasil na disputa.

Uma dominĂąncia tĂŁo extensa nĂŁo resulta apenas em reconhecimento internacional, mas tambĂ©m em dinheiro. Embora as duas equipes com maior faturamento com premiaçÔes nĂŁo sejam brasileiras, o Brasil Ă© apontado, em levantamento do site Esports Earnings, como o paĂ­s com o mais alto ganho em prĂȘmios, totalizando US$ 13,028 milhĂ”es, o que corresponde a cerca de R$ 74, 26 milhĂ”es na cotação atual. Os Estados Unidos, na 2ÂȘ colocação, faturaram US$ 8,2 milhĂ”es (R$ 46,76 milhĂ”es).

Os dados do site ainda nĂŁo consideram os prĂȘmios do Six Invitational 2025, concluĂ­do no Ășltimo domingo (16).

Brasil como sede internacional

Ginásio Ibirapuera, em São Paulo, em dia de final do Six Invitational 2024, o campeonato mundial de Rainbow Six — Foto: Eric Ananmalay/Ubisoft

Ginásio Ibirapuera, em São Paulo, em dia de final do Six Invitational 2024, o campeonato mundial de Rainbow Six — Foto: Eric Ananmalay/Ubisoft

AlĂ©m de uma potĂȘncia no servidor, o Brasil tambĂ©m passou a ser sede de campeonatos internacionais. Depois do Six Invitational de 2024 em SĂŁo Paulo, o evento inaugural da temporada 2025/2026, chamado Reload, ocorrerĂĄ no Rio de Janeiro, em maio, com a participação de 20 equipes.

Perguntado se, com isso, o Brasil passa a ser parte permanente do calendårio de competiçÔes de Rainbow Six, o vice-presidente de esports e game competitivo da Ubisoft, Francois-Xavier Deniele, prefere a cautela, mas exalta a comunidade brasileira.

— Precisamos ter certeza de que estamos oferecendo experiĂȘncia para todas as partes do mundo, nem sempre o Brasil, mas quando precisarmos voltar, voltaremos sempre que pudermos, porque Ă© uma coisa muito importante para nĂłs. Provamos que temos uma equipe no local que estĂĄ trabalhando muito bem em todos os aspectos, crescendo em todos os aspectos do jogo, celebrando a comunidade o tempo todo. É uma questĂŁo de tempo. Voltar jĂĄ um ano depois Ă© um grande sucesso. NĂłs ficamos longe por muito tempo e, agora, tivemos dois eventos em dois anos.

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