Carne, cafĂ©, azeite: ‘vilĂ”es da inflação’ vĂŁo continuar a subir?

O preço do café explodiu no ano passado, e o café moído acumula alta de 50,35% em 12 meses até janeiro

Por BBC Brasil 11/02/2025

Com o governo Lula e os consumidores de olho nos preços dos alimentos neste início de ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou nesta terça-feira (11/2) que a inflação fechou janeiro em alta de 0,16%.

Em 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida oficial da inflação no país, acumula alta de 4,56%, desacelerando em relação aos 4,83% registrados em dezembro.

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Dor de cabeça para governo e famílias, o preço de itens como carne, café, laranja, óleo de soja e azeite explodiu. Veja o que vem por aí para esse produtos/Foto: Getty Images

Foi a menor variação do IPCA para um mĂȘs de janeiro desde a implantação do Plano Real, em 1994, devido principalmente a uma queda de 14,21% no preço da energia elĂ©trica residencial, por conta do repasse do “bĂŽnus de Itaipu” Ă s contas de luz.

O bÎnus tem origem num saldo positivo de R$ 1,3 bilhão na conta de comercialização de energia da usina hidrelétrica de Itaipu, distribuído como crédito na conta de luz dos brasileiros, seguindo uma regulamentação do setor.

Se a conta de luz ajudou, esse não foi o caso dos transportes (com alta de 1,3%, puxada pelos reajustes das passagens aéreas e do transporte urbano em diversas capitais) e de alimentos e bebidas, que subiram 0,96% em janeiro, com uma alta de 1,07% na alimentação em domicílio, puxada pela cenoura (36,14%), tomate (20,27%), e café moído (8,56%).

Mas o que esperar para o preço de alimentos como carne, cafĂ©, laranja, Ăłleo de soja e azeite, que foram os “vilĂ”es da inflação” no perĂ­odo recente?

Conversamos com AndrĂ© Braz, coordenador de Índices de Preços na Fundação Getulio Vargas (FGV), para saber o que vem por aĂ­.

Carnes

As carnes subiram 0,36% em janeiro e em 12 meses acumulam alta de 21,17%, bem acima da inflação geral (4,56%).

Segundo Braz, a carne estå em alta desde o ano passado por uma combinação de dois fatores.

Bois em fazenda de produção de gado de corte
Produtores abateram muitas fĂȘmeas no ano passado, e sĂŁo elas que produzem os bezerros. A redução no nĂșmero de bois no pasto afeta a oferta de carne/Foto: Getty Images

O primeiro fator foi a desvalorização da nossa moeda, que contribuiu para o Brasil bater recorde de exportação de carne no ano passado. Isso é bom para a balança comercial do país, mas deixa menos produto disponível no mercado interno.

O segundo fator Ă© o chamado ciclo pecuĂĄrio.

Por conta da queda do preço do boi em 2023, os produtores aumentaram o abate de fĂȘmeas. Isso gera caixa para o produtor e aumenta temporariamente a oferta de carne, mas reduz o rebanho no mĂ©dio prazo, jĂĄ que sĂŁo as fĂȘmeas (chamadas de matrizes) que produzem os bezerros. Essa redução de oferta empurra os preços da carne para cima, que foi o que aconteceu no ano passado.

E a alta de preços deve se manter em 2025, jå que leva tempo para recompor os rebanhos.

Café

O preço do café explodiu no ano passado, e o café moído acumula alta de 50,35% em 12 meses até janeiro.

“O cafĂ© tem um ciclo bianual, entĂŁo tem ano que [a oferta] Ă© um pouco mais estĂĄvel, e 2025 Ă© o ano de oferta mais fraca para ele”, diz o economista da FGV.

Mão masculina servindo café com uma cafeteira italiana em uma caneca azul
‘O cafĂ© tem um ciclo bianual e 2025 Ă© ano de oferta mais fraca’, diz economista/Foto: Getty Images

Em 2024, o preço do café teve forte alta em meio a uma seca histórica que afetou os cafezais entre agosto e setembro, seguida por fortes chuvas em outubro.

“O efeito climĂĄtico do ano passado pegou o cafĂ© quando a gente esperava que a safra fosse boa, e aĂ­ a florada foi comprometida pela seca, entĂŁo isso diminuiu a oferta. E esse ano Ă© um ano fraco, entĂŁo o cafĂ© deve continuar como um dos itens que seguirĂŁo acumulando um maior aumento de preço”, prevĂȘ Braz.

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Laranja

O preço da laranja foi recorde em 2024, com a laranja lima acumulando alta de 59,56% em 12 meses até janeiro e a laranja pera subindo 34,52% no mesmo período.

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a alta nos preços foi causada pelo clima seco e temperaturas elevadas nas regiÔes produtoras, que afetaram a produtividade das lavouras.

MĂŁos cortando uma laranja com faca sobre uma tĂĄbua de madeira, com laranjas jĂĄ espremidas ao lado
Safra 2024/25 de laranja vai ser 27% menor do que a anterior, mantendo preços da fruta pressionado/Foto: Getty Images

Na safra 2024/25, produtores do Estado de São Paulo e do Triùngulo Mineiro devem colher 223,14 milhÔes de caixas de 40,8 kg de laranja, conforme o relatório de dezembro do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), 27,4% menos do que na safra anterior (2023/24).

“A laranja vai depender mais da safra de outros paĂ­ses, [para definir] como Ă© que o preço internacional dela vai se comportar, e o Brasil pode ter um grande protagonismo na exportação de laranja, porque tambĂ©m Ă© um grande produtor mundial e pode se valer disso”, diz Braz.

“Mas o preço vai continuar pressionado, e se a gente exportar muito, isso vai virar um problema para a oferta domĂ©stica”, completa o especialista em inflação.

Óleo de soja

O óleo de soja acumula alta de 24,55% em 12 meses, mas aqui as perspectivas são mais positivas, graças à projeção de safra recorde para o grão este ano.

Em janeiro, o Ăłleo jĂĄ registrou queda de 0,87%, segundo o IPCA.

Embalagens plĂĄsticas contendo Ăłleo de soja
‘Óleo de soja nĂŁo vai recompor o preço de dois anos atrĂĄs, mas pode ser que deixe de subir ao longo de 2025’, prevĂȘ economista da FGV/Foto: Getty Images

“O Ăłleo Ă© o item que tem mais chances de desacelerar, porque o preço da soja vem recuando”, diz o economista da FGV.

“EntĂŁo talvez o Ăłleo acumule alguma queda de preço ao longo desse ano — ele nĂŁo vai recompor o preço de dois anos atrĂĄs, mas pode ser que deixe de subir ao longo de 2025.”

Azeite

Um item de consumo das famĂ­lias brasileiras de renda mais alta, o azeite acumula um aumento de 17,24% em 12 meses, segundo o IBGE, com os preços internacionais tendo sido impactados nos Ășltimos anos por secas histĂłricas nos principais paĂ­ses produtores.

Neste início de ano, os preços no mercado externo jå estão em queda, devido a uma safra melhor na Espanha, país responsåvel por mais de 40% da produção global de azeite.

Oliveira carregada de azeitonas verdes
Preços internacionais do azeite estão em queda, com safra maior na Espanha, mas cùmbio deve impedir que preços baixem de forma significativa no Brasil/Foto: Getty Images

Mas, segundo Braz, é improvåvel que os preços voltem ao patamar pré-crise por aqui, porque o Brasil importa 99% do azeite consumido internamente, e o cùmbio desvalorizado não deve ajudar.

“O azeite sofreu com um problema de clima, e vai depender das safras na Espanha, Portugal e GrĂ©cia, que sĂŁo os grandes produtores mundiais de azeite”, diz Braz.

“Com o agravante da nossa desvalorização cambial, acredito que tem pouco espaço para vermos o azeite ficar muito mais barato.”

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