PT completa 45 anos: a ascensão e queda do partido criado para mudar a história na política

Aniversário é lembrado sem discursos ou ações capazes de mostrar que a o Partido foi o que mais ganhou eleições presidenciais no Brasil 

Em volta de um bolinho comprado às pressas numa padaria das adjacências, militantes petistas reuniram-se na tarde desta segunda-feira (10), sem direito a discursos e sem as figuras proeminentes da sigla no Estado, para comemorar os 45 anos de fundação do Partido do Trabalhadores, celebrado em todo o país neste 10 de fevereiro.

No Acre, os diretórios regionais e municipal de Rio Branco, que agora cabem, de novo, numa casinha acanhada da Rua Francisco Neri, no Conjunto Solar, no bairro da Vila Ivonete, o Partido que mais ganhou eleições para presidente no país e que teve no Acre, ao longo de cinco mandatos de governadores consecutivos, os 20 anos de experiência de governança mais longeva na história, lembrou bem os tempos em que seus adversários, em tom de galhofa, diziam que o PT cabia dentro de um fusca.

O então presidente Lula acompanhado dos irmãos Viana, ex-governadores do Acre/ Foto: Reprodução

Às vezes, ainda sobrava vagas

A propósito, o dono do fusca, na cor vermelha, como símbolo do partido caracterizado por uma estrela, também em vermelho e que prometia revolucionar o Brasil, pertencia ao sociólogo Nilson Mourão, então professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e primeiro candidato a governador da sigla na história do Estado, nas primeiras eleições, nas quais poderiam ser eleitos de forma direta candidatos a governadores estaduais, em 1982.

Naquele pleito, com a ditadura militar que havia tomado o poder de assalto em 1964, quando os generais derrubaram o então presidente constitucional João Goulart e, no Acre, o governador José Augusto, o regime cívico-militar, ainda dava demonstração de força. Do contrário, o candidato a governador que representava o regime, mesmo depois de quase 20 anos de poder, o então senador Jorge Kalume, não teria chegado em segundo lugar na disputa.

Bolo de aniversário dos 45 anos do Partido do Trabalhadores (PT)/Foto cedida

O vencedor foi o então deputado federal Nabor Júnior, eleito governador numa campanha cívica em que, mesmo com o PT de Nilson Mourão se apresentando como uma alternativa de poder, os democratas e os que queriam mudanças no país votaram em peso no candidato apoiado por Ulysses Guimarães, o deputado federal do MDB e de simbologia política e ideológica que representavam a antítese do regime imposto pela ditadura militar em 31de março de 1964.

Nilson Mourão, o sociólogo da mesma estatura diminuta de Nabor Júnior – seu primo legitimo, aliás, ambos membros de uma tradicional família de seringalistas do município de Tarauacá, o homem do fusca vermelho, ficaria em terceiro lugar, “Nossa quantidade de votos não daria para encher uma cuia de tacacá”, contaria, anos depois, o trabalhador rural e sindicalista de Brasileia Elias Rozendo, ex-candidato a vice-governador na chapa de Nilson Mourão, ao lembrar-se da aventura de formação do Partido no Acre.

PT chega aos 45 anos de fundação. Presidente Lula durante fala em público/ Foto: Reprodução

O PT havia chegado ao Acre pouco mais de dois anos antes. Durante a inauguração do Hospital da Criança, em Rio Branco, em 2004, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já se preparando para disputar a reeleição em busca de um segundo mandato, revelou, em discurso, como se dera seu contato com os futuros petistas do Acre.

Na época, Luiz Inácio, que ainda não havia registrado o apelido Lula como sobrenome – o que faria em 1982, quando ele próprio disputaria o governo de São Paulo e também perderia para um emedebista e companheiro de Ulysses e Nabor Júnior, André Franco Montoro – já ouvira falar do Acre. Aliás, já havia sido preso por causa do Acre. Ao lado de Jacó Bittar, Chico Mendes, João Maia e outros futuros petistas graduados, Lula seria indiciado com base na temida e draconiana Lei de Segurança Nacional, por causa de um discurso feito em Brasiléia, interior do Estado.

A fala deu-se em cima de um caminhão, com aquele sindicalista baixinho e aparentando uma indignação que poderia ser comparada nos dias atuais a ódio, barba mal aparada e enegrecida e vasta cabeleira ornada com cabelos encaracolados e esvoaçantes ao sabor do vento.

Lula e seus seguidores estavam ali para a missa de sétimo dia do falecimento, por assassinato, do então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia e presidente da executiva municipal provisória do PT, Wilson Pinheiro de Souza. Ele foi abatido a tiros dentro da sede do Sindicato a 15 de julho de 1980, num crime em que, 45 anos depois, nunca se descobriu qualquer pista sobre o autor ou autores.

Wilson Pinheiro de Souza, morto com três tiros de armas de fogo dentro da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia/ Foto: Reprodução

Lula, no entanto, parecia saber de onde surgiram os balaços traiçoeiros e assassinos e disse, em discurso:

– Estou cansado de andar o país enterrando nossos companheiros. Penso que já passa da hora da onça beber água.

O avião de pequeno porte que havia levado aquela comitiva de sindicalistas de Rio Branco para Brasiléia ainda taxiava no acanhado aeroporto da então Vila Epitácio para levantar voo de volta à Capital com Lula e seus companheiros a bordo, quando o capataz de fazenda Nilo Sérgio de Oliveira, o “Nilão”, era preso, amarrado e teria que ser submetido a um duro interrogatório.  Aquele tribunal de justiceiros formado às pressas numa estrada empoeirada entre Brasiléia e Assis Brasil era integrado pelos mesmos homens que haviam ouvido Lula dizer, momentos antes, que passava da hora de a onça beber água.

A onça beberia água e sangue

“Nilão”, suspeito de mandante ou participante da morte de Wilson Pinheiro, foi morto com mais de 30 tiros, de varias armas diferentes. O Tribunal do Júri Popular, no início dos anos 2000, leva a julgamento pelo menos 25 acusados por aquele justiçamento. A juíza da comarca, Solange Fagundes, com base nas decisões do Conselho de Sentença, absolveu todos os acusados “por falta de provas”.

Um dos expectadores daquele julgamento no salão apertado do Tribunal em Brasileia era ninguém menos que o autor da frase sobre a onça, Luiz Inácio Lula da Silva, que se preparava para assumir seu primeiro mandato como presidente da República, em 2002.

Mas ele já tinha conhecimento do Acre antes mesmo da morte de Wilson Pinheiro, segundo ele mesmo contou naquele discurso no pátio do Hospital da Criança, em Rio Branco, no primeiro mandato do então governador petista Jorge Viana. Disse que um dia estava na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, em São Bernardo do Campo, quando a então secretária veio o avisar de que, na recepção, haviam dois homens que queriam falar com ele, sobre política.

– Política aqui na sede do Sindicato, não. Vamos lá para o Bar do Gordo – dissera um Lula ressabiado com os homens da ditadura, que havia proibido atuação política-partidária dentro dos sindicatos.

Foi então no Bar do Gordo, nas imediações da sede do Sindicato, entre doses de cachaça e com calabresa e torremos de tira gosto, que Lula fica sabendo que aqueles dois homens que ele inicialmente desconfiou serem policiais disfarçados eram, na verdade, João Maia da Silva Filho, então delegados da Contag (Confederação dos Trabalhadores na Agricultura) no Acre, e Chico Mendes, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e vereador do MDB no município, eleito em 1978 – ambos interessados em fundar o PT no Acre.

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 1988 durante velório de Chico Mendes./ Foto: Reprodução

E fundariam uma sigla que, no Acre, muito mais que em qualquer outro lugar do país, foi, a um só tempo, símbolo de resistência e de esperança para um povo, o qual, depois de chegar ao poder e nele permanecer por 20 anos, virou uma espécie de praga, coisa abjeta ao ponto de, em 2018, além de perder as eleições para o governo do Estado, com Marcus Alexandre, que seria o sexto governador seguido da sigla no Acre, perdeu as duas cadeiras no Senado, todos os deputados federais e os estaduais. Uma derrocada tão grande que, nas eleições de municipais de 2024, além de não ter um candidato próprio à Prefeitura da Capital, elegeu apenas o vereador Andre Kamai.

Era ele, aliás, o único militante petista com alguma representatividade na festa com clima de velório desta segunda-feira. As chamadas lideranças petistas, as que estão vivas, como Marina Silva, Jorge e Tião Viana, trilham outros caminhos. Até mesmo Nilson Mourão, o dono do fusquinha vermelho que tantas vezes transportou o próprio Lula pelas estadas empoeiradas do Acre, luta para ter um fim com alguma dignidade, enfrentando o mal de parkinson.

Marina Silva e Jorge Viana foram nomes que marcaram o PT/ Foto: Reprodução

O aniversário do PT “comemorado” nesta tarde de segunda-feira, pelo número de participantes, sem discurso ou qualquer outra manifestação de caráter mais politizado, revelou o que é a sigla atualmente no Acre e em todo o país: um espectro a caminho do ocaso.

PT chega aos 45 anos num momento decisivo para o Brasil, diz publicação do diretório nacional

Em nível nacional, mirando 2026, quando Lula poderia buscar mais um mandato, a depender de saúde e da situação econômica do país, o PT fez divulgar que, aos fazer 45 anos de existência, “se consolida como uma das maiores organizações políticas de esquerda do mundo”.

Na publicação, é contada a seguinte história: “o PT nasceu em 10 de fevereiro de 1980, durante a histórica reunião no Colégio Sion, em São Paulo, com o objetivo de dar voz e vez à imensa maioria da população brasileira da cidade e do campo que, ao longo de sua história, foi colocada à margem das grandes decisões políticas e da distribuição da riqueza do país”.

E prossegue: “de lá para cá, a trajetória do partido foi sempre marcada pela resistência e pelo compromisso diário na defesa da democracia, da liberdade de manifestação e de organização da classe trabalhadora e da garantia de pleno acesso aos direitos mais básicos do povo brasileiro.

A luta do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras para mudar e transformar a política no país começa no enfrentamento da ditadura militar, passa pela atuação na Constituinte em defesa da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, e se estende com a sua efetiva participação no processo eleitoral, com a conquista de prefeituras, governos estaduais e da Presidência da República, onde foi vitorioso em 5 das 8 eleições presidenciais disputadas.

Lula subindo a rampa do planalto durante posse em 2023/ Foto: Hermes de Paula

São 45 anos de lutas, resistência e de conquistas, refletidas em grandes batalhas por melhores salários e geração de empregos, pela reforma agrária, pelo direito à saúde, educação, moradia, segurança pública, à cultura e à vida com dignidade. A atuação dos governos petistas contra a fome, a pobreza, a desigualdade e o combate à discriminação da população negra, mulheres, indígenas e população LGBT+ já se tornou uma marca no cenário político brasileiro.

Todas essas lutas se somam ao enfrentamento nos últimos anos contra uma das mais violentas campanhas promovidas contra um partido político e o presidente Lula, maior liderança popular da história do Brasil. E a vitória não seria possível sem o apoio e a força extraordinária da militância petista, maior patrimônio do partido em todos estes 45 anos.

O PT chega aos seus 45 anos de existência outra vez à frente do governo federal, no terceiro mandato do presidente Lula, que tem a missão de reconstruir o país, após o maior desmonte promovido pelo governo anterior que, além de destruir as políticas públicas implementadas pelos governos petistas e demonstrar total incompetência e insensibilidade perante a morte de 700 mil pessoas vitimadas pela Covid-19, ainda colocou o Brasil novamente no mapa da fome das Nações Unidas.

É preciso destacar que, em apenas dois anos de governo democrático e popular, o país voltou a crescer, foram retomados os programas sociais, a geração de emprego e renda, os investimentos em infraestrutura e também vem sendo implementada a justiça tributária, além da reconquista do protagonismo internacional, entre outros avanços.

O PT comemora seu 45º aniversário em um momento crucial para o futuro do Brasil e do mundo, onde a disputa política tem sido marcada pelo crescimento do extremismo. Além, disso, o mundo do trabalho e os meios de comunicação passam por uma série de transformações que exigem do conjunto do partido uma profunda reflexão e tomada de decisões urgentes.

Apesar da busca por alternativas frente a novos desafios, o compromisso histórico do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras com a construção de uma sociedade democrática, mais justa e igualitária permanece intacto.

Como bem destaca a presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann, em vídeo comemorativo divulgado nesta segunda-feira (10): “45 anos não são 45 dias. O PT aprendeu muito e cresceu com o povo brasileiro nessa trajetória. Vamos seguir juntos, cada vez mais, para transformar o presente e construir um futuro melhor”.

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